Vento e areia (1928)

Vento e areia (1928)

Quase impossível falar em cinema mudo sem pensar em Chaplin, Buster Keaton, Mary Pickford e Lon Chaney, entre outros. Lillian Gish é conhecida como a “Primeira dama do cinema americano“. Seus filmes, como o pioneiro D.W. Griffith, estarão sempre inclusos em qualquer lista de silent movies inesquecíveis, e nos propõem embarcar em uma jornada emocional com suas personagens.

Em 1925, Lillian rompeu a parceria com Grifith para assinar um contrato com a recém formada MGM, que prometeu dar a ela mais liberdade e controle criativo sobre sua carreira. O estúdio ofereceu o salário de um milhão de dólares por filme, dinheiro recusado pela atriz, que negociou um pagamento mais modesto e uma porcentagem dos lucros para que a MGM contratasse melhores atores e roteiristas, investindo na qualidade das produções. Não é a toa que alguns de seus grandes filmes são desse período.

thewind2No estúdio, a estrela obteve (quase toda) a liberdade artística prometida e seu pedido foi imediatamente aceito por Irving Thalberg quando ela sugeriu uma adaptação cinematográfica para o romance “The Wind”, escrito por Dorothy Scarborough. Lillian Gish solicitou o ator Lars Hanson para interpretar seu par depois de assistí-lo em um filme com Greta Garbo. Também foi a própria atriz quem convidou Victor Sjöström para dirigir o filme. Os dois já haviam trabalhado juntos em “A Letra Escarlate”, de 1926.

“The Wind” (Vento e areia, no Brasil) lançado em 1928, marca a última performance de Gish no cinema mudo, e apesar de ter sido um fracasso de público e crítica na época de seu lançamento, se tornou um dos favoritos entre os fãs da atriz. Na década de 90, o filme foi considerado “culturamente, historicamente, ou esteticamente significativo” pela Biblioteca do Congresso dos EUA, e é preservado no National Film Registry.

thewind3 Na trama, Letty (Lillian Gish) se torna orfã e parte numa viagem de trem rumo ao Texas para viver na casa de um primo. No percurso, a jovem conhece Roddy, um cavalheiro de meia idade que a alerta sobre o vento fantasmagórico que uiva sem parar na cidade para a qual ela se destina. Logo já percebemos que o sujeito está interessado em muito mais do que simplesmente ser educado com a bela passageira. Ao chegar na casa do primo Beverly (Edward Earle I), Letty é recebida com descaso por Cora (Dorothy Cumming), a esposa enciumada de Beverly que não suporta a alegria do marido e das crianças a cerca da hóspede. Uma atmosfera sombria paira sobre a casa retratada no filme, não por causa das tomadas que revelam as condições climáticas horripilantes do vilarejo, mas porque parece não existir chance da moça encontrar qualquer felicidade entre aquelas pessoas.

thewind5Em um baile frequentado por moradores locais, Letty reencontra o cavalheiro que conheceu na viagem de trem, que declara seu amor e a convida para partir com ele de volta para Virginia, alegando que ela não precisaria mais ficar naquele rancho isolado do mundo e assombrado por aquele vento terrível. A inocência e doçura da jovem recém chegada conquista a todos. Nessa mesma noite, é pedida em casamento por outros dois pretendentes!

Apesar de querer continuar na casa do primo, Cora coloca Letty para fora e ela então precisa tomar uma decisão. É nesse ponto que outros acontecimentos a desiludem e acabam com sua ingenuidade. A jovem, sem dinheiro e um lugar para morar, se vê obrigada a optar por um de seus pretendentes e se casa com Lige (Lars Hanson). A relação toma um rumo diferente quando o noivo se dá conta de que sua jovem esposa não está disposta a “consumar” o casório.

thewind6O vento é o “protagonista” do filme e pode ser interpretado de diversas formas. Para alguns, representa o medo, as consequências daquilo que escolhemos ou a repressão que cerca nossa heroína. A repressão, em um modo geral, principalmente contra as mulheres, sempre foi um dos temas mais abordados na filmografia de Lillian Gish. Nos filmes mudos, adultério é visto como a pior coisa que pode acontecer em um casamento, quase uma condenação. Alguns desses filmes mostram claramente a hipocrisia da sociedade e ajudaram a esclarecer as pessoas, sempre em passos lentos, como acontece até hoje com as tentativas da televisão e cinema em tentar driblar velhos preconceitos.

Lillian Gish gravou uma introdução para os espectadores de “The Wind”, contando algumas curiosidades do período em que trabalhou na MGM e dos bastidores da produção. Ela explica que, no livro que originou o filme, sua personagem enlouquece e termina “jogada ao vento” para morrer no deserto. O fim trágico foi rejeitado por executivos responsáveis pela distribuição do filme e teve de ser substituído por um final feliz, contra a vontade de Gish e Victor Sjöström. No video, a rainha brinca sobre o mito de que um final triste era capaz de arruinar uma carreira, teoria que não serve para ela que já havia tido sete até então. A gente lembra bem de sofrer junto de suas personagens nos épicos de D. W. Griffith!

O filme foi gravado no deserto de Mojave, na Califórnia e oito hélices de avião foram utilizadas para criar o vento que assistimos no filme. Além do elenco e equipe precisarem enfrentar a temperatura escaldante, em torno dos 45ºC, tinham que usar lenços e óculos especiais para escapar da “tempestade” de areia causada pelo vento. Lillian chegou a queimar a mão ao colocá-la num objeto de metal e confessou que “The Wind” foi sua experiência mais desconfortável gravando um filme. Felizmente, quando as filmagens terminaram, todos sentiram que tinham um bom filme em mãos.
thewind8O lançamento foi adiado por mais de um ano e, quando finalmente estreou, em novembro de 1928, teve uma recepção fraca devido à chegada dos filmes sonoros que invadiam os cinemas a todo vapor. “Vento e areia” foi a última grande produção do cinema mudo realizado pela MGM, último silent estrelado por Lillian Gish e o último filme dirigido por Victor Sjöström (diretor de “A Carruagem Fantasma” e que anos mais tarde protagonizou “Morangos Silvestres” de Ingmar Bergman).

thewind10 A crítica especializada não ligou muito para o filme. Entre tantas novidades na indústria, acabou passando batido e teve um prejuízo de 87.000 dólares. Incrível como algo tão subestimado pode vencer o teste do tempo e ser finalmente reconhecido. Gish revelou numa entrevista que, entre os filmes que gravou para a MGM, “The Wind” é seu favorito. É até piegas defender esse filme, sua narrativa poética e beleza inquestionável. Uma obra de arte!

Revisão do texto: Pâmela Lima.

Escrito por Guilherme

Still tryin' to find my place in the sun.

Comentários

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

                                    
Encontre-nos no Facebook
Filmes por Ator:
                                                                                                                       
Filmes por Atriz:
                                                                                                                       
Filmes por Diretor: