O sinal da cruz (1932)

O sinal da cruz (1932)

Uma mulher tomando banho de leite. Orgias. Insinuação LGBT. Cenários de tirar o fôlego. Pelas palavras escolhidas, você provavelmente pensou que eu estaria descrevendo algum filme da atualidade. Mas não. Estamos falando de O sinal da cruz, produção de 1932, dirigida por Cecil B. DeMille.

Para os defensores da moral e dos bons costumes, esse épico foi o que faltava para a criação de um código que ditava o que podia e o que não podia em Hollywood, o tão famoso Código Hayes, do qual sempre estamos falando por aqui. Para os não apreciadores de filmes épicos (como eu), foi uma surpresa muito feliz. A ousadia e a alegria nunca foram tão levados a sério nessa trama que retrata o período em que cristãos eram perseguidos em Roma.

Foi com O sinal da cruz que Cecil B. DeMille mandou um beijinho no ombro aos que achavam que ele estava acabado enquanto diretor e produtor.

Não é a toa que, em 1951, o filme Crepúsculo dos Deuses homenageou Cecil B. DeMille por meio de uma pequena participação na trama, como o grande diretor da estrela em decadência Norma Desmond. No filme, ele aparece rodando um épico na Paramount Studios, e essas duas coisas não são meras coincidências do acaso. DeMille ajudou a fundar a Paramount, ao lado de Jessy Lasky, bem como era o cara dos épicos. Se você queria opulência aliada a uma boa história épica, Cecil era a pessoa a quem você deveria recorrer.

No entanto, na época de O sinal da cruz, as coisas não andavam boas para DeMille. Após dois fracassos de bilheteria, Madam Satan e The Squaw Men, o produtor da MGM, Irving Thalberg, chamou o diretor para uma conversinha. DeMille estava fora da MGM. Foi um período difícil para ele, que relembra:

Eu não conseguia arrumar trabalho. Ninguém nem me ouvia. Eu era como uma daquelas múmias que a gente vê no Egito, primeiro com curiosidade e depois como algo tedioso. Eu estava morto. Estava simplesmente morto.

Aos 14 anos, Cecil assistiu à peça de teatro O sinal da cruz e foi a partir dessa lembrança que teve a ideia de adaptar a trama para o cinema. Ele acreditava tanto no projeto que estava disposto a empregar metade do seu dinheiro nele. Já que havia saído da MGM, foi buscar ajuda na Paramount Studios. O estúdio, na figura de Jessy Lasky, negou-se a ajudá-lo a financiar O sinal da cruz. DeMille ficou arrasado, pois tinha ajudado a fundar a Paramount ao lado de Lasky. Como podiam fazer isso com ele agora?

Contudo, os ventos iriam mudar de direção e soprar a favor de Cecil. Schulberg, um dos magnatas da Paramount, ficou enlouquecido ao saber que seus colegas haviam recusado O sinal da cruz. Ele teria dito:

Vocês estão todos loucos! Temos aqui uma das grandes mentes dessa indústria. Outrora, ele construiu a Paramount ao lado de Jessy. Talvez ele possa fazer isso de novo. Peguem-no!

Dessa forma, Cecil voltava ao antigo estúdio para começar um de seus projetos mais ousados, e talvez até o épico mais lascivo de que se tenha notícia até hoje. É claro que a felicidade não poderia ser completa, logo DeMille pediu o braço e só obteve a mão: o estúdio reteve o orçamento do filme. Seiscentos e cinquenta mil dólares era o que a Paramount estava disposta a desembolsar. Parece bastante dinheiro, correto? Não para um épico de DeMille, que não se importava em gastar uma nota para deixar o público de boca aberta.

DeMille.

DeMille.

O que esse homem fez com um orçamento tão reduzido é de deixar qualquer mortal do século XXI de queixo caído. O sinal da cruz simplesmente não parece um filme barato, e para que não tivéssemos essa impressão, DeMille foi buscar inspiração nos filmes alemães da época. Como eles podiam ser tão bem feitos e com tão pouco dinheiro? Pois Cecil descobriu a fórmula e a aplicou na trama. Eu adoraria ter acesso à folha de pagamento de O sinal da cruz.

A magia de O sinal da cruz ultrapassa o fato de seus belos cenários e opulência. Talvez tenha sido por isso que terminei o filme apaixonada, logo eu, alguém que, dos épicos, só suportou assistir  a Spartacus nesta vida, aliás, outro épico merecedor de aplausos. Eu diria que esse temperinho Sazon a mais está nas sutilezas em como DeMille decidiu retratar essa história de intolerância aos cristãos em Roma. Tudo em O sinal da cruz, desde a escolha das roupas até a apresentação dos personagens, está na tela para nos dar uma mensagem.

O filme conta a história do amor impossível que nasce entre Mercia (Elissa Landi), uma cristã, e pelo prefeito de Roma, Marcus (Fredric March). Na época da história, cristãos eram perseguidos e mortos em Roma. A fé em Cristo não era tolerada, pois se acreditava que a única pessoa que deveria ser adorada era o imperador romano. É interessante entrar em contato com essa época um pouco desconhecida, em que a religião católica ainda não havia atingido seu ápice e estava na pele dos perseguidos. Séculos depois, como bem sabemos, ela estaria no lugar dos perseguidores.

Mercia e Marcus, nossos pombinhos.

Mercia e Marcus, nossos pombinhos.

O dever e as crenças de Marcus não são os únicos entraves ao amor  dele e de Mercia. Outro inimigo aparece entre o casal, personificado na pessoa de Popeia (Claudette Colbert), a imperatriz romana. Essa figura histórica é muito famosa por ter se valido de intrigas para conseguir se casar com o imperador Nero, seu segundo marido. Reza a lenda que Nero assassinou a mãe para se casar com ela. Só por essa personalidade altamente intrigante, Popeia já conquistaria um lugarzinho cativo em nossos corações. Ao ser incorporada pela maravilhosa Claudette Colbert, nós, é claro, já estamos aos pés dela. Conhecida pelos papéis de mocinha que vai colher lenha no bosque, a imperatriz foi a primeira vez em que Colbert pode mostrar à Hollywood a que veio. DeMille testou diversas atrizes, como Miriam Hopkins e Ann Harding, mas nenhuma se comparou ao estrago que Colbert causou aos olhos do diretor quando ele a viu. Sua fala sobre ela ficaria muito famosa:

Você tem o rosto mais malvado deste mundo.

E, olha, ele não poderia estar mais certo, viu. A Popeia de Claudette é tudo aquilo que a gente adora em uma vilã: esperta, divertida e pra lá de falsiane. Ao fazer zoinhos para Marcus, você chega a acreditar que ela é realmente alguém inocente.

Eu, falsiane? Imagina!

Eu, falsiane? Imagina!

Conforme disse anteriormente, O sinal da cruz está sempre tentando mostrar as diferenças entre cristãos e romanos através de ações, roupas ou outros elementos visuais. Enquanto Mercia é apresentada em uma cena que mostra seu coração bondoso e simplista, a primeira cena de Popeia se dá em uma banheira de leite. O primeiro take dessa inesquecível entrada da imperatriz, rodada dentro de uma fonte com leite de verdade, mostra uma escrava derramando leite em Popeia. Isso já teria feito o cinema ir abaixo, por conta do fato inacreditável de ser leite de verdade e ter deixado o set com um fedor insuportável após as cenas. Porém, a coisa vem abaixo mesmo quando percebemos que DeMille não está nem aí em mostrar que Popeia está realmente nua dentro daquela banheira. A câmera não sai de cima da imperatriz e, em determinado momento, ela mexe os braços e por pouco não enxergamos seus seios. Ah, mas eu não sei a razão de tanto choque, já que estamos saturados de sexualização feminina no cinema e na televisão. Vale lembrar que estávamos em 1932, época em que grandes diretores dificilmente ultrapassavam a linha do permissível em relação ao corpo feminino. Não é a toa que O sinal da cruz influenciou a legião da decência na criação do código de censura em Hollywood. DeMille, eu acho, não escolheu retratar a imperatriz em uma banheira cheia de leite por mero acaso. Já que os romanos são lascivos, nada mais lascivo e opulente do que mostrá-la desperdiçando o que poderia ser alimento de seus súditos. Ao visualizarmos Popeia naquela banheira, você pensa é óbvio que ela não vai deixar que uma moça cristã roube o homem que ela julga ser dela. Bitch, she’s Popeia, ela se banha com leite, alô!

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MÃE, O FORNINHO CAIU!

O amor de Marcus toma proporções absurdas durante a história, à medida que ele vai se dando conta de que é impossível ficar com Mercia. Em um ato de bondade, ele a esconde em sua casa. Contudo, o prefeito de Roma vive um dilema, entre o dever e o amor, e ele começa a tomar certas atitudes abusivas em relação a ela. Uma delas é submetê-la a uma orgia, as tão famosas orgias romanas. Seria por si só chocante a visão dos casais seminus, naquele cenário que exala sexo. Porém, DeMille foi mais fundo naquilo que queria retratar e traz uma das grandes cenas LGBT daquele tempo. Esta é diferente de qualquer outra que já vi, talvez pelo caráter extremamente sexual que carrega. Não temos os beijos castos trocados entre Greta Garbo e sua criada em Rainha Cristina; temos a dançarina romana, Ancaria, esfregando os quadris em Mercia e, em determinado momento, quase a beija na boca. A cena carrega muitos problemas, como a extrema erotização do desejo entre duas mulheres, representado pelo olhar de satisfação de Marcus ao ver as duas mulheres naquela situação. Um dos maiores problemas que mulheres LGBT enfrentam até hoje é a erotização de seus relacionamentos com outras mulheres. O desejo entre mulheres se transforma em uma barganha, algo que é aceitável, pois os olhos patriarcais gostam de assistir a duas mulheres se beijando. No momento em que isso não é preenchido, há o rechaço, o nojo. Quem não lembra de Fernanda Montenegro e Nathália Timberg em Babilônia? Nunca esquecerei da repercussão dos dois beijos que elas trocaram, que não chegam aos pés do que acontece em O sinal da cruz.

Ainda sobre a cena da orgia, DeMille veste Mercia de branco e Ancaria com uma cor escura. Com isso, ele está nos mostrando visualmente a pureza de uma contrastando com a luxúria da outra. Há um teor muito moralizante nesta cena, pois o desejo, o erótico é retratado como algo errado, enquanto a inocência é um valor a ser cultivado. Mercia não se mexe durante toda a cena, apenas vemos seu rosto desesperado, como se estivesse pedindo socorro. Marcus, é claro, é apenas sorrisos.

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CADÊ A LEGIÃO DA DECÊNCIA?

Por essas e outras cenas que não citarei aqui por motivos de spoiler, O sinal da cruz causou o maior rebuliço quando foi lançado. A legião da decência intensificou suas manifestações em busca de uma Hollywood mais correta moralmente falando. Dois anos depois, em 1934, os pedidos da legião foram atendidos e o Código Hayes era implantado. Contudo, se eles esperavam que as coisas fossem se acalmar, estavam muito enganados. Apesar de o código proibir muitas coisas, diretores encontraram formas de se desviar dele. Arriscaria dizer que a criatividade nunca foi tão usada quanto na época do Código Hayes. O sinal da cruz sofreu com o código, pois inúmeras cenas do filme foram cortadas, algumas substituídas por imagens de soldados na guerra. O mundo só teria contato com a versão original de DeMille muitos anos depois.

Em tempos de tanta intolerância religiosa, O sinal da cruz nunca foi tão moderno. Quando vemos a religião de matriz africana e a islâmica sendo tão depreciadas por aí, devemos lembrar que o respeito é uma das maiores coisas que podemos exercer, já que é o princípio básico da maioria das religiões existentes. Se você gostaria de ser respeitado, faça por onde, respeite o coleguinha.

Revisão do texto: Ana Rolim.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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