A autobiografia de Jane Fonda e o elogio ao impecavelmente imperfeito

A autobiografia de Jane Fonda e o elogio ao impecavelmente imperfeito

Minha mãe não sabia que estava criando um monstro ao me dar de presente Carmen, uma biografia, trabalho sensacional do escritor Ruy Castro sobre a vida de Carmen Miranda. Depois de ler esse livro, eu simplesmente adentrei no mundo das biografias, que se tornaram meu gênero literário favorito. Tenho muitas biografias, muitas mesmo. Se eu gosto do artista, é provável que vá ler sobre sua vida, para ter aquele sentimento de “sou íntima de fulano”.

Ao longo destes dez anos de leitora voraz de biografias, pude perceber que esses livros seguem uma espécie de fórmula. Geralmente ou o artista é retratado como um santo ou é destruído pelo autor da obra. Quando o livro é autobiográfico, existe uma tentativa de endeusar a própria vida, negar alguns boatos e se redimir perante os fãs. Hoje, como futura historiadora, vejo isso como narrativas históricas com as quais temos de lidar. Não há uma verdade absoluta, é uma questão de ponto de vista, de lugar de fala. É nisso que precisamos prestar atenção.

Pelos motivos elencados acima, eu me achava preparada para o que leria em Jane Fonda: minha vida até agora. Porém, o que aconteceu foi um daqueles momentos de glória, únicos na vida, em que você está diante de algo completamente diferente, capaz de mudar sua vida. Jane Fonda toma tudo o que você conhece sobre autobiografias, joga fora e cria algo muito verdadeiro, e a única reação que poderíamos ter é chorar. Ah, como chorei baldes com esse livro.

Muito mais que uma narrativa autobiográfica, o livro nos ajuda a entender nossas experiências enquanto mulheres no mundo. Talvez o seu maior bônus seja a aproximação que Jane faz com as leitoras. Ela mostra que você não está sozinha, que seus sentimentos não são inválidos e ainda reflete sobre os motivos pelos quais “traímos nós mesmas”.

Você achou que nunca leria uma autobiografia feminista? Pois essa daqui é – e muito!

Jane Fonda, minha vida até agora é a jornada de Jane Fonda em busca de si. Ela está preocupada em descobrir quando e porquê se perdeu de quem era, o que lhe trouxe consequências muito danosas. Segundo a atriz, ela recuperou o controle de sua vida aos 60 anos. E para podermos entender como ela se deu conta disso e como conseguiu libertar-se de suas correntes, temos de acompanhá-la pela trajetória de vida, desde a relação conturbada com o pai até as relações amorosas problemáticas.

O livro é dividido em três partes: Acumulando, Buscando e Começando. A primeira centra-se na infância de Jane; a segunda na vida no cinema, seus casamentos e o ativismo, e a última na sua redescoberta. São capítulos curtinhos, mas acredite em mim: você não vai conseguir parar de ler.

A rainha da autobiografia feminista.

A rainha da autobiografia feminista.

O que diferencia a autobiografia de Jane de outras é o fato de ela trazer uma reflexão sobre experiências que nós mulheres vivemos e as consequências que elas têm em quem somos. Como os padrões estéticos podem nos influenciar ao ponto de nos perdermos naquilo que desejamos ser e esquecermos quem realmente somos? Como transtornos alimentares estão ligados à busca pela aparência perfeita? Como nosso desejo de agradar aos outros, principalmente aos homens, pode fazer com que “traiamos nosso corpo e nossa personalidade”? Jane está mais preocupada em encontrar respostas para essas questões do que contar suas experiências. Na verdade, suas experiências servem como gatilho para a busca dessas respostas em nós mesmas.

As perguntas de Jane Fonda

Uma das coisas que mais me encantaram nesse livro é a consciência que Jane tem sobre suas experiências. Ela não fala sobre elas de maneira universalista, pelo contrário, sempre procura salientar que sua posição privilegiada (rica e branca) lhe deu mais ferramentas para lidar com todo o turbilhão pelo qual passava. Hoje sabemos que a vivência enquanto mulher é diferente para cada uma de nós. Como ativista, Jane também sabe disso e é muito bacana termos uma atriz com tanta consciência de raça e classe.

A primeira coisa que você se pergunta ao começar a ler Minha vida até agora é o óbvio: como uma atriz que tinha absolutamente tudo podia ter distúrbios alimentares e tantos relacionamentos abusivos? Parece que o lugar social e a aparência de Jane deveriam impedi-la de viver qualquer percalço. Contudo, não é o que acontece, e isso mostra como as estruturas patriarcais estão infiltradas em todas as classes sociais, agindo para oprimir de maneiras diferentes.

Em 610 páginas, Jane dá pano para manga para inúmeras discussões. Abaixo, elenco algumas que chamaram minha atenção e como elas podem nos ajudar a entender nossa experiência no mundo enquanto mulheres:

O desejo de agradar, principalmente os homens

Esse é um assunto que permeia o livro de maneiras diferentes, começando na infância de Jane. Somos educadas para agradar, ou seja, há um padrão de comportamento que você deve seguir, um comportamento de menininha. Não dá para sentar de uma determinada maneira, não dá para arrotar em público, pois esses gestos descaracterizam uma mocinha. Se você segue essas regras, perceberá que as pessoas ficam contentes. Desde cedo, introjetamos essas ideias, e com Jane não poderia ser diferente. No caso dela, o desejo de ser perfeita e agradar começa na relação conturbada que sempre teve com o pai, o ator Henry Fonda.

Henry Fonda com Jane no colo, 1943.

Henry Fonda com Jane no colo, 1943.

Segundo o que Jane conta, Henry sempre foi uma pessoa com dificuldades de demonstrar afeto e que via a fraqueza humana como um defeito. Isso fez com que Jane desenvolvesse o que ela chama de “cavaleira solitária”, algo como uma carapaça impenetrável. Eu me pergunto: quantas de nós mulheres não somos levadas a acreditar que nossa fraqueza é um defeito? Quantas vezes não vemos o fato de meninos não chorarem como uma qualidade, já que “chorar é coisa de menina”? Na realidade, a fraqueza faz parte da gama de sentimentos que uma pessoa contém dentro de si. Por que, então, ela é sempre associada às mulheres? Porque a sociedade é patriarcal e celebra a força, a masculinidade, coisas que não compactuam com fraqueza. Além disso, deixo esta provocação: como as mulheres não podem se sentir “””fracas””” diante de uma sociedade que todos os dias lhes diz que precisam ser perfeitas?

Jane percebeu que tinha de ser perfeita observando sua mãe, Frances. Pensem na esposa troféu, aquela que abre a casa para as revistas fotografarem, esposa de um dos maiores atores de sua época. Ela tinha tudo para ser feliz, mas como diria a poetisa Margo Channing: “Everything except happiness.” Frances, assim como muitas mulheres dos anos 40, sofreu demais com as pressões sociais, com o agravante de ser casada com Henry Fonda. Em muitos momentos, lembrei de Esther, personagem do livro A redoma de vidro, tentando moldar-se a um estilo de vida que nada tinha a ver com ela. Tentando ser e falhando miseravelmente. Fatores que, acredito, tenham levado ao suicídio de Frances, um divisor de águas na vida de Jane.

Frances e Jane.

Frances e Jane.

O fato é que Frances era muito frágil, o que gerava a desaprovação total do marido. Era uma mulher introvertida, pelo que Jane conta, característica que uma esposa de ator de cinema não deveria ter. Tudo o que uma mulher não deveria ser. Essa mistura muito louca de fatores gerou um efeito contrário em Jane: ela queria desesperadamente ser diferente da mãe. Por isso, como disse acima, ela criou a personalidade da “cavaleira solitária”, para provar ao pai que podia ser mulher, mas ser muito forte. Na passagem abaixo, Jane nos conta sobre o dia em que foi pescar com Henry e o irmão dela, Peter, em como simplesmente detestava colocar a mão dentro do balde cheio de iscas gosmentas:

Peter não gostava delas [as iscas] nem um pouco. Aliás, Peter se recusava a tocá-las, o que realmente exigia coragem. Papai nem tentava disfarçar o desgosto que sentia com os melindres de Peter, e seu humor ia ficando cada vez pior. Enquanto eu, a Cavaleira Solitária, surgia para salvar a pátria e era homem o bastante por nós dois. Eu pegava aquela minhoca e enfiava o anzol bem no meio de sua cabecinha contorcida, sem sequer tremer. Eu não fazia isso para deixar Peter mal. Eu amava meu irmão. Eu só queria provar a minha astúcia ao meu pai e aliviar a tensão. 

Já podemos eleger este livro a melhor leitura que eu fiz em 2016? Sim, por favor! Quando disse que Jane discute assuntos caros às mulheres através de sua experiência, era de trechos como esse de que eu estava falando. Ao contrário dos homens, as mulheres são criadas para outrxs. Ela sempre deve deixar seu interesse para trás em prol de algo socialmente aceitável. A nossa redoma de vidro começa a se moldar na infância, e muitas vezes nossos pais, conscientemente ou não, contribuem para esse processo. Precisamos rever com urgência a maneira como criamos nossas crianças.

O distúrbio alimentar como consequência da perfeição (ou da tentativa de se chegar a ela)

O fato de querer ser perfeita em tudo tem inúmeras consequências. Talvez a maior delas seja o desenvolvimento de um sentimento de insegurança, de que você nunca é boa o suficiente e de que não está bem o suficiente. Cada mulher manifesta suas inseguranças de uma forma diferente e a de Jane foi a bulimia. É interessante notar que os fatos da vida de Jane vão se entrelaçando, criando uma rede que nos ajuda a entender o porquê de a bulimia ter parecido a saída viável para o encontro de uma perfeição inexistente.

O olhar de quem escondia as imperfeições entre idas ao banheiro e muito sofrimento com comida.

O olhar de quem escondia as imperfeições entre idas ao banheiro e muito sofrimento com comida.

Como disse acima, o suicídio de Frances foi um divisor de águas na vida de Jane. A partir desse acontecimento, a busca pela perfeição iria se intensificar, talvez pelo sentimento de que sua mãe havia falhado com o pai, conforme o trecho abaixo ilustra, uma passagem em que a atriz nos conta sobre o dia que sua mãe lhe mostrou uma cicatriz de cirurgia:

O mamilo estava todo distorcido. Eu me senti muito mal por ela – devia ter doído tanto, mas não queria ser sua filha. Eu queria uma mãe que parecesse saudável e bonita, a quem meu pai gostaria de admirar quando estivesse sem roupas. Talvez, assim, ele quisesse ficar em casa. Isso [o divórcio] era tudo culpa dela.

Jane também relata que seu pai era obcecado por mulheres magras, que sua mãe havia vivido preocupada com a imagem. Por isso, refaço a pergunta: como vocês nos exigem coragem e autoestima em uma sociedade que todos os dias aponta o que devemos ser? Na televisão, nas revistas e nas séries. As mulheres de lá estão lá para provar que você pode ser aquilo se quiser de verdade. Mas a verdade é que nem as mulheres de lá estão contentes, basta lembrar que Cindy Crawford declarou que não se achava a supermodelo que todos viam nela. E é aí que o patriarcado é tão eficaz: ele se infiltra em todas as esferas sociais. As opressões são diferentes para cada classe, mas estão lá, regulando o sistema venenoso que vive às custas de nossa insegurança.

Para Fonda, a magreza excessiva era um meio de escapar da feminilidade, de obrigatoriamente se relacionar com um homem e ser perfeita para ele. Assim se deu a manutenção do distúrbio, que acompanhou Jane até mais ou menos os 40 anos.

É muito angustiante ler a trajetória de Jane e de sua parceira invisível, a bulimia. A insegurança é um problema recorrente entre as mulheres e aqui não podemos dissociar a classe e a raça dessa lambança toda. Já cansei de repetir por aqui que acredito que mulheres tenham vivências diferentes. Por exemplo, os problemas de insegurança da mulher negra são diferentes dos da mulher branca, isso porque a primeira já nasce com o mundo inteiro desqualificando-a por não ser branca. O que quero dizer com isso? Estaria eu desmerecendo os distúrbios alimentares de Jane? Nunca, jamais. Os problemas alimentares de Jane devem ser encarados como algo muito sério, que exige discussão e tratamento, mas não podemos nos esquecer de que, sim, essa mulher já tinha uma vantagem nesta vida que era ser branca e rica. O padrão de beleza é branco, logo Jane, embora não se sentisse dessa forma, já fazia parte dele, querendo ou não.

A última lição, porém não menos importante: encontre-se

Isso pode parece papo de livro de autoajuda, mas a mensagem central do livro de Jane é sobre encontrar-se, ser feliz, ser a mulher da sua vida. Uma das coisas que mais me encantaram durante a leitura de Minha vida até agora é a maneira como ela passa tal mensagem. Ao contrário da maioria dos livros de autoajuda, Jane não lhe dá instruções, pelo contrário; sempre ressalta que o caminho é diferente para cada mulher. Ela, por exemplo, só foi se encontrar aos 60 anos, o que não significa que será da mesma forma com você.

Ao levantar a questão de como nos perdermos no meio de tantas informações que são simplesmente enfiadas goela abaixo, a atriz liga o alerta para que possamos avaliar nossa vida e nos perguntar: eu estou sendo soterrada pelo mundo e deixando de ser eu mesma?

Que tal começar a se fazer essas e outras perguntas hoje? Tenho certeza de que o livro de Jane Fonda irá lhe trazer muitas questões, dúvidas e respostas sobre quem somos, do que nos alimentamos e o que estamos fazendo com nossas vidas.

E se você puder compartilhá-las conosco nos comentários, será melhor ainda.

Revisão do texto: Ana Rolim.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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