Três filmes essenciais estrelados por Eva Wilma

Três filmes essenciais estrelados por Eva Wilma

Não é segredo para ninguém o quanto estou apaixonada por Eva Wilma. Como bons fãs sabem, quando gostamos de algo, varremos a internet atrás de elementos que possam alimentar a paixão por um artista. No caso de Eva, a notícia boa é que não apenas temos diversos filmes para guardar no coração, como a maioria está disponível na internet!

O interessante em relação à Eva Wilma é que muitos de seus filmes misturam-se com a história do cinema brasileiro. Podemos dizer que a atriz passeou entre inúmeros gêneros cinematográficos, da nouvelle vague brasileira às comédias pornochanchada. Ela nos deixou um gostinho de quero mais em relação a seus filmes, você fica pensando o que teria acontecido se ela tivesse sido escolhida para estrelar Topázio de Alfred Hitchcock. Sim, você não leu errado, Eva Wilma fez um teste com o mestre do suspense no final dos anos 60. Será que teríamos uma carreira mais longa no cinema brasileiro se ela tivesse conseguido? Nunca saberemos.

O fato é que, realmente, existe um vácuo no que diz respeito às atrizes brasileiras. Nós simplesmente não conhecemos nossas divas, mulheres que levaram nossos filmes para fora do Brasil, que fizeram com que eles fossem adorados no estrangeiro. Certamente Eva Wilma é uma dessas atrizes. A única cópia de um de seus filmes, O quinto poder, pertence a um festival de cinema estrangeiro. É mole?

No intuito de retirar o véu que encobre os filmes brasileiros, hoje selecionamos três filmes indispensáveis da carreira de Eva Wilma. Alguns estão disponíveis no You Tube, então é só correr para o abraço!

1) A ilha (1962), de Walther Hugo Khouri:

Esse foi de longe o meu filme favorito de Eva. Já tinha visto outro filme de Khouri, Noite vazia, sobre o qual até comentei em nosso canal no You Tube. Para quem adora um filme estilo nouvelle vague, Walther Khouri é o que poderíamos chamar, salvo as diferenças gritantes, de nosso Godard brasileiro. Seus filmes abordam o vazio da existência, com personagens que fazem uma crítica bastante feroz à burguesia. Em A ilha não é diferente. Aqui temos a história de um grupo de jovens, playboys e bem de vida, que saem para passar um final de semana ao mar, em um iate pra lá de chique. O empregado que os acompanha, em um determinado momento do filme, conta a lenda de um tesouro escondido em uma ilha nas proximidades, despertando a curiosidade dos jovens. Eles decidem desembarcar no lugar onde estaria o tesouro e, a partir daí, a história começa a se desenrolar. Como disse anteriormente, Khouri adorava retratar o vazio de uma burguesia fútil e sem objetivo algum. Isso é evidenciado pelas inúmeras orgias entre as personagens do filme, homens que quebram garrafas sem motivo; mulheres que fazem striptease. O filme já seria maravilhoso se houvesse apenas os diálogos entre essas pessoas. No entanto, o diretor adiciona um elemento de tensão à trama: o barco some e as personagens ficam ilhadas. A água acabou e há suspeitas de que a água da ilha é envenenada. É aí que a burguesia nos revelará seu lado podre e que patrões e empregados ficarão no mesmo nível. A trilha sonora de Rogério Duprat, que mais tarde emprestaria seu talento musical a Noite vazia, dá o tom sombrio necessário à história. Eva Wilma, apesar de não ser a protagonista, está maravilhosa como a namorada de um dos playboys. Ela, ao lado desse rapaz, parece ser a única pessoa que entende a podridão de tudo aquilo que está acontecendo. A ilha faturou inúmeros prêmios, como o do estado de São Paulo, para Eva Wilma e Khouri.

2) O quinto poder (1962), de Alberto Pieralisi:

Não foram só os norte-americanos que realizaram filmes sobre a paranoia da espionagem, não, senhor. Os brasileiros também o fizeram – e muito bem por sinal. É impossível dissociar O quinto poder da época em que foi feito. A Guerra Fria estava chegando ao auge com a corrida armamentista e espacial. O inimigo eram os comunistas, comedores de criancinhas. De certa forma, esse filme brasileiro de Pieralisi retrata o sentimento de desconfiança que as pessoas experimentavam em 1962. Aqui temos a história de uma trama diabólica, na qual espiões alemães instalam uma espécie de aparelho que emite ondas, pelo rádio e pela televisão, que alteram a mente das pessoas. Elas ficam, de repente, violentas, justificando uma interferência internacional para salvar o Brasil das garras de seus próprios cidadãos. O curioso é que, dois anos depois, em 1964, a mesma desculpa foi usada para mergulhar o país em uma ditadura de 21 anos. O quinto poder dialoga diretamente com a ditadura civil-militar e não foi à toa que foi censurado na época. Alberto Pieralisi já previa os efeitos que a televisão teria sob nossas vidas: o de nos manipular e controlar. As tais ondas invisíveis ainda existem, aliás, elas contribuíram ativamente para o golpe de estado que vivemos atualmente. Eva Wilma é Laura, a mocinha da nossa história, que, ao lado de Carlos (Oswaldo Loureiro), descobre a tramoia dos alemães. O filme também bebe da fonte Hitchcock em diversos momentos, como o da famosa cena de perseguição no Cristo Redentor.

Você pode assisti-lo aqui.

3) São Paulo S/A (1964), de Luís Sérgio Person:

Imagine-se engolido por uma cidade cheia de concreto, com a obrigação de ter um bom emprego e formar uma família. Adicione uma pitada de Eva Wilma e Walmor Chagas e temos São Paulo S/A. A juventude de 1964 parecia tão perdida quanto a de 2016. O filme conta a história de Carlos (Walmor Chagas), um cara que não sabe muito bem o que quer da vida. Ele circula pela cidade de São Paulo e sai com algumas garotas ocasionalmente. Um dia, Carlos conhece Luciana (Eva Wilma) e, aos poucos, vai caindo na teia que a vida adulta vai lhe armando: casamento e filhos. A personagem acaba ganhando muito dinheiro e tem dois filhos. Então por que se sente tão vazia? Por que a cidade a sufoca? São Paulo S/A traz a essência do que, ao meu ver, é um bom cinema: as imagens. São elas que nos dão a sensação de morte lenta e dolorosa, que fazem com que a gente se sinta preso ao concreto de São Paulo. Luciana também está presa às convenções sociais, embora não se dê conta disso. Seria interessante se pudéssemos ver os desdobramentos de ser uma mulher casada e com filhos em 1964, mas o filme é sobre Carlos. A própria São Paulo é uma personagem, contribuindo para a desintegração mental de seus habitantes. Se hoje casar não é algo mandatório, como na época de São Paulo S/A, algumas obrigações permanecem. Em 1964, ser bem-sucedido estava associado ao casamento, mas e hoje? Você deve se sustentar sozinho até os 30 anos. 30 anos, a idade do sucesso. Você deve ter feito um intercâmbio, falar três línguas, no mínimo, e ter um emprego de sucesso. O que você faz ao constatar que tem 25 anos e não realizou metade dessas coisas? Olha o filme de Person e pensa que não está sozinho. Nadar contra a corrente é tão difícil, e São Paulo S/A mostra justamente isso. O que fazer quando uma sociedade inteira dita o que é certo?

 Você pode assisti-lo aqui.

E aí, curtiu nossa lista? Deixe suas impressões nos comentários!

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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