A autobiografia de Jane Fonda e o elogio ao impecavelmente imperfeito

A autobiografia de Jane Fonda e o elogio ao impecavelmente imperfeito

Minha mãe não sabia que estava criando um monstro ao me dar de presente Carmen, uma biografia, trabalho sensacional do escritor Ruy Castro sobre a vida de Carmen Miranda. Depois de ler esse livro, eu simplesmente adentrei no mundo das biografias, que se tornaram meu gênero literário favorito. Tenho muitas biografias, muitas mesmo. Se eu gosto do artista, é provável que vá ler sobre sua vida, para ter aquele sentimento de “sou íntima de fulano”.

Ao longo destes dez anos de leitora voraz de biografias, pude perceber que esses livros seguem uma espécie de fórmula. Geralmente ou o artista é retratado como um santo ou é destruído pelo autor da obra. Quando o livro é autobiográfico, existe uma tentativa de endeusar a própria vida, negar alguns boatos e se redimir perante os fãs. Hoje, como futura historiadora, vejo isso como narrativas históricas com as quais temos de lidar. Não há uma verdade absoluta, é uma questão de ponto de vista, de lugar de fala. É nisso que precisamos prestar atenção.

Pelos motivos elencados acima, eu me achava preparada para o que leria em Jane Fonda: minha vida até agora. Porém, o que aconteceu foi um daqueles momentos de glória, únicos na vida, em que você está diante de algo completamente diferente, capaz de mudar sua vida. Jane Fonda toma tudo o que você conhece sobre autobiografias, joga fora e cria algo muito verdadeiro, e a única reação que poderíamos ter é chorar. Ah, como chorei baldes com esse livro.

Muito mais que uma narrativa autobiográfica, o livro nos ajuda a entender nossas experiências enquanto mulheres no mundo. Talvez o seu maior bônus seja a aproximação que Jane faz com as leitoras. Ela mostra que você não está sozinha, que seus sentimentos não são inválidos e ainda reflete sobre os motivos pelos quais “traímos nós mesmas”.

Você achou que nunca leria uma autobiografia feminista? Pois essa daqui é – e muito!

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Vítimas do divórcio (1932)

Vítimas do divórcio (1932)

Não é segredo para quem acompanha esse blog que a minha atriz favorita, dona do meu coração, é a Katharine Hepburn. Não foi surpresa então que, em incursões em sebos de São Paulo, eu dei aquela surtada básica quando achei duas (DUAS!) biografias da rainha suprema. Mas eu não podia levar nenhuma, afinal já tinha gastado os tubos em outras sessões de surto na Livraria Cultura e na Fnac. No entanto, minha melhor amiga e companheira de passeio, decidiu me presentear com uma delas; eu precisava escolher. Decidi que aceitava, sim, e que levaria Uma mulher fabulosa, de Anne Edwards – a outra tinha um viés meio sensacionalista, e eu não sei se já estava preparada para derrubar alguns mitos sobre minha diva. Sou dessas.

Todo esse prólogo é apenas para dizer que ler esse livro, me fez querer ver depressa alguns filmes que ainda não vi da Kate, pois ele é rico em detalhes de bastidores e produção de cada um. E por que não começar pelo começo?

A bill of divorcement é o primeiro filme de Katharine Hepburn, em uma época em que ela atuava apenas no teatro, e ainda não era uma estrela – longe disso. A verdade é que o destino – e o diretor George Cukor, futuro de BFF de Kate –  deu uma mãozinha para que Hepburn estreasse finalmente no cinema, ao lado de John Barrymore, e ainda por cima, com um salário bastante alto para a época – 1500 dólares por semana – deixando muita gente no estúdio RKO de cabelos em pé. E, de quebra, mostrasse a que veio.

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Eu sei o que aconteceu a Baby Jane

Eu sei o que aconteceu a Baby Jane

Quando Harry Potter and the Cursed Child foi finalmente anunciado, minhas melhores amigas (e revisoras do Cine Espresso) ficaram muito eufóricas com a possibilidade de assistir algo que elas amavam tanto pela primeira vez no teatro. Embora eu tivesse ficado muito contente por elas, não entendia de verdade a dimensão de algo que forma o seu caráter “estar de volta” e causar os mesmos frissons adolescentes de 10 e tantos anos atrás. Até que um belo dia tomei conhecimento de que O que terá acontecido a Baby Jane?, um dos filmes que formou meu caráter como cinéfila, seria adaptado para palcos brasileiros. Aí, meus senhores, eu senti na pele os arrepios ao olhar uma simples foto dos ensaios ou ao assistir à coletiva de imprensa com o diretor e o elenco.

E, depois de ter tido a oportunidade de assistir a essa adaptação teatral na primeira fila, tentarei descrever um pouco do que senti ao ver Eva Wilma e Nicette Bruno representando as personagens tão consagradas por Bette Davis e Joan Crawford.

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Presente de grego (1987)

Presente de grego (1987)

Eu notei que nos últimos meses o Netflix tem desenterrado um monte de filmes aleatórios. Pensou em algum filme lado B com a Whoopi Goldberg dos anos 90 que você via na Sessão da Tarde? Pode apostar que está lá. Coisas que você nem lembrava que existia da década de 80? Também!

Um desses xuxuzinhos redescobertos foi a comédia Presente de grego, um daqueles filmes beeem yuppies dos anos 80. Temos uma Diane Keaton (que consegue me fazer assistir a algumas bombas só por sua digníssima presença) como uma mulher independente e workaholic – e dentro disso, um caminhão de estereótipos e ideias preconcebidas sobre esse perfil de mulher. Ok, ok, a gente bem sabe que é uma outra época, mas eu não consigo deixar meu eu lírico problematizador de fora, nem mesmo mais com clássicos da Old Hollywood. Mas, bem lá no fundo, Presente de grego (ou Baby Boom, no original), apesar dos clichês do gênero, consegue ter seus momentos divertidos.

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Quatro referências cinematográficas em novelas mexicanas

Quatro referências cinematográficas em novelas mexicanas

Não faça essa cara de como assim novela no Cine Espresso? porque eu sei que você, assim como eu, cresceu assistindo às novelas mexicanas que passavam no SBT. Antes de eu conhecer a internet e o cinema clássico, tive meus momentinhos de assistir um milhão de vezes às produções da Televisa, estrelando Thalia, Gabriela Spanic e Victoria Ruffo.

Recentemente, após recomeçar a rever A madrasta, uma novela que chegou muito perto do sucesso que A usurpadora fez no México e no mundo, comecei a notar quantas referências cinematográficas permeiam essas tramas. Hoje trazemos cinco referências que, com certeza, farão você enxergar essas histórias açucaradas de outra maneira. Afinal, já dizia Chacrinha: “Nada se cria, tudo se copia”. Continue Reading…

Uma noite no Rio (1941)

Uma noite no Rio (1941)

Quando Carmen Miranda foi para os Estados Unidos, inicialmente para trabalhar para Lee Shubert, ninguém imaginava que ela seria uma mina de ouro para os estúdios de cinema, muito menos a imagem mais poderosa (e contraditória) do Brasil no estrangeiro. A pequena notável, como era carinhosamente chamada, migrou facilmente para o cinema, pois era uma imagem deveras peculiar para ficar de fora de Hollywood. Das boates, Carmen foi parar nos estúdios da Fox, e ali sua persona foi consolidada: a latina burra, a latina que falava mal inglês. Brasileira nunca, latina sim, pois os Estados Unidos acreditam que tudo que está abaixo do umbigo deles é a mesma coisa.

O fascínio que as pessoas tinham em relação à Carmen, um exotismo quase colonizador, tornou possível o seu sucesso em Hollywood. Quem não queria ver aquela mulher pra lá de elegante, com aquele traje super exótico de baiana, remexendo os quadris e cantando? Os estúdios da Fox captaram imediatamente os cifrões que Carmen poderia lhes trazer e a contratou para trabalhar como atriz. O resultado, quase 50 anos depois, é quase o mesmo do provocado nos anos 40: as pessoas continuam fascinadas pela imagem de Carmen Miranda. Eu confesso que sou fascinada por ela desde os 15 anos, quando ganhei de presente de aniversário a biografia dela, escrita por Ruy Castro.

Uma noite no Rio é o segundo filme de Carmen em Hollywood e apresenta melhoras sensacionais se compararmos a sua estreia em Hollywood, em Serenata Tropical. O enredo melhorou? Melhorou. Os atores coadjuvantes melhoraram? Ah, com certeza. O retrato do Brasil melhorou? NÃO!

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Cinco filmes adolescentes dos anos 80

Cinco filmes adolescentes dos anos 80

“…E essas crianças em que você cospe, enquanto elas tentam mudar seus mundos, são imunes às suas consultas. Elas sabem muito bem pelo que atravessam...” (David Bowie)

É impossível negar: a década de 1980 foi inovadora e inesquecível de muitas maneiras. Com toda a certeza, o cinema foi uma delas. Diversos filmes produzidos durante esse período tem hoje status de clássicos e cults. Além disso, foi nessa época que um segmento da sétima arte ganhou força: o cinema feito especificamente para adolescentes, com tramas com as quais esse público poderia se identificar. Público esse que, aliás, sempre foi um dos grandes consumidores do cinema desde o seu surgimento.

Olhando agora, pode até parecer bobagem, mas essa ideia foi uma grande novidade na época, afinal, filmes com essa proposta ainda eram um tanto raros. Um dos grandes nomes dessa vertente foi John Hughes que soube como ninguém transpor para as telas a mente do jovem daquela década. Curtindo a vida adoidado (Ferris Bueller’s day off) é hoje um clássico absoluto, queridinho de nove entre dez amantes do cinema, e tudo devido a mente brilhante de Hughes, bem como seu feeling certeiro para escolher atores para dar vida aos seus personagens inesquecíveis.

Mas nem tudo é Ferris Bueller, e hoje listamos outros cinco clássicos do cinema adolescente da década de 1980. Anota aí!  Continue Reading…

Funny Girl – A Garota Genial (1968)

Funnygirl2Barbra Streisand completa 74 aninhos de idade essa semana e já estava mais do que na hora de a celebrarmos aqui no Cine Espresso!

A cantora, compositora, atriz, produtora e diretora começou sua trajetória no espetáculo “I Can Get It for You Wholesale”, da Broadway, pelo qual foi indicada a um Tony Award (como é chamado o maior prêmio do teatro nos Estados Unidos) na categoria “Melhor atriz em um musical”. Em 1963, seu primeiro disco, “The Barbra Streisand Album”, conquistou dois prêmios Grammy: Álbum do ano e Melhor performance vocal feminina. No ano seguinte, estrelou a peça da Broadway “Funny Girl”, baseada na biografia da atriz Fanny Brice que trabalhou no teatro, rádio e cinema. Depois de ficar em cartaz por quase dois anos, em dezembro de 1965, a Columbia Pictures anunciou a versão cinematográfica de “Funny Girl” com Barbra Streisand no papel principal. O filme seria dirigido por ninguém menos do que William Wyler, que aceitou dirigir um musical pela primeira vez em 43 anos de carreira.

“Funny Girl – A Garota Genial” (como é conhecido por aqui) se tornou um favorito instantâneo, logo na primeira vez que assisti. Recomendo até mesmo para quem não é tão chegado em musicais, uma vez que é praticamente IMPOSSÍVEL não se render ao romance de Fanny Brice e Nick Arnstein, interpretados por Streisand e Omar Sharif (Doutor Jivago). Poucas atrizes poderiam ser tão engraçadas e comoventes como Barbra nesse filme, não existe dúvida de que mereceu o Oscar de Melhor atriz que dividiu com Katharine Hepburn (que também faturou a estatueta por “Leão no Inverno”). O filme teve ainda uma sequência chamada “Funny Lady”, protagonizada por Barbra Streisand e lançada em 1975. Venha se emocionar e se divertir com os inesquecíveis números musicais “People”, “Don’t Rain on My Parade”, que foi regravado por dezenas de artistas, entre outros. Continue Reading…

A Sombra de uma Dúvida (1943)

shadowofadoubt2“Hitchcock, desde o começo, parecia muito preocupado em não deixar o vilão
ser um clichê, de dar ao vilão muita personalidade e singularidade, ao contrário
do homem que enrosca o bigode.”
Peter Bogdanovich (cineasta)

A direção única de Hitchcock fez com que ele se destacasse nos anos 30, chegando ao ponto de seu filme “A Dama Oculta” ser considerado o filme britânico de maior sucesso realizado até então. Hollywood era só uma questão de tempo. Em 1939, ele assinou um contrato de sete anos com David Selznick e lançaria “Rebecca” no ano seguinte. Seu primeiro longa-metragem nos Estados Unidos recebeu um total de onze indicações a prêmios da Academia e acabou abocanhando o Oscar de Melhor filme. Rebecca foi o primeiro de váaarios tiros lançados por Hitch nos anos 40. Nosso post da semana trata-se de “A Sombra de uma Dúvida”, que segundo Patricia Hitchcock era o filme favorito de seu pai. Não é para menos, a gente concorda que “Shadow of a Doubt” é especial em muitos sentidos.

O filme está repleto das insinuações e tiradas de humor negro que tanto amamos no cinema de Hitchcock. Um dos fatores que o tornam especialmente sinistro é a inocência da personagem de Teresa Wright em contraste com um Joseph Cotten sem escrúpulos. Trazer o mórbido para o cotidiano se tornou uma das principais marcas do mestre do suspense. De repente, o lar tranquilo da família comercial de margarina é tomado por uma tensão que nos deixará vidrados até o desfecho final. Continue Reading…

Até os Fortes Vacilam (1960)

Até os Fortes Vacilam (1960)

 

Palavras não bastam para definir o que sentimos ao encontrar esse filme, protagonizado por Anthony Perkins e a estreante Jane Fonda em 1960. “Tall Story” é aquele projeto que tinha tudo pra dar certo, mas… não deu. Antes de Norman Bates, Perkins interpretou diversos “mocinhos” em filmes românticos (entre eles, as pérolas “Desire Under the Elms” em parceria com Sophia Loren e “Green Mansions” em que era o mozão de Audrey Hepburn). Jane Fonda fazia trabalhos como modelo, enquanto estudava os últimos “métodos” de atuação com Lee Strasberg. A curiosidade a cerca de sua estréia era assunto de diversas colunas em revistas de cinema.

Quem liga para as críticas, quando se pode testemunhar Tony Perkins jogando basquete e a jovem cheerleader Jane Fonda? “Tall Story” é a típica trama sessão da tarde, e como assisti sem pretensão, pude me divertir um bocado! Vamos por partes: o filme dirigido por Joshua Logan é uma farofa comédia que faz uma crítica social bem humorada, sobre estudantes que aproveitavam a rotina universitária para arrumarem um casamento. Claro que, infelizmente, é a personagem de Jane Fonda que vê a faculdade como um mero instrumento para alcançar o sonho de se casar (num período em que a chegada das mulheres na universidade estava a todo vapor).

Tall Story (Até os Fortes Vacilam, no Brasil) foi lançado em 6 de abril, poucos meses antes da estréia de Psicose. Seria a última vez que a América receberia Perkins com os mesmos olhos. Continue Reading…

                                    
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