Mulher (1997/1998)

Mulher (1997/1998)

Sempre subestimo minha capacidade de me apaixonar novamente por uma artista e simplesmente sair correndo para ver tudo o que ela fez nesta vida. Pois a grande dama que conquistou meu coração desta vez chama-se Eva Wilma.

Semana passada fui assisti-la pela primeira vez no teatro e saí de lá apaixonada. Quando digo aos meus amigos que queria me deitar no palco e pedir para que ela fizesse tudo comigo, eu não estou brincando. Há muito tempo não experimentava sensações tão fortes em relação a uma história, a uma obra artística. Parecia que, naquele momento em que ela estava representando na minha frente, eu redescobri que tinha um coração batendo dentro de mim. Por isso, quando a peça terminou, não sabia direito o que fazer. Eu sentia aquele coração batendo no meu peito, tão forte. Infelizmente, a sensação evaporou rapidamente, fazendo com que eu tivesse uma única certeza: precisava muito sentir o coração novamente. Muito. E o único jeito era ter a atuação monstruosa dessa atriz desenrolando-se bem em frente a mim. Começava a busca incessante, à la Sherlock Holmes, pela próxima produção de Eva Wilma que arrancaria meu coração fora.

Por que fiquei tão surpreendida ao constatar que a segunda produção que estou vendo com Eva Wilma é super feminista? A resposta é lógica: uma série como Mulher jamais seria exibida na televisão de 2016. Ela só poderia ser fruto do fim dos anos 1990.

(e porque acho que ela estava predestinada a mim, é claro!)

Mulher se propõe a contar a história da Machado de Alencar, uma clínica de atendimento a mulheres. Ela é chefiada pelas doutoras Marta (Eva Wilma) e Cristina Brandão (Patrícia Pillar). A cada episódio temos uma história diferente, que faz uma ponte para discutir questões relacionadas às mulheres. Masturbação, aborto e eutanásia são alguns assuntos discutidos em Mulher.

Gosto de como, aparentemente, Mulher parece uma série simples. Certo, uma série que discute mulheres, que novidade. Realmente, não é nenhuma novidade que uma produção cultural aborde  mulheres. Porém, se pensarmos em produções que respeitam as mulheres e as retratam sem se valerem dos velhos recursos do patriarcado, o número reduzirá drasticamente. Graças à Deusa, podemos encher a boca para dizer que Mulher respeita as mulheres enquanto as aborda de uma maneira verdadeira, sem rodeios. O moralismo, que vem junto a qualquer ideia de contar a história de mulheres nas telas, dificilmente aparece aqui. Por isso, essa série é uma gota d’água no deserto.

Além disso, o fato de que a televisão, de repente, tornou-se extremamente conservadora quanto às mulheres, faz com que eu celebre Mulher ainda mais. Quando falaríamos sobre aborto tão abertamente? Quando teríamos uma médica declarando que faria um aborto em sua paciente para que ela não morresse na mão de “açougueiros”? Em 2016, a conduta da doutora Cris seria rechaçada pelos defensores da vida. Quiçá a série terminaria logo na primeira temporada. Mas, em 1997, a série não só fez relativo sucesso, como teve duas temporadas!

Na época em que a série foi rodada, Eva Wilma tinha acabado de sair de um de seus maiores papéis, a Altiva de A indomada. Ela conta nesta reportagem que seus planos eram sair de férias com o marido, Carlos Zara, mas que o convite de Daniel Filho, diretor de Mulher, a fez mudar de ideia. A atriz viu na série uma oportunidade maravilhosa para discutir assuntos que interessavam às mulheres e, ao meu ver, previu que esse seria mais um grande papel em sua longa carreira na televisão.

Mulher tem uma pegada muito parecida com outra série muito famosa da área médica, Grey’s Anatomy. Aliás, a Globo contratou a roteirista Lynn Mamet, experiente roteirista norte-americana (a moça trabalhou com Law and Order, reflita!), para dar formato à ideia de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho. Ela planejou todos os episódios da primeira temporada junto à equipe da Globo. A série também inovou no quesito tecnologia: foi uma das primeiras a ser filmada em HDTV, algo que hoje é regra em quase todas as produções da emissora.

Abaixo listei alguns aspectos que chamaram minha atenção em Mulher. Espero que eles convençam você a ir correndo assisti-la!

A clínica é chefiada por uma mulher mais velha

Não é surpresa que nossa sociedade, em geral, odeie pessoas mais velhas. Sendo a televisão um espelho social, é claro que ela reproduzirá a repulsa por elas. Protagonistas mais velhas são permitidas apenas se forem sexualmente atraentes. Quem não lembra das Helenas de Christiane Torloni e Vera Fischer? É esse tipo de mulher de meia idade que toleramos: aquela que incita o desejo e, mais do que isso, aquela que não envelheceu. Então imaginem a surpresa ao constatarmos que uma das protagonistas de Mulher é uma mulher de meia idade que não é hiperssexualizada o tempo inteiro na tela e que não precisa de um homem mais jovem para se afirmar enquanto mulher. Muito pelo contrário, a doutora Marta se basta em si mesma. Ela é a chefa do corpo de médicos da clínica, tem um casamento muito feliz com um homem de sua idade e ainda tem tempo para dar uns vrás no dono da clínica, Afrânio. Logo no primeiro capítulo, temos uma cena em que a doutora Marta e seu marido estão transando. Quando veríamos uma cena dessas hoje? A resposta seria (quase) nunca. Nunca veríamos uma mulher como Eva Wilma, na época no auge de seus 60 e tantos anos, transando. Isso porque, aos olhos da sociedade de hoje, velhos dão nojo. No entanto, Mulher nada contra a corrente, mostrando que a doutora fodona da série tem uma vida sexual super ativa com o marido. Que ela não exerce a função de doutora fodona 24 horas por dia. Ela tem sentimentos, ela sofre, ela ama. Se as pessoas não aguentam um minuto de beijos entre Nathália Timberg e Fernanda Montenegro, imagina dois de Eva Wilma e Carlos Zara trocando carícias. Jamé. A doutora Marta mostra que envelhecer não é essa tragédia que nos é ensinada desde cedo. Pareça jovem, aja como jovem.

A doutora Marta (Eva Wilma), rainha e dona da série

A doutora Marta (Eva Wilma), rainha e dona da série.

A amizade entre mulheres

Marta e Cris se conhecem no primeiro episódio, durante um voo em que precisam fazer o parto de uma jovem. A conexão entre elas é imediata (você pergunta: nós vamos shippá-las, Jessica? Resposta: vamos, sim). Marta acaba convidando a outra médica para trabalhar com ela, e elas começam uma amizade que ultrapassa as paredes da clínica. Em uma sociedade que ensina que mulheres são inimigas, seria lógico que Marta visse Cris como sua inimiga, ainda mais por causa da possibilidade de ela ser sua futura sucessora na Machado de Alencar. Para nossa alegria, nada disso acontece. Vejo um respeito e uma confiança muito grandes na maneira como os autores da série escolheram retratar a amizade entre Marta e Cris. Quem tenta abalar essa relação, ainda que indiretamente, é Afrânio (Cássio Gabus Mendes), o dono da clínica. Ele está sempre tentando colocar Cris contra Marta e vice-versa. Não é sintomático que seja um homem o agente que tenta colocá-las como inimigas?

GIRL POWER? SIM, TEMOS!

GIRL POWER? SIM, TEMOS!

Questões relacionadas às mulheres discutidas sem mimimi

Pode perceber: algumas produções culturais sempre caem no mimimi ao querer discutir algo sobre mulheres. O que isso quer dizer? Que a reflexão vem permeada de moralismo, de querer dizer, ainda que indiretamente, como as mulheres devem se comportar. Esses dias, eu estava vendo algumas cenas da primeira versão da novela Mulheres de areia, com Eva Wilma e Carlos Zara nos papéis principais. De repente, percebi que as características da gêmea Raquel eram relacionadas ao que associamos a uma mulher “má”: livre, desbocada e dona de seu corpo. Não é a toa que Raquel leva uma surra do marido nessa novela, afinal, ela tinha de ser punida por esse comportamento subversivo. Já em Mulher, a discussão, felizmente, não escamba para um moralismo tolo. Por exemplo, a segunda história da série, que fala sobre aborto, coloca a questão como um assunto de saúde pública, mostrando a interrupção da gravidez como um direito ao qual toda mulher deveria ter acesso. A amiga de Cris, a advogada Shirley, em um momento, diz algo que poderia resumir toda a questão do aborto no Brasil: “O Brasil é um país hipócrita. Proíbe aborto, mas sabe que acontece abortos”. A proibição e a hipocrisia fazem com que milhares de mulheres morram todos os dias nas mãos de açougueiros. O que me encanta nesse episódio é que não temos uma discussão vazia sobre “abortar ou não abortar”, mas sim uma situação que mostra todas as consequências desse ato para a mulher. Assim são a maioria dos episódios de Mulher, procurando ir além do senso comum, daquilo que já está batido.

O retrato dos homens em Mulher

Sabe aquele filme que só tem uma mulher para encher linguiça, pois ela não serve para absolutamente nada na trama? Lembra desse recurso? Então, temos a mesma lógica utilizada em Mulher, mas ao contrário. Aqui os homens ocupam posições de segundo plano, suas decisões não têm muito peso. Na maioria das vezes, são completos idiotas, sem pulso e engolidos pelas personalidades de seus pares femininos. Não tive acesso a críticas da época em que Mulher estava sendo exibida, mas posso imaginar como as pessoas torceram para que Marta abandonasse a profissão para sair velejando pelo mundo com o marido Otávio (Carlos Zara). Posso imaginar como as pessoas julgaram-na por ser uma péssima mãe, por se importar mais com o trabalho do que com a família. O caso de Marta é muito interessante, pois temos as posições de poder completamente invertidas: ele é um aposentado que fica em casa, enquanto ela é a médica grelo duro que não tem hora para dormir. Tenho certeza de que se estivéssemos falando de um homem, as pessoas não se chocariam tanto. Além disso, temos Afrânio, o segundo homem que ocupa um espaço bastante grande na série. Ele é o produto de nossa sociedade extremamente machista: abusador, e assediador moral. Na maioria das vezes, Afrânio consegue uns belos de uns cortes de Marta ou Cris, a quem ele já assediou inúmeras vezes no local de trabalho, como se isso fosse super normal.

Afrânio (Cássio Gabus Mendes): o retrato do homem machista de nossa sociedade.

Afrânio (Cássio Gabus Mendes): o retrato do homem machista de nossa sociedade.

A volta da parceria Eva Wilma e Carlos Zara

Antes de Fátima Bernardes e William Bonner, a televisão brasileira viveu por Eva Wilma e Carlos Zara. O ano era 1973, e Eva consagrava-se como as gêmeas Ruth e Raquel em Mulheres de areia. Zara interpretava Marcos, milionário disputado pelas duas irmãs. Cenas antológicas, como as da praia, em que os dois se beijam, roubaram o coração dos shippeiros de plantão. Se fosse hoje, eles não escapariam dos gifs do Tumblr. Eis que entre Eva e Carlos aconteceu aquilo que os shippeiros mais sonham: uma paixão real. O ship era real. Eva Wilma conta que começou novamente a sentir coisas por Zara quando eles estavam gravando essa novela. Eles já se conheciam dos áureos tempos do teleteatro na TV Tupi, inclusive, Zara já havia dirigido Eva em Meu pé de laranja lima, no entanto, ela não foi muito com a cara dele na época, o que mudou completamente após Mulheres de areia. O único detalhe era que Eva era casada há mais de 20 anos com John Herbert, ator que contracenou com ela na versão brasileira de I love Lucy, Alô doçura. Zara e Wilma demoraram mais ou menos três anos até assumirem o romance. No final dos anos 70, temos as primeiras reportagens do casal saindo junto, “não querendo mais esconder o romance”. Romance que, aliás, durou até a morte do ator, em 2002. Carlos e Eva têm uma química magistral em cena. Das tantas novelas que eles fizeram juntos, apenas alguns trechinhos de Mulheres de areia foram disponibilizados no Youtube. Nesta cena, Raquel leva uma surra de Marcos, e o que me chama muito a atenção é como você consegue perceber que há algo de explosivo ao redor deles. Penso exatamente naquela canção da Sia que diz “fire meet gasoline”. É isso, fogo e música, como diria Bette Davis em A malvada. A química estrondosa se repete em Mulher, provando que o fire meet gasoline continua intacto. É maravilhoso poder vê-los contracenando juntos, você sente uma cumplicidade e um amor tão grande entre eles que dá vontade de levá-los para casa! Os momentos entre eles, muitas vezes, amenizam a tensão da trama.

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Diversos momentos do nosso casal “fire meet gasoline”, Eva Wilma e Carlos Zara. Créditos das fotos: http://eva-wilma.blogspot.com.br/

 

As mulheres sentiram-se tão contempladas por essa série na época que algumas iniciaram movimentos para que clínicas de atendimento a elas pudessem chegar em suas cidades. Não é lindo? Acho que é disso que falamos quando discutimos tanto sobre representatividade nas telas: produções que causem mudanças positivas de alguma forma. Você se sentir contempladx pela televisão. Mulher nos convida o tempo inteiro a estabelecer um diálogo com nós mesmas, refletir sobre nosso corpo e nossa sexualidade.

Revisão do texto: Pâmela Lima.

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Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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