Uma noite no Rio (1941)

Uma noite no Rio (1941)

Quando Carmen Miranda foi para os Estados Unidos, inicialmente para trabalhar para Lee Shubert, ninguém imaginava que ela seria uma mina de ouro para os estúdios de cinema, muito menos a imagem mais poderosa (e contraditória) do Brasil no estrangeiro. A pequena notável, como era carinhosamente chamada, migrou facilmente para o cinema, pois era uma imagem deveras peculiar para ficar de fora de Hollywood. Das boates, Carmen foi parar nos estúdios da Fox, e ali sua persona foi consolidada: a latina burra, a latina que falava mal inglês. Brasileira nunca, latina sim, pois os Estados Unidos acreditam que tudo que está abaixo do umbigo deles é a mesma coisa.

O fascínio que as pessoas tinham em relação à Carmen, um exotismo quase colonizador, tornou possível o seu sucesso em Hollywood. Quem não queria ver aquela mulher pra lá de elegante, com aquele traje super exótico de baiana, remexendo os quadris e cantando? Os estúdios da Fox captaram imediatamente os cifrões que Carmen poderia lhes trazer e a contratou para trabalhar como atriz. O resultado, quase 50 anos depois, é quase o mesmo do provocado nos anos 40: as pessoas continuam fascinadas pela imagem de Carmen Miranda. Eu confesso que sou fascinada por ela desde os 15 anos, quando ganhei de presente de aniversário a biografia dela, escrita por Ruy Castro.

Uma noite no Rio é o segundo filme de Carmen em Hollywood e apresenta melhoras sensacionais se compararmos a sua estreia em Hollywood, em Serenata Tropical. O enredo melhorou? Melhorou. Os atores coadjuvantes melhoraram? Ah, com certeza. O retrato do Brasil melhorou? NÃO!

 Depois da reação violenta em relação à Serenata Tropical, filme anterior de Carmen e que apresentava uma imagem completamente torta dos argentinos, os produtores da Fox decidiram tomar mais cuidado com a imagem da América Latina que espalhavam com seus filmes. Não dava para decepcionar os hermanos novamente, especialmente com a política de boa vizinhança rolando solta nos anos 40. No entanto, parece que o consultor da Fox para assuntos brasileiros não estava presente no momento que alguns detalhes do enredo foram elaborados.

O filme conta a história do barão Manuel Duarte (Don Ameche), que convida o imitador Larry Martin (Don Ameche) para imitá-lo em uma festa em sua casa. A semelhança entre os dois é tão incrível que, quando surge a intriga do filme, o barão precisa de dinheiro para pagar um empréstimo e não pode se ausentar para não levantar suspeitas, o imitador assume o lugar dele. Carmen (Carmen Miranda) é a namorada tresloucada e super ciumenta de Larry, já que ele arrasta uma asa para a esposa do barão, Cecília (Alice Faye).

Da esquerda para direita: Alice Faye (Cecília), Don Ameche (Larry/Barão Duarte) e Carmen Miranda (Carmen).

As incongruências entre a imagem que a Fox queria apresentar e o que ficou começa com o fato de termos um barão no Brasil dos anos 40. Onde estava o consultor para assuntos brasileiros para explicar que a república havia sido proclamada há 50 anos? Além disso, a maioria dos personagens do filme têm nomes tipicamente portugueses: Eça, Machado, Salles, Penna. Conforme nos conta Ruy Castro em sua biografia sobre Carmen Miranda, a única referência que temos ao Rio é no título e quando o filme começa, com o Pão de Açúcar atrás no cenário. De resto, Uma noite no Rio poderia se passar em qualquer lugar que imaginarmos. Isso aconteceu por causa da confusão com a ambientação de Serenata Tropical. Na ânsia de não pecar com os hermanos, os produtores preferiram silenciar a ambientação da trama o quanto fosse possível.

Mais uma vez, a personagem de Carmen é a latina amalucada, que passa metade do filme atirando sapatos na cabeça das pessoas. Devido às suas dificuldades com o inglês, ela treinava os diálogos dia e noite. Carmen trabalhou ao lado de Yaconelli, que ensinava as falas de Don Ameche para que ela pudesse dar uma interpretação mais verdadeira. De tanto treinar, Carmen chegou ao ponto de saber suas falas e as dos outros. A Fox era fascinada por seu jeitinho trabalhador de ser: não tinha tempo ruim com ela. Faça chuva, faça sol, lá estava Carmen, vestida e maquiada antes de todo mundo para gravar. Irving Cummings, diretor de Uma noite no Rio, a chamava de one-take girl.

É interessante observar que todas as falas em português de Carmen não são legendadas em inglês. Esse era um procedimento muito utilizado nos filmes norte-americanos, com o intuito de causar estranhamento no espectador. Além disso, a imagem da mulher louca também contribui para o estranhamento. Ela é objeto de riso, jamais levada a sério, afinal, é louca. E quando temos a junção de latina e louca, é como se o filme virasse um estudo sociológico que explica a superioridade dos civilizados (americanos) versus o atraso dos latinos. Isso fica muito evidente na cena em que Larry pede a Carmen que se acalme, dizendo: “O inglês não é esse tipo de língua [de gente histérica], por isso não fique exaltada!”. Quer dizer, essa língua aí de vocês é de gente amalucada, vocês gritam para tudo. O pior é ver esse clichê da língua ser utilizado em produções dos dias de hoje. Vontade de morrer: tá tendo.

E isso que nem falamos sobre como a imagem de Carmen como brasileira é problemática. Até ler um artigo muito bom sobre apropriação cultural, jamais tinha pensado no quanto ela se apropriou dessa imagem da Bahia e da baiana. Carmen é a face que nós, brancxs, queremos que o Brasil tenha: branca. Essa é a face pública do nosso país. Vocês imaginam uma Carmen Miranda negra? Claro que não, até porque ela jamais teria a chance de fazer parte de Hollywood. Eu gosto muito de Carmen, muito mesmo. Porém, não posso fechar os olhos para a apropriação de símbolos da cultura negra por parte de nós, brancxs. Ela acontecia nos anos 40 e ainda acontece. E é por essa razão que é preciso falar sobre isso.

Apesar de todos os problemas elencados acima, Uma noite no Rio tem, para mim, o melhor enredo de todos os filmes de Carmen. As situações engraçadas que decorrem do fato de Larry estar se passando pelo Barão Duarte são sensacionais e fazem o filme passar correndo. Além disso, o elenco de coadjuvantes é só amor! Acho incrível filmes em que coadjuvantes não estão ali para encher linguiça, mas também tem uma história. Os amigos do Barão, Salles e Penna, são de longe os caras mais engraçados de Uma noite no Rio. Salles tem um cacoete com a boca; ele fica o tempo inteiro mexendo de um lado para outro. O amigo de Cecília, Pierre (Leonid Kinskey) também garante boas risadas. Ele não aceita que a baronesa não lhe dê muita trela. Leonid Kinskey também participou de Serenata Tropical e Aconteceu em Havana, outros dois filmes de Carmen.

Outro ponto do qual gosto muito de Uma noite no Rio é como as duas protagonistas representam a antítese uma da outra, o que gera situações muito interessantes. Cecília é a baronesa quase “frígida”, ao passo que Carmen tem toda aquela energia em cena que nos deixa atordoados. A personagem Cecília condizia muito com o posto de diva que Alice Faye carregava na Fox naqueles tempos. A atriz era uma espécie de entidade dentro dos estúdios, com um séquito de pessoas ao seu redor para maquiá-la e arrumá-la. Na realidade, Alice era super humilde e seu maior sonho era casar e ter filhos. Carmen e ela se deram muito bem. Faye ficou fascinada com a energia da pequena notável.

Alice e Carmen, as super miguxas!

Uma noite no Rio não fica atrás de milhares de filmes que retratam países de forma estereotipada. Para além do enredo, repito que precisamos discuti-los para entendermos como essas narrativas influenciam na nossa percepção identitária. Certamente, Carmen Miranda tem sua parcela de influência na constituição da identidade do povo brasileiro. E se hoje, por um lado, continuamos a ser o país da caipirinha, do samba e da bossa nova, é porque Carmen Mirandas existiram e continuam fazendo a manutenção dessa imagem. Vamos refletir sobre isso? O cinema tem muito a nos dizer sobre quem somos e que imagens outrxs têm de nós.

Revisão do texto: Pâmela Lima.

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Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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