Eu sei o que aconteceu a Baby Jane

Eu sei o que aconteceu a Baby Jane

Quando Harry Potter and the Cursed Child foi finalmente anunciado, minhas melhores amigas (e revisoras do Cine Espresso) ficaram muito eufóricas com a possibilidade de assistir algo que elas amavam tanto pela primeira vez no teatro. Embora eu tivesse ficado muito contente por elas, não entendia de verdade a dimensão de algo que forma o seu caráter “estar de volta” e causar os mesmos frissons adolescentes de 10 e tantos anos atrás. Até que um belo dia tomei conhecimento de que O que terá acontecido a Baby Jane?, um dos filmes que formou meu caráter como cinéfila, seria adaptado para palcos brasileiros. Aí, meus senhores, eu senti na pele os arrepios ao olhar uma simples foto dos ensaios ou ao assistir à coletiva de imprensa com o diretor e o elenco.

E, depois de ter tido a oportunidade de assistir a essa adaptação teatral na primeira fila, tentarei descrever um pouco do que senti ao ver Eva Wilma e Nicette Bruno representando as personagens tão consagradas por Bette Davis e Joan Crawford.

O que terá acontecido a Baby Jane? foi um dos primeiros filmes clássicos aos quais assisti, há mais ou menos 10 anos. Tenho 25 anos atualmente, mas o impacto que senti ao ver esse filme pela primeira vez aos 16 anos permanece em minha alma. Posso sentir o gosto amargo do rancor dessa história na minha boca todas as vezes que reassisto Baby Jane. Isso porque O que terá acontecido a Baby Jane? é um dos filmes que ultrapassam a época em que foram feitos. A história de rivalidade e rancor entre as irmãs Hudson poderia ser a nossa. Baby Jane e Blanche Hudson não estão muito longe de nós.

Além disso, a rivalidade lendária entre as protagonistas, Bette Davis e Joan Crawford, alimentou meus pensamentos durante muitos anos, como os de outros fãs, acredito. Tínhamos duas grandes atrizes de uma era do cinema que estava morrendo em uma luta furiosa contra o tempo, o envelhecimento e o que as pessoas diziam delas. Muito mais do que o tal do ódio mútuo, eu acredito que Bette e Joan estavam competindo pela nossa atenção para provar que, no auge de seus 60 anos, elas ainda podiam surpreender seu público. E realmente provaram que podiam nos levar do riso às lágrimas em questões de minutos, exatamente como em seus filmes mais antigos. Blanche e Baby Jane, acredito, falavam muito ao coração dessas atrizes. Elas viviam o ocaso, o crepúsculo dos deuses. Bette e Joan trouxeram todo o rancor que, provavelmente, sentiam daquela nova Hollywood, cheia de cabeludos e filmes de terror sangrentos, que não lhes dava espaço. Tiveram que se adaptar às circunstâncias, o que fizeram muito bem aliás. O que são os filmes de horror posteriores dessas maravilhosas? Com a maldade na alma, Almas mortas, Berserk… Poderíamos conversar sobre eles durante horas.

Bette Davis e Joan Crawford na versão cinematográfica de Baby Jane: amigas e rivais.

Bette Davis e Joan Crawford na versão cinematográfica de Baby Jane: amigas e rivais.

Pelas razões elencadas acima e outras mais, eu estava muito curiosa para saber como seria a adaptação para os palcos brasileiros. Como será que Eva Wilma e Nicette Bruno, atrizes tão talentosas, interpretariam Jane e Blanche respectivamente? Como eles reproduziram a tensão que sentimos ao assistir ao filme e ler o livro? O que fariam quanto aos cenários? Eram tantas perguntas que só seriam resolvidas após o dia que eu assistiria à peça em São Paulo. Nesse meio tempo, vi as primeiras fotos de divulgação, Eva e Nicette caracterizadas como Blanche e Jane. Eu não consegui chorar naquele momento, mas uma euforia juvenil rompeu no meu peito. Era um sonho que simplesmente não conseguia acreditar que se tornava realidade. As fotos eram lindas, elas estavam maravilhosas e a ansiedade só aumentou daí em diante. Eu me senti com 16 anos novamente.

jane

Acima: Joan Crawford e Bette Davis Abaixo: Nicette Bruno e Eva Wilma VOCÊS NÃO IMAGINAM COMO EU SURTEI COM ESSA FOTO.

Ao entrar na recepção do teatro, meia hora adiantada e sem ninguém para conversar, só me restava olhar para o telão a minha frente. Nele, um mini vídeo anunciando a peça era exibido de vez em quando. O elenco passava e repassava pelos meus olhos. Ouvindo os comentários das pessoas ao meu redor, percebi que algumas não conheciam o filme e muito menos o livro. Muitas estavam curiosas por causa do título, mas o que teria acontecido a essa Jane? E por que Eva Wilma estava com essa pintura estranha no rosto?

Quando a cortina subiu, o que eu tive foi quase a mesma experiência das madrugadas de filmes clássicos da minha adolescência. Subestimei meus próprios sentimentos e, por já ter visto Baby Jane tantas vezes, realmente acreditei que não poderia sentir nada além das sensações que eu já conhecia. Mas não. De repente, eu me peguei chorando tanto que meus olhos começaram a doer. Ver a história se desenrolar bem na sua frente, assistindo aos atores entregando-se a um palmo de você, é de fazer qualquer um chorar um balde.

Uma de minhas maiores dúvidas era sobre a forma como as três fases das personagens (crianças, adultas e idosas) seriam transpostas para os palcos. No filme, temos algumas cenas reais de filmes que Joan e Bette estrelaram na juventude. Já no livro, há uma sobreposição de narrativas. Você tem Blanche Hudson relembrando a juventude enquanto assiste à televisão com Jane, de repente a narrativa salta para a mente de Jane, e assim vai. A peça traz, em muitos momentos, todas as atrizes para o palco, a fim de fazer essa sobreposição. Por exemplo, há uma cena em que Nicette Bruno está de um lado do palco, com as luzes apagadas a ponto de só visualizarmos seu perfil, e a atriz que a interpreta quando moça no outro lado encenando uma situação que nos ajuda a entender melhor a relação entre as irmãs Hudson. Essas narrativas se fundem em uma só, e as atrizes chegam a interagir entre si, falar com suas versões mais jovens.

estreia

Estreia vip de Baby Jane no dia 20/08. Foto de divulgação da página da peça no Facebook.

Tudo na adaptação de Charles Moëller e Cláudio Botelho,  conhecidos por produzirem grandes musicais por essas bandas, presta uma sutil homenagem ao cinema clássico. Desde a trilha sonora, permeada de grandes trilhas de cinema, como a de Psicose, até frases reais que Joan Crawford e Bette Davis disseram uma sobre a outra inseridas no diálogo. Eu quase gritei quando Jane diz a Blanche: “Você dormiu até com a Lassie”. Essa foi uma frase que Bette disse sobre Joan, em uma de suas tantas declarações ácidas sobre a atriz. É de fazer qualquer fã pirar! Me senti em casa, sabe? Qualquer fã de cinema clássico se sentirá respeitado ao assistir a essa adaptação teatral.

Confesso que não estava preparada para “beber” tanto ódio, ainda mais da primeira fila. Porque um dos aspectos mais notórios de Baby Jane, para mim é o ódio que emana da história. É muito ódio e rancor por metro quadrado. Você consegue sentir isso ao ver o filme e ler o livro. Porém, ao estar no teatro, o sentimento se torna mil vezes mais visceral. Os atores gritam nos seus ouvidos, se mandam à merda, falam palavrões. A peça exige que você consiga se doar, para que esses sentimentos tão ruins possam sair de você. Ódio e rancor são uma das sensações mais poderosas que o ser humano pode sentir. Quando os atores da adaptação de O que terá acontecido a Baby Jane? conseguem fazer com que vislumbremos nosso pior eu é que você percebe que não há como tomar um lado nessa história. Ninguém é só Blanche ou Jane nessa vida.

Elenco da adaptação teatral de

Elenco da adaptação teatral de “O que terá acontecido a Baby Jane?”. Créditos: página de divulgação da peça no Facebook.

Todas as sensações que culminaram no meu ataque de choro não poderiam ter sido provocadas sem o trabalho primoroso dos atores em cena, com destaque para Eva Wilma e Nicette Bruno. Elas tomaram a aura intocável de Baby Jane e transformaram em um trabalho emocionante, que, como eu disse no parágrafo anterior, demanda a doação do espectador. As atrizes contaram em uma coletiva de imprensa que não assistiram ao filme, e acredito que isso tenha sido uma boa escolha. Elas não precisam, né mores? A Jane de Eva e a Blanche de Nicette contêm o temperinho Sazon que essa trama pede: uma cumplicidade monstruosa. Isso porque Blanche e Jane são uma simbiose, parasitas uma da outra. A dependência entre essas personagens exige um trabalho de cumplicidade danado, e tanto Eva quanto Nicette conseguem dar conta do recado.

Se você quiser viver uma experiência única, assista a esse espetáculo. Independentemente de ter visto o filme ou não, tenho certeza de que essa peça de teatro despertará o melhor e o pior em você. Por mim, teria ido rever no sábado e no domingo, mas quis o destino que isso não acontecesse. Agora tenho outra sensação indescritível para carregar no peito: a emoção de ter assistido à Eva Wilma e Nicette Bruno a um palmo de distância, tão longe e tão perto. Vida e ficção misturam-se novamente.

Compre aqui os ingressos para assistir à peça em São Paulo.

Revisão do texto: Ana Rolim.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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