Vítimas do divórcio (1932)

Vítimas do divórcio (1932)

Não é segredo para quem acompanha esse blog que a minha atriz favorita, dona do meu coração, é a Katharine Hepburn. Não foi surpresa então que, em incursões em sebos de São Paulo, eu dei aquela surtada básica quando achei duas (DUAS!) biografias da rainha suprema. Mas eu não podia levar nenhuma, afinal já tinha gastado os tubos em outras sessões de surto na Livraria Cultura e na Fnac. No entanto, minha melhor amiga e companheira de passeio, decidiu me presentear com uma delas; eu precisava escolher. Decidi que aceitava, sim, e que levaria Uma mulher fabulosa, de Anne Edwards – a outra tinha um viés meio sensacionalista, e eu não sei se já estava preparada para derrubar alguns mitos sobre minha diva. Sou dessas.

Todo esse prólogo é apenas para dizer que ler esse livro, me fez querer ver depressa alguns filmes que ainda não vi da Kate, pois ele é rico em detalhes de bastidores e produção de cada um. E por que não começar pelo começo?

A bill of divorcement é o primeiro filme de Katharine Hepburn, em uma época em que ela atuava apenas no teatro, e ainda não era uma estrela – longe disso. A verdade é que o destino – e o diretor George Cukor, futuro de BFF de Kate –  deu uma mãozinha para que Hepburn estreasse finalmente no cinema, ao lado de John Barrymore, e ainda por cima, com um salário bastante alto para a época – 1500 dólares por semana – deixando muita gente no estúdio RKO de cabelos em pé. E, de quebra, mostrasse a que veio.

a-bill-of-divorcement-1932-1Kate sempre foi geniosa. As coisas sempre tinham que ser da sua maneira, ou nada feito. Era difícil fazê-la mudar de ideia. E quando metia uma ideia na cabeça, não tinha jeito. Desde criança, ela amava o cinema. Mas só iria para Hollywood se tivesse um bom salário e garantia de trabalhos de qualidade. Quando seu agente na época, Leland Hayward, ouviu o salário e as condições de Kate para trabalhar na RKO, ele teve duas reações: explodiu de escárnio, e logo em seguida, acabou acatando, afinal ele conhecia bem sua cliente. Kate sabia que um estúdio não investiria tanto assim em uma atriz relativamente inexperiente, se não quisesse transformá-la em uma figura importante.

Enão é que deu certo? Mesmo com o teste tendo sido filmada com ela de costas para a câmera – teimosia pura. Mas George Cukor viu alguma coisa ali, e ficou encantado com aquela moça arrogante de queixo empinado. Ele bateu o pé para ter Kate no seu novo filme, Vítimas do divórcio, e depois de Cukor e David Selznick quase se matarem, o segundo teve que aceitar e finalmente recomendou Kate para a RKO. “Ela é maravilhosa demais. Vai ser maior do que Garbo”, disse George Cukor.

tumblr_nmnm5bhmsa1useazso1_540Kate ia trabalhar com John Barrymore e Billie Burke – que inclusive perdeu o marido durante as gravações, e mesmo assim agiu com extremo profissionalismo, ganhando o respeito e admiração de Hepburn para sempre. Os dois atores seriam no filme seus pais. Em Vítimas do divórcio, Hillary (Barrymore) é um homem que acaba de sair de um sanatório, após 15 anos, e volta para casa, acreditando que tudo estará na maior paz de Jah. No entanto, o tempo passa, a fila anda, e na verdade tudo mudou: sua mulher, Margaret (Burke) conseguiu o divórcio na época em que o marido estava na instituição, e está prestes a se casar novamente – dessa vez com um homem a quem ama de verdade. Além disso, a filha dos dois, Sidney (Hepburn), ignora a natureza da doença do pai, que inclusive é genética. Quando o reencontro acontece, a vida dos três jamais será a mesma. Escolhas precisam ser feitas. Sentimentos precisam ser confrontados.

tumblr_mknj9yumfg1qb0ixoo1_540Em alguns momentos, Vítimas do divórcio descamba para o dramalhão mexicano – me lembrei de algumas tramas da Televisa. Mas vale MUITO pela maravilhosa atuação de John Barrymore, tão incrível quanto ele conseguia ser. E vale, é claro, pelo registro do início da carreira cinematográfica de Kate, que mostrava que logo se tornaria uma atriz competente.

Barrymore, aliás, tenteou Kate até não mais poder, chegando, inclusive, segundo ele próprio, a ficar nu, pelado com a mão no bolso, na frente da atriz. No entanto, ela não estava interessada – tinha dois relacionamentos complicados no momento com que lidar: Laura Harding, sua amante de longa data, e Luddy, seu marido. Mesmo assim, Kate afirmou que aprendeu muito com John durante as gravações do filme: “Ele nunca me criticou. Apenas me mostrava o que eu deveria fazer, me ensinando tudo o que podia”.

Se Vítimas do divórcio não é o filme mais interessante na filmografia dos envolvidos, pelo menos vale para apreciar todo o talento presente. E se divertir com as histórias de bastidores. Uma delas é icônica; Kate contou-a já nos anos 70, na famosa entrevista com Dick Cavett: ela amava usar roupas velhas e surradas nos intervalos das gravações. O estúdio, é claro, chiava, afinal a imprensa estava sempre presente, fazendo entrevistas e fotos, e acaba encontrando a atriz de calças velhas, rasgadas e desbotadas, assim como macacões no mesmo estilo. O departamento de publicidade ameaçou tomar as roupas de Kate e escondê-las, e como ela não mudasse seu comportamento, acabou fazendo isso mesmo em um belo dia. Hepburn não se fez de rogada, e desfilou pelo estúdio, na frente dos jornalistas, apenas de calcinha e sutiã, obrigando o estúdio a devolver as roupas velhas e confiscar ainda as fotos que foram feitas.

Uma mulher de opinião própria e personalidade forte, desde o início. Começava assim a carreira da primeira dama do cinema americano.

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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