A autobiografia de Jane Fonda e o elogio ao impecavelmente imperfeito

A autobiografia de Jane Fonda e o elogio ao impecavelmente imperfeito

Minha mãe não sabia que estava criando um monstro ao me dar de presente Carmen, uma biografia, trabalho sensacional do escritor Ruy Castro sobre a vida de Carmen Miranda. Depois de ler esse livro, eu simplesmente adentrei no mundo das biografias, que se tornaram meu gênero literário favorito. Tenho muitas biografias, muitas mesmo. Se eu gosto do artista, é provável que vá ler sobre sua vida, para ter aquele sentimento de “sou íntima de fulano”.

Ao longo destes dez anos de leitora voraz de biografias, pude perceber que esses livros seguem uma espécie de fórmula. Geralmente ou o artista é retratado como um santo ou é destruído pelo autor da obra. Quando o livro é autobiográfico, existe uma tentativa de endeusar a própria vida, negar alguns boatos e se redimir perante os fãs. Hoje, como futura historiadora, vejo isso como narrativas históricas com as quais temos de lidar. Não há uma verdade absoluta, é uma questão de ponto de vista, de lugar de fala. É nisso que precisamos prestar atenção.

Pelos motivos elencados acima, eu me achava preparada para o que leria em Jane Fonda: minha vida até agora. Porém, o que aconteceu foi um daqueles momentos de glória, únicos na vida, em que você está diante de algo completamente diferente, capaz de mudar sua vida. Jane Fonda toma tudo o que você conhece sobre autobiografias, joga fora e cria algo muito verdadeiro, e a única reação que poderíamos ter é chorar. Ah, como chorei baldes com esse livro.

Muito mais que uma narrativa autobiográfica, o livro nos ajuda a entender nossas experiências enquanto mulheres no mundo. Talvez o seu maior bônus seja a aproximação que Jane faz com as leitoras. Ela mostra que você não está sozinha, que seus sentimentos não são inválidos e ainda reflete sobre os motivos pelos quais “traímos nós mesmas”.

Você achou que nunca leria uma autobiografia feminista? Pois essa daqui é – e muito!

Continue Reading…

Como eliminar seu chefe (1980)

Como eliminar seu chefe (1980)

Se hoje as feministas ainda são taxadas de loucas, imagine na década de 80. Passado os anos 60 e 70, momentos chave para o movimento feminista, Hollywood começava, aos poucos, a incorporar essa temática em seus filmes. Ainda que a palavra feminista não fosse claramente pronunciada nos filmes, as temáticas estavam lá. Das mães solteiras interpretadas por Gena Rowlands, Ellen Burstyn e Diane Keaton à ativista estudantil de Barbra Streisand em O nosso amor de ontem. No entanto, todas essas personagens eram uma versão limpinha e polida da feminista louca, queimadora de sutiã e não depilada. Versões que o cinema de massa poderia engolir facilmente.

Como eliminar seu chefe, infelizmente, continua a safra de filmes com temáticas ligadas ao feminismo facilmente digeríveis. A diferença é que ele faz isso depois de muito sambar na nossa cara, mostrando a opressão sofrida pelas mulheres no ambiente de trabalho.

Continue Reading…

Até os Fortes Vacilam (1960)

Até os Fortes Vacilam (1960)

 

Palavras não bastam para definir o que sentimos ao encontrar esse filme, protagonizado por Anthony Perkins e a estreante Jane Fonda em 1960. “Tall Story” é aquele projeto que tinha tudo pra dar certo, mas… não deu. Antes de Norman Bates, Perkins interpretou diversos “mocinhos” em filmes românticos (entre eles, as pérolas “Desire Under the Elms” em parceria com Sophia Loren e “Green Mansions” em que era o mozão de Audrey Hepburn). Jane Fonda fazia trabalhos como modelo, enquanto estudava os últimos “métodos” de atuação com Lee Strasberg. A curiosidade a cerca de sua estréia era assunto de diversas colunas em revistas de cinema.

Quem liga para as críticas, quando se pode testemunhar Tony Perkins jogando basquete e a jovem cheerleader Jane Fonda? “Tall Story” é a típica trama sessão da tarde, e como assisti sem pretensão, pude me divertir um bocado! Vamos por partes: o filme dirigido por Joshua Logan é uma farofa comédia que faz uma crítica social bem humorada, sobre estudantes que aproveitavam a rotina universitária para arrumarem um casamento. Claro que, infelizmente, é a personagem de Jane Fonda que vê a faculdade como um mero instrumento para alcançar o sonho de se casar (num período em que a chegada das mulheres na universidade estava a todo vapor).

Tall Story (Até os Fortes Vacilam, no Brasil) foi lançado em 6 de abril, poucos meses antes da estréia de Psicose. Seria a última vez que a América receberia Perkins com os mesmos olhos. Continue Reading…

Pelos bairros do vício (1962)

Pelos bairros do vício (1962)

Ou os homossexuais eram motivo de piada nos filmes ou simplesmente apagados. Não havia meio termo. De vez em quando, uma Greta Garbo dava um selinho em outra moça e Marlene Dietrich também, mas tudo fazia parte do burlesco, da arte, era só um momento. Não era assunto para um filme. O romance homossexual não era assunto de filme. Os anos 60 iriam derrubar, aos poucos é verdade, este muro de silenciamento.

Essa época foi um momento de incerteza para Hollywood. A era clássica estava terminando, não estava mais dando os mesmos lucros de antes, a televisão parecia o canal. Não é a toa que uma das protagonistas de Pelos bairros do vício partiu para a televisão depois desse filme, que fora o último de sua carreira no cinema. O fato é que estava difícil. Não foram só os atores e atrizes que envelheceram, mas o que chamamos de cinema clássico também. Era preciso reinventar antes que Hollywood fosse à bancarrota.

 

Infâmia (1961) de William Wyler abriu as portas para que o amor gay pudesse ser retratado no cinema. Você pode me dizer: “tudo bem, mas e Festim Diabólico de Hitchcock? Os protagonistas eram claramente homossexuais!”. Sim, só que o filme não foca o relacionamento deles; e sim o amigo assassinado e escondido por eles dentro de um baú. Aliás, os personagens homossexuais sempre eram depravados e maus. Ainda que Infâmia tenha aberto essa porta, as protagonistas tinham vergonha de sua sexualidade. Infelizmente Pelos bairros do vício também trabalha dessa forma. E isso os filmes demoraram a mudar. O importante é que, apesar dessas representações horrorosas, o amor gay está ali. A população LGBT existe e não será o silenciamento de Hollywood que anulará esse fato. Pelos bairros do vício mostra o amor homossexual, e o mais importante: uma atriz do calibre de Barbara Stanwyck intepretava uma das personagens gays. Como assim?

Continue Reading…

                                    
Encontre-nos no Facebook
Filmes por Ator:
                                                                                                                       
Filmes por Atriz:
                                                                                                                       
Filmes por Diretor: