Fúria sanguinária (1949)

Fúria sanguinária (1949)

This is the story of Ma Baker, the meanest cat from ol’ Chicago town!

Qual não foi a minha surpresa ao descobrir a ligação entre Ma Baker, canção do grupo Boney M, e Fúria sanguinária, quarto lugar na lista dos 10 melhores filmes de gângster do American Film Institute? Brace yourselves: Ma Baker é inspirada em Ma Barker, mãe de uma gangue de quatro criminosos dos anos 30, que inspirou  Ma Jarrett, a mãe do sanguinário Cody Jarrett, personagem principal de Fúria sanguinária. Parece complicado, não? Essas ligações entre a cultura popular e o cinema nunca param de me surpreender.

Fúria sanguinária foi o filme que fechou com chave de ouro a era de ouro da Warner Brothers. Além disso, carrega um tom de nostalgia justamente por reviver o gênero gângster, que elevou o estúdio ao posto de major nos anos 30.

No final dos anos 40, o cinema já dava sinais da crise que se arrastaria durante os anos 50 e culminaria com a invenção da televisão e dos filmes de baixo orçamento nos anos 60. Depois de lucrarem muito com o período da 2ª Guerra mundial, os estúdios começaram a assistir seu próprio declínio. A cereja no topo do bolo foi o chamado “Decreto Paramount”. Conforme Thomas Schatz nos conta em seu livro O gênio do sistema: a era dos estúdios em Hollywood, essa espécie de lei proibiu a venda de filmes “no escuro” e tirou o controle das salas de cinema das mãos das grandes integradas. A venda no escuro era o segredo das cifras gigantescas que iam, todos os meses, parar nos bolsos dos magnatas do cinema. Funcionava assim: as companhias vendiam pacotes de filmes e a pessoa que os comprava não sabia o que estava levando, por isso o termo “no escuro”. Assim como podiam ser cinco filmes bons, o comprador podia levar cinco porcarias. Além disso, ao retirar o controle das companhias das salas exibidoras, conforme Schatz, “as companhias cinematográficas teriam que cuidar, filme por filme, da produção e das vendas, o que conduzia ao fim de um sistema que envolvia pessoal contratado, fluxo regular de caixa e produção controlada – o sistema de estúdio”.

Eu já vi trocentos filmes do gênero gângster e noir, são meus favoritos. Algumas fórmulas, depois que você começa a assistir a muitos filmes de um gênero, ficam bastante evidentes. No entanto, nunca vi um filme usar tão bem as fórmulas do gênero gângster quanto Fúria sanguinária. Depois que o filme terminou, eu estava extasiada, como há muito não me sentia. Os clichês estão lá: a bebida, o vilão, os planos de assalto… Mas tudo isso com o toque Sazon do diretor Raoul Walsh e de uma história que sustenta muito bem cada um desses clichês.

Como vocês podem imaginar, esse filme é sobre um bandido. Porém, não é um bandido qualquer; seu nome é Cody Jarrett. O que ele tem diferente dos tantos outros vilões de filmes de gângster? Eu diria que o lado humano. Cody tem algo tão humano que você esquece, em diversos momentos do filme, que ele é o vilão da história. Ele surta, ri e carrega um amor incondicional pela mãe. Durante as quase duas horas de filme, somos apresentados às diversas facetas de Jarrett: a de bandido durão, a de filhinho da mamãe, entre muitas outras. Em determinados momentos, você morre de medo de que ele vá surtar. Aliás, uma das cenas de Cody com a Verna, sua esposa, demonstra exatamente o sentimento do espectador em relação a ele. Cody levanta a mão para ela; Verna desvia o rosto, crente de que vai levar um tapa. Calma, querida, não vou te machucar, ele diz. Nós, espectadorxs, somos um pouco como Verna: você desvia o rosto, morto de medo da reação de uma personagem tão imprevisível.

Verna (Virginia Mayo) e Cody Jarrett (James Cagney).

Um dos melhores pontos de Fúria sanguinária é a relação entre Cody e sua mãe, Ma Jarrett. É interessante perceber que os crimes desempenham um papel secundário no filme, para mostrar, de certa forma, que o foco dessa trama é o amor incondicional desse filho por sua mãe. Sem Ma Jarrett, Cody não consegue ter suporte para enfrentar o mundo real. Além disso, Ma Jarrett é aquele tipo de mãe que coloca o filho lá em cima, por isso Cody se criou acreditando ser a bolacha mais recheada do pacote, o que pode ser traduzido pela frase que ela sempre lhe dizia: Top of the world, son. Para Ma, o lugar do filho não deve ser nada menos do que no topo do mundo. Ma Jarrett apoia o filho em suas empreitadas no mundo dos assaltos, algo que lembra bastante outra mãe bastante famosa do mundo do crime: Ma Barker. Essa figura tornou-se uma lenda dos anos 30, ao lado de Bonnie & Clyde. Seus quatro filhos formaram uma gangue, e Ma Barker os ajudava em suas ações. Ela foi imortalizada em diversas canções, como Ma Baker, do grupo Boney M.

Da esq. para dir: Verna, Ma Jarrett e Cody.

Fúria sanguinária também fala sobre amizade e decepção. Para capturarem Cody, a polícia arma um esquema genial: coloca alguém da corporação, Hank Fallon (Edmond O’Brien) para conquistar a amizade e o respeito de Cody. Como Vic Pardo, Hank, aos poucos, vai amolecendo o coração de Jarrett, até a personagem se tornar tão necessária em sua vida quanto Ma Jarrett. Tive mixed feelings em relação a isso, por um lado queria que Cody fosse pego; por outro pensava na senhora decepção que Cody teria ao descobrir que seu melhor amigo era uma farsa. Talvez por isso o filme ultrapasse as fórmulas pré-estabelecidas do gênero gângster, pois, ao contrário do que se espera de uma trama desse tipo, temos muitos sentimentos. Quando Cody descobre a farsa, nós ficamos decepcionados junto com ele. Afinal, quem nunca passou pela situação de descobrir que a pessoa que você mais considerava no mundo na verdade o enganava? Esse filme mexe com os nossos sentimentos mais primitivos, raiva, medo e dor.

Por ser uma homenagem aos filmes de gângster dos anos 30, que fizeram da Warner Brothers um estúdio tão respeitado quanto a MGM, é claro que o rei desse tipo de filme teria de ser chamado: James Cagney. Não falar dele nesse texto é não fazer jus ao seu valor enquanto ator e, principalmente, a sua importância para a consolidação do que hoje pensamos sobre filmes de gangster. No começo, quando esse papel lhe foi oferecido, Cagney achou que era o mesmo que ele já havia interpretado tantas vezes no cinema. Realmente era. James, então, sugeriu inserir a relação entre Cody e sua mãe e torná-lo psicótico. Amen to that! A atuação de Cagney está estarrecedora, ele consegue ir da raiva à fragilidade em questão de uma cena. No primeiro surto que Cody tem, na frente dos comparsas, ele corre em direção ao quarto da mãe, num ato de fragilidade que contrasta com sua dureza. É assim o tempo inteiro. Cagney revive o tipo de papel que o tornou célebre nos anos 30, em filmes como Inimigo público. Nessas tramas podemos notar um pessimismo, que se tornaria a marca dos filmes da Warner Brothers, presente nas histórias. Romance, esses mememes? Os Warner dos anos 30 não gostavam disso. Eles traziam muita ação, filmes de rápido consumo, mostrando o lado mais cruel da sociedade. Sem romances ou grandes estrelas nos papeis principais, a Warner conseguiu conquistar o público. Tudo isso é revivido em Fúria sanguinária.

“Amigos para sempre é o que nós iremos ser…” SÓ QUE NÃO!

Muito antes de ser uma homenagem aos filmes de gângster, Fúria sanguinária é o retrato da loucura de um homem e de sua ambição. Talvez por isso ele nos prenda tanto, você consegue entender o drama de Cody Jarrett, até mesmo se identificar com ele. A Warner Brothers não poderia ter se despedido de uma forma mais emblemática de sua era de ouro do que com Fúria sanguinária.

Revisão do texto: Pâmela Lima.

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Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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