A autobiografia de Jane Fonda e o elogio ao impecavelmente imperfeito

A autobiografia de Jane Fonda e o elogio ao impecavelmente imperfeito

Minha mãe não sabia que estava criando um monstro ao me dar de presente Carmen, uma biografia, trabalho sensacional do escritor Ruy Castro sobre a vida de Carmen Miranda. Depois de ler esse livro, eu simplesmente adentrei no mundo das biografias, que se tornaram meu gênero literário favorito. Tenho muitas biografias, muitas mesmo. Se eu gosto do artista, é provável que vá ler sobre sua vida, para ter aquele sentimento de “sou íntima de fulano”.

Ao longo destes dez anos de leitora voraz de biografias, pude perceber que esses livros seguem uma espécie de fórmula. Geralmente ou o artista é retratado como um santo ou é destruído pelo autor da obra. Quando o livro é autobiográfico, existe uma tentativa de endeusar a própria vida, negar alguns boatos e se redimir perante os fãs. Hoje, como futura historiadora, vejo isso como narrativas históricas com as quais temos de lidar. Não há uma verdade absoluta, é uma questão de ponto de vista, de lugar de fala. É nisso que precisamos prestar atenção.

Pelos motivos elencados acima, eu me achava preparada para o que leria em Jane Fonda: minha vida até agora. Porém, o que aconteceu foi um daqueles momentos de glória, únicos na vida, em que você está diante de algo completamente diferente, capaz de mudar sua vida. Jane Fonda toma tudo o que você conhece sobre autobiografias, joga fora e cria algo muito verdadeiro, e a única reação que poderíamos ter é chorar. Ah, como chorei baldes com esse livro.

Muito mais que uma narrativa autobiográfica, o livro nos ajuda a entender nossas experiências enquanto mulheres no mundo. Talvez o seu maior bônus seja a aproximação que Jane faz com as leitoras. Ela mostra que você não está sozinha, que seus sentimentos não são inválidos e ainda reflete sobre os motivos pelos quais “traímos nós mesmas”.

Você achou que nunca leria uma autobiografia feminista? Pois essa daqui é – e muito!

Continue Reading…

Mulher (1997/1998)

Mulher (1997/1998)

Sempre subestimo minha capacidade de me apaixonar novamente por uma artista e simplesmente sair correndo para ver tudo o que ela fez nesta vida. Pois a grande dama que conquistou meu coração desta vez chama-se Eva Wilma.

Semana passada fui assisti-la pela primeira vez no teatro e saí de lá apaixonada. Quando digo aos meus amigos que queria me deitar no palco e pedir para que ela fizesse tudo comigo, eu não estou brincando. Há muito tempo não experimentava sensações tão fortes em relação a uma história, a uma obra artística. Parecia que, naquele momento em que ela estava representando na minha frente, eu redescobri que tinha um coração batendo dentro de mim. Por isso, quando a peça terminou, não sabia direito o que fazer. Eu sentia aquele coração batendo no meu peito, tão forte. Infelizmente, a sensação evaporou rapidamente, fazendo com que eu tivesse uma única certeza: precisava muito sentir o coração novamente. Muito. E o único jeito era ter a atuação monstruosa dessa atriz desenrolando-se bem em frente a mim. Começava a busca incessante, à la Sherlock Holmes, pela próxima produção de Eva Wilma que arrancaria meu coração fora.

Por que fiquei tão surpreendida ao constatar que a segunda produção que estou vendo com Eva Wilma é super feminista? A resposta é lógica: uma série como Mulher jamais seria exibida na televisão de 2016. Ela só poderia ser fruto do fim dos anos 1990.

(e porque acho que ela estava predestinada a mim, é claro!)

Continue Reading…

Presente de grego (1987)

Presente de grego (1987)

Eu notei que nos últimos meses o Netflix tem desenterrado um monte de filmes aleatórios. Pensou em algum filme lado B com a Whoopi Goldberg dos anos 90 que você via na Sessão da Tarde? Pode apostar que está lá. Coisas que você nem lembrava que existia da década de 80? Também!

Um desses xuxuzinhos redescobertos foi a comédia Presente de grego, um daqueles filmes beeem yuppies dos anos 80. Temos uma Diane Keaton (que consegue me fazer assistir a algumas bombas só por sua digníssima presença) como uma mulher independente e workaholic – e dentro disso, um caminhão de estereótipos e ideias preconcebidas sobre esse perfil de mulher. Ok, ok, a gente bem sabe que é uma outra época, mas eu não consigo deixar meu eu lírico problematizador de fora, nem mesmo mais com clássicos da Old Hollywood. Mas, bem lá no fundo, Presente de grego (ou Baby Boom, no original), apesar dos clichês do gênero, consegue ter seus momentos divertidos.

Continue Reading…

Como eliminar seu chefe (1980)

Como eliminar seu chefe (1980)

Se hoje as feministas ainda são taxadas de loucas, imagine na década de 80. Passado os anos 60 e 70, momentos chave para o movimento feminista, Hollywood começava, aos poucos, a incorporar essa temática em seus filmes. Ainda que a palavra feminista não fosse claramente pronunciada nos filmes, as temáticas estavam lá. Das mães solteiras interpretadas por Gena Rowlands, Ellen Burstyn e Diane Keaton à ativista estudantil de Barbra Streisand em O nosso amor de ontem. No entanto, todas essas personagens eram uma versão limpinha e polida da feminista louca, queimadora de sutiã e não depilada. Versões que o cinema de massa poderia engolir facilmente.

Como eliminar seu chefe, infelizmente, continua a safra de filmes com temáticas ligadas ao feminismo facilmente digeríveis. A diferença é que ele faz isso depois de muito sambar na nossa cara, mostrando a opressão sofrida pelas mulheres no ambiente de trabalho.

Continue Reading…

Carol (2015)

Carol (2015)

You seek resolutions because you are young.

Carol é uma gota d’água no meio do deserto. Uma pequena gota em meio à areia pesada do deserto. Você olha para o horizonte e só enxerga areia, areia, areia. No entanto, apesar de pequena, essa gotinha é poderosa. Ela não deixa que a tempestade de areia seja um empecilho, e faz com que o horizonte – mesmo distante – não pareça algo inatingível. Carol é uma história poderosa que restaura minha fé em Hollywood, uma crença quase cega de que um novo horizonte de tramas emocionantes nos espera. Um sopro de vida nesse deserto de histórias que não representam a comunidade LGBQT.

As definições de fé no cinema foram devidamente restauradas. Continue Reading…

Complicated women (2003)

Complicated women (2003)

Há um consenso de que o cinema clássico é o lugar do recato e do amor ingênuo. Sexo? Suicídio? Homossexualidade? Isso non ecziste! Os filmes clássicos são melhores, pois não mostram violência, mulheres que abortam ou saíam da norma.

Será mesmo? Não, essa é a ideia que eles querem que você tenha.

Houve um tempo em Hollywood em que as mulheres dominaram as bilheterias e fizeram filmes que falavam sobre a mulher moderna que nascia nos anos 20. Assuntos polêmicos, como aborto e infidelidade, estavam na agenda e eram tratados de uma forma que ia contra toda ideia que temos sobre filmes antigos. Esse período de zueira, quer dizer, de liberação em Hollywood, é o que chamamos de era pre-code.

Complicated Women, documentário narrado por Jane Fonda e baseado na obra de Mick La Salle, mostra que o cinema clássico pode ser sim muito ousado!

Continue Reading…

O bebê de Rosemary (1968)

O bebê de Rosemary (1968)

Quando fui morar com minha avó, um dos primeiros artistas aos quais ela me apresentou foi Raul Seixas. Ela gostava de ouvir os LPs dele e logo eu já sabia todas as músicas. Uma de minhas favoritas, Sociedade Alternativa, dizia:

Fazes o que tu queres pois é tudo da lei!

Anos mais tarde descobri que algumas músicas de Raul foram escritas com Paulo Coelho, o escritor que todos amamos odiar. Naquela época, Coelho se identificava com o ocultismo e muitas das letras escritas pelos dois refletem isso, como é o caso de Sociedade Alternativa. Esse meu trecho favorito, por exemplo, é um dos lemas de Aleister Crowley – grande ocultista do século XIX –  contido no famoso trabalho O livro da lei.

E o que isso tem a ver com O bebê de Rosemary? Tudo, meus amigos, tudo.

Embora Aleister Crowley já estivesse morto, suas ideias sobre fazes o que tu queres, há de ser tudo da lei foram reapropriadas pelos hippies nos movimentos pacifistas dos anos 60. O bebê de Rosemary também bebeu da fonte Crowley, contando uma história de uma seita ocultista na cidade de Nova York.

Continue Reading…

Despedida de solteiro (1957)

Despedida de solteiro (1957)

Quando voltaram para suas casas, após o término da Segunda Guerra Mundial, os homens encontraram algo bem diferente do que esperavam: suas mulheres trabalhando e uma sociedade devastada. Para reverter este quadro todos os homens que haviam lutado na Segunda Guerra agora teriam direito a uma educação universitária gratuita. Além disso houve um movimento de “volta” das mulheres ao lar, ou seja, agora que seus maridos estavam presentes para sustentar a casa elas não precisavam mais trabalhar. Algumas mulheres disseram não e outras aceitaram. O fato é que os anos 50 representam uma “crise” nos valores sociais norte-americanos, algo que iria agravar-se nos anos 60.

Despedida de solteiro retrata a crise do homem norte-americano, o WASP (White Anglo-Saxon Protestant), que de repente se viu sem eira nem beira após assistir aos horrores da Segunda Guerra Mundial. Frente à luta pelos direitos civis e ao ingresso das mulheres na força de trabalho os homens sentiram-se acuados. Realizado pela produtora de Burt Lancaster, o filme discute a crise do casamento, um dos pilares da sociedade norte-americana.

Continue Reading…

10 melhores momentos de The Golden Girls

10 melhores momentos de The Golden Girls

Um dos maiores e melhores sitcoms dos anos 80 esteve completando 30 anos por esses dias. Em sete temporadas, cada uma com aproximadamente 24 episódios, é difícil escolher um único momento e classificá-lo como melhor. Todas as vezes que Blanche Devereaux (Rue McClanahan) contou suas históricas picantes sobre sexo e que Rose Nylund (Betty White) contou suas histórias intermináveis e sem sentido sobre sua cidade natal Saint-Olaf foram priceless.

 The Golden Girls marcou a cultura pop dos anos 80 e até hoje é adorada por milhares de pessoas de todas as idades. Recentemente algumas drag queens que participaram do reality show Ru Paul’s Drag Race reuniram-se para gravar uma esquete homenageando o sitcom.

Esta humilde compilação se propõe a deixar você com vontade de sair correndo para assistir The Golden Girls!

Continue Reading…

Você me pertence (1941)

Você me pertence (1941)

Que saudades estava de escrever sobre filmes de Barbara Stanwyck por aqui! Para uma sexta-feira à noite, depois de quatro horas ouvindo meu professor falar sobre Marx, precisava urgentemente de uma comédia. Vamos ver o que temos aqui… Eu ainda não vi esse filme da Missy com o Henry Fonda, parece bom. Foi mais ou menos assim que escolhi assistir Você me pertence, último filme da dobradinha Fonda-Stanwyck.

Lá pelas tantas já estava irritada com o enredo e com a mensagem clara que Você me pertence carregava: amor e trabalho, para uma mulher, não combinam. Só meu imenso amor por Barbara Stanwyck e a vontade de, mais uma vez escrever sobre esse assunto, me fizeram prosseguir com o filme.

Continue Reading…

                                    
Encontre-nos no Facebook
Filmes por Ator:
                                                                                                                       
Filmes por Atriz:
                                                                                                                       
Filmes por Diretor: