Marseille (2016)

Marseille (2016)

Confesso que eu cheguei com um mês de atraso a esta festa chamada Marseille. Foi através da Patrícia, nossa colega de Cine Espresso, que tomei conhecimento da primeira série francesa da Netflix. Até aquele momento, a série tinha passado batida por mim, mas aí duas palavrinhas mágicas foram ditas, e eu mudei de ideia na hora: Gérard Depardieu. Eu poderia passar horas enumerando atrizes francesas que são como rainhas para mim, mas rei é só um, e ele se chama Gérard Depardieu. Poucos atores franceses tem o calibre desse senhor. Um cara que trabalha diversas vezes com Catherine Deneuve e Fanny Ardant tem todo meu respeito como ator ( como pessoa não, afinal ele sonega imposto na França ). E foi por causa desse respeito que decidi assistir a Marseille.

Marseille conta a história de Robert Taro (Depardieu), prefeito de Marseille, e de seu vice, Lucas Barrès (Benoît Magimel). Está tudo acertado para o prefeito passar a faixa para o vice até Barrès puxar o tapete de Taro no final do primeiro episódio. O vice-prefeito vota contra um projeto de construção de um cassino na cidade, algo que sempre parece ter sido muito desejado por Taro. Esperei 20 anos por isso, diz Lucas. Neste momento, o dedo do espectador já está rolando para o próximo episódio, morto de curiosidade para saber o motivo da vingança de Barrès. Porém, ao meu ver, a série começa a degringolar justamente na parte que mais deveria nos interessar.

O drama raso de Marseille faz com que a série pareça mais uma novela mexicana do que uma série sobre política. Os personagens não nos inspiram nada, suas motivações são pouco plausíveis. Não conseguimos entender direito a revolta de Rachel (Géraldine Pailhas), esposa do prefeito. As explosões de Lucas Barrès, como li em outro site sobre cinema, “são comparáveis as de um menino mimado”. Parece que falta aquele toque de verossimilhança, que faz de uma série como House of Cards sucesso.

Elenco de “Marseille”.

Além disso, outro ponto que me incomodou bastante foi o retrato das mulheres nessa série. Elas são meros joguetes nas mãos dos homens, objetos sexuais. Vanessa (Nadia Farès) ocupa um cargo político importantíssimo na série, mas isso é ensombrecido pelo fato de a personagem aparecer quase sempre transando com outra ou seminua. Já Rachel é a potiche, esposa troféu do prefeito. Lá pelas tantas, ela é usada como manobra política, a função mais importante que ocupa durante os 8 capítulos de Marseille. Outras mulheres que ocupam cargos políticos aparecem pouquíssimo. As que mais aparecem são aquelas que, de alguma forma, mantém relações sexuais com homens da série. Trata-se de um pretexto furado para que elas apareçam nuas e seus corpos sejam objetificados. Cultura do estupro: até quando?

Na realidade, Marseille me conquistou por outros aspectos, como a abertura. Para mim, a abertura de uma série é o cartão de visitas dela, e a de Marseille não decepciona nenhum um pouco. Temos imagens dos personagens em sépia se misturando à cidade, fundindo-se a ela. O paralelo que a abertura constrói é interessante, pois no fim das contas a cidade acaba se tornando uma personagem importante. Como disse Benoît Magimel, ator que interpreta Lucas Barrès: “É como se a cidade fosse uma mulher sendo disputada por dois homens”. Os créditos de abertura de Marseille me lembraram muito uma série da qual gosto muito, True DetectiveVocê tenta desvendar o que está por trás daquela escolha de imagens, mas só vai conseguir assistindo à série. Algo que adorei de verdade foi que a música escolhida para abrir Marseille é cantada em árabe por um grupo chamado Orange Blossom. Como uma boa historiadora e tradutora, eu fui futricar o que as pessoas estavam achando sobre isso, já que não é de hoje que a França não consegue lidar com a questão árabe. Adivinhem? É claro que as pessoas estavam detestando o fato de uma música árabe abrir uma série francesa . A xenofobia dominava os comentários do vídeo da canção no Youtube.

Para quem quer conhecer mais da cultura francesa, para além dos muros de Paris, Marseille é um ótimo começo! Temos cenários reais, como a prefeitura e os bairros populares, que nos desenham uma França bastante diferente daquela dos filmes com Louis Garrel. Por exemplo, a realidade dos HLM, as habitações populares francesas (ué, mas a França tem casas populares?????) está lá. Nesses lugares moram as pessoas que a França não gosta de mostrar em suas produções: xs imigrantxs, xs negrxs. A série consegue mostrar um pouco dos problemas que os HLM enfrentam, a precarização da vida de quem é imigrante e pobre. É sempre bom lembrar que os HLM apenas estão presentes em Marseille porque são utilizados como joguete eleitoral. Duvido que uma série que se focasse nesse lugar seria feita para ser exportada para o mundo. A França, assim como outros países, escolhe como quer ser lembrada.

A prefeitura de Marseille.

A Netflix anunciou recentemente a renovação da série. Meus dedos estão cruzados para que tenhamos plots mais desenvolvidos e personagens menos crus. Ainda tenho esperança de que a série vai deslanchar de verdade. Enquanto a segunda temporada não vem, convido vocês a darem uma chance para conhecer o universo misterioso de Robert Taro e Lucas Barrès em Marseille.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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