Presente de grego (1987)

Presente de grego (1987)

Eu notei que nos últimos meses o Netflix tem desenterrado um monte de filmes aleatórios. Pensou em algum filme lado B com a Whoopi Goldberg dos anos 90 que você via na Sessão da Tarde? Pode apostar que está lá. Coisas que você nem lembrava que existia da década de 80? Também!

Um desses xuxuzinhos redescobertos foi a comédia Presente de grego, um daqueles filmes beeem yuppies dos anos 80. Temos uma Diane Keaton (que consegue me fazer assistir a algumas bombas só por sua digníssima presença) como uma mulher independente e workaholic – e dentro disso, um caminhão de estereótipos e ideias preconcebidas sobre esse perfil de mulher. Ok, ok, a gente bem sabe que é uma outra época, mas eu não consigo deixar meu eu lírico problematizador de fora, nem mesmo mais com clássicos da Old Hollywood. Mas, bem lá no fundo, Presente de grego (ou Baby Boom, no original), apesar dos clichês do gênero, consegue ter seus momentos divertidos.

 J.C. é uma executiva de sucesso, implacável e, por que não dizer, sem sentimentos (clichê much?). Ela tem um relacionamento sério com um homem com o mesmo perfil que o dela (claro que no filme isso equivale ao fato de que entre eles existe ZERO paixão), um super emprego a qual devota toda sua energia, e por meio do qual ficou conhecida por “tiger lady”, pelo seu jeito durona de negociar. O problema que me incomodou de início no filme foi esse: J.C. não é “feminina”, ela NÃO PODE ser feminina, por ser uma mulher de negócios – e não porque ela “é” assim. E, pelo mesmo motivo, o relacionamento dela é do tipo “sem sal”, no piloto automático. É claro que tudo é culpa dela, afinal, seu trabalho é sua vida. J.C. é fria, centrada, sem sentimentos. E tome estereótipo.

Eis que uma bomba cai na vida de J.C. Ela recebe a notícia de que herdou algo de um primo, que ela nem lembrava que existia, e que morreu. Ela fica super animada com as possibilidades, mas vem o balde de água fria: a “herança” é na verdade um bebê, a filha do casal que faleceu, e sem outros parentes que possam acolhê-la. No aeroporto, a assistente social joga o bebê nos braços de J.C. e cai fora, deixando uma atônita executiva com 0,0% de estilo maternal (ela é um executiva fria, lembra?), e aí começa um outro clichê: a da mulher histérica. Então, depois de uma tentativa fracassada de entregar o bebê para adoção (ela já tinha se ligado sentimentalmente à menina), J.C. tenta conciliar a maternidade forçada com a carreira. E é claro que ela não consegue! Afinal [ironia] não existe como ser uma boa profissional e mãe ao mesmo tempo, não? [/ironia]. E ela precisa desistir, pelo menos por ora, da sua carreira. E descobre magicamente uma mãe dentro de si. E o seu relacionamento apagado também vai pelo ralo.

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Claro, a comédia em si reside nas trapalhadas de J.C. tentando cuidar do bebê e trabalhar ao mesmo tempo. E são de fato engraçadas, assim como é terno ver ela mudando com a chegada da criança. Por Deus, eu não critico a maternidade. Só critico a maneira como a sociedade lida com isso. Romantização da maternidade, a ideia de que toda mulher tem uma mãe dentro de si, cara feia com quem simplesmente não quer ser mãe, críticas a maneira de criar os filhos, e sempre, SEMPRE, 98% da coisa toda, seja o que for, cair em cima da mulher.

E aí chegamos na terceira parte do filme: J.C. deixa a “cidade grande” e vai morar no interior com seu bebê. Lá ela terá que achar um jeito de conciliar os dois lados da sua vida: o profissional e o familiar. Será que ela vai conseguir? Se sim ou se não, a J.C. tem mais uma coisa para se preocupar: um interesse romântico! É obvio que ela não poderia ser feliz sem alguém como seu par! E ele vem na pele do galã feio veterinário Jeff Cooper (dentista urgeeeeeeeeente nesse camarada!). Ou seja, provavelmente J.C. terá, com certeza, o seu final feliz. Basta saber como vai ser. Assistam para problematizar comigo!

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“Parece que o jogo virou, não é mesmo?” – J.C. dando um vrá nos ex-colegas machistas

Ok, talvez eu tenha soado um pouco crítica demais neste texto, mas esse filme realmente me incomodou e também me fez (re)lembrar de todas as pressões sociais que nós mulheres sofremos, sobretudo nessa questão de “mãe: ser ou não ser?”. Para mim, o importante sempre vai ser: a maternidade precisa ser uma escolha da mulher e não algo imposto goela abaixo, por que isso torna a vida da mãe e do filho uma vida repleta de culpa e sentimentos conturbados.

Aliás, que a mulher SEMPRE possa escolher. PONTO.

Em tempo: Diane Keaton, te amo! Olha o que você me faz fazer!

Revisão do texto: Ana Rolim.

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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