Como eliminar seu chefe (1980)

Como eliminar seu chefe (1980)

Se hoje as feministas ainda são taxadas de loucas, imagine na década de 80. Passado os anos 60 e 70, momentos chave para o movimento feminista, Hollywood começava, aos poucos, a incorporar essa temática em seus filmes. Ainda que a palavra feminista não fosse claramente pronunciada nos filmes, as temáticas estavam lá. Das mães solteiras interpretadas por Gena Rowlands, Ellen Burstyn e Diane Keaton à ativista estudantil de Barbra Streisand em O nosso amor de ontem. No entanto, todas essas personagens eram uma versão limpinha e polida da feminista louca, queimadora de sutiã e não depilada. Versões que o cinema de massa poderia engolir facilmente.

Como eliminar seu chefe, infelizmente, continua a safra de filmes com temáticas ligadas ao feminismo facilmente digeríveis. A diferença é que ele faz isso depois de muito sambar na nossa cara, mostrando a opressão sofrida pelas mulheres no ambiente de trabalho.

Não podemos separar Como eliminar seu chefe da época em que foi rodado. A discussão sobre feminismo começava a se abrir timidamente nos anos 80. Aqui me parece importante ressaltar que os debates giravam apenas em uma das facetas do feminismo. Não se pensava em interseccionalidade como hoje. Isso quer dizer que os assuntos discutidos eram os de interesse das mulheres brancas. Portanto, Como eliminar seu chefe é um filme que retrata um tipo de experiência: a da mulher branca. Ponto final. Sabemos hoje que mulheres negras estão muito mais vulneráveis em seu ambiente de trabalho do que as brancas, mas nos anos 80 isso sequer era colocado em xeque.

Contudo, os méritos do filme precisam ser reconhecidos. Que mulher nunca foi assediada pelo chefe e não denunciou por que tinha medo de perder o emprego? Que mulher é tão boa quanto seus coleguinhas homens e sequer recebe uma promoção? Que mulher nunca teve a inteligência subestimada pelo simples fato de ser mulher? Imaginem, então, um filme que cutuca a casquinha das relações de poder no trabalho. E não apenas isso, imaginem um filme com três das maiores estrelas da época nos papeis principais. Quantas perturbações e suadores não surgiram nesses cinemas, minha gente! Quantas mulheres não saíram daqueles cinemas pensando: “Essa sou eu, essa é a minha vida”. POIS É!

O filme conta a história de três funcionárias da empresa de Frank Hart (Dabney Coleman): Doralee (Dolly Parton), Judy (Jane Fonda) e Violet (Lily Tomlin). As três personagens sofrem opressões em graus e motivos diferentes.

Violet (Lily Tomlin), Doralee (Dolly Parton) e Judy (Jane Fonda).

Doralee é a secretária do chefe. Se você pensou em algo relacionado a dormir com o chefe, acertou. Aliás, a escolha de Dolly Parton para esse papel me parece muito intencional. Sendo um dos maiores nomes da musica country norte-americana, as pessoas costumam lembrar-se mais de sua aparência física do que de sua voz maravilhosa. A secretária é loira, tem os seios grandes e usa unhas postiças. Aquele estereotipo de mulher vulgar que nós adoramos, só que não. Doralee resiste às investidas do chefe, porém suas colegas não sabem. Logo, além de assediada, ela também é vítima do julgamento de outras mulheres. A cena em que a personagem almoça sozinha, excluída em uma mesa do canto, é de cortar o coração. O patriarcado é tão eficiente em sua opressão que faz com que julguemos outras mulheres ao invés de perceber que estamos cegas por um sistema que nos ensina a odiar nossas próprias irmãs.

Violet me lembrou muito minha mãe. Das três personagens, ela é a única que ocupa um cargo de chefia na empresa. No entanto, a suposta posição de poder não impõe respeito mesmo assim. Seu chefe vive lhe pedindo para servir cafezinhos e comprar lenços para a esposa, coisas que não fazem parte de sua função. Fica claro durante o filme que Violet entende muito mais do riscado do que o próprio chefe. Ela domina como ninguém a empresa, mas está sempre em desvantagem por ser mulher. Aliás, é o fato de ser mulher que permite que seu chefe lhe roube uma ideia. Frank leva a melhor, com direito a elogios do mais alto staff da empresa. Enquanto mulher você precisa provar duas vezes mais que é capaz de algo e impor respeito todos os dias. As pessoas não lhe respeitam pura e simplesmente, pois lá no fundo ficam incomodadas quando uma mulher está ditando as regras.

Para terminar, Judy é a mulher divorciada que precisa começar a trabalhar para se sustentar. Logo que é admitida, ela tem uma conversa com Frank. Ele lhe explica como a empresa funciona e o que espera dela como funcionária. Por fim arremata: “Você é bem bonitinha perto das velhas que trabalham aqui”. Assédio verbal é algo que nós mulheres experienciamos desde a mais tenra idade. Lembro que, aos 12 anos, eu já ouvia cantadas e comentários grosseiros. Imagine no ambiente de trabalho onde o chefe tem plenos poderes. Pode mandar e desmandar. Frank usa seu poder mais uma vez ao destratar Judy quando ela não sabe operar a máquina de xerox. A personagem chega a chorar de tanta raiva e tanto medo (quem nunca?).

Esse festival de abuso de poder culmina no encontro das três personagens principais. Elas têm um momento de descontração, imaginando o que fariam com o chefe. A divagação mais interessante é a de Doralee, que imagina os papeis de gênero invertidos. Ao vermos Frank sendo objetificado, desrespeitado pela chefe é que percebemos o absurdo de tudo isso. Talvez só assim os homens espectadores pensassem um pouco no que fazem com suas funcionárias. Já Judy se imagina caçando Frank, uma das cenas mais engraçadas do filme. Os requintes de violência e crueldade das personagens não podem ser confundidos com a violência cotidiana do chefe.

A virada do filme acontece quando, acidentalmente, uma das personagens envenena Frank. E agora? Só assistindo Como eliminar seu chefe para saber!

Como eliminar seu chefe foi a estreia da maravilhosa Dolly Parton nas telas. Ela faria mais alguns filmes nos anos 80, como A melhor casa suspeita do Texas, um musical de estrondoso sucesso na Broadway adaptado para o cinema. Vou confessar algo para vocês: eu sou uma apaixonada por música country norte-americana. Muito apaixonada. Tão apaixonada que soa até irônico que eu jamais tivesse prestado atenção em Dolly Parton antes. Como eliminar seu chefe mudou minha relação com ela, e agora estou completamente aos seus pés! Parton prova que não perde para nada para suas colegas Fonda e Tomlin. Nadinha mesmo. Além de sua atuação com um timing único para a comédia, a voz estrondosa da música que abre Como eliminar seu chefe é a dela! A canção que resume praticamente o drama de todo trabalhador foi indicada ao Oscar. Dolly a escreveu para Lily Tomlin e Jane Fonda e usou o barulho que suas unhas postiças faziam para criar a batida da música.

Muito mais do que falar sobre opressão no ambiente de trabalho, esse filme é sobre amizade entre mulheres. Judy e Violet começam a história odiando Doralee por causa dos boatos de que ela dormia com o chefe. Logo percebem que aquele ódio não tem fundamento, e que a união é muito mais interessante. Toda vez que vejo mulheres unidas, se ajudando, trocando experiências, meu coração dispara. Eu fico muito feliz. Quando percebemos que a mulher ao nosso lado não precisa ser nossa inimiga, sentimos um alívio tremendo.

E ainda sobre amizades entre mulheres, há 35 anos atrás (esse filme tem 35 anos, meus amigos, e continua atual!)  começava uma parceria única e inusitada entre Lily Tomlin e Jane Fonda. Apesar de Jane ter aparecido no especial de televisão de Lily em 1988, as duas só voltariam a trabalhar juntas de verdade em 2015, na série da Netflix Grace and Frankie. Aliás, recomendamos fortemente que você também assista a essa série, pois ela trata de temas importantes como a velhice e o casamento igualitário. A segunda temporada estreia no dia de 6 de maio, exatamente daqui três dias, e eu não me aguento de tanta ansiedade! Se vocês curtiram essas duas em Como eliminar seu chefe, vocês vão ficar viciados em Grace and Frankie. Também recomendamos que “percam” 15 minutos do tempo assistindo ao Ted Talk delas, que celebra justamente a amizade entre mulheres.

A melhor série de comédia dos últimos tempos.

Como eliminar seu chefe carrega outros problemas, mas como já disse antes, o filme também merece atenção. Ele foi uma das maiores bilheterias nos EUA e isso, eu imagino, possa ter atentado às pessoas para a discussão sobre as opressões no ambiente de trabalho. Talvez o mais triste disso tudo é estarmos em 2016 e situações como as das três personagens principais ainda se repetirem. Será que evoluímos mesmo? Quando vejo mulheres (e a minha mãe é uma delas) passando por situações parecidas, minha resposta tende para o não. Por isso, a discussão não terminou. Não podemos deixar que ela termine enquanto mulheres (principalmente as que não são brancas e de classe média) forem vítimas de ambientes de trabalho extremamente sufocantes e opressivos.

Curiosidades:

  • O filme virou uma série de televisão nos anos 80;
  • Nos anos 2000, tivemos um musical baseado em Como eliminar seu chefe;
  • Lily Tomlin quase recusou o papel de Violet, pois também estava rodando naquela época A incrível mulher que encolheu.

Revisão do texto: Ana Rolim.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

Comentários

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

                                    
Encontre-nos no Facebook
Filmes por Ator:
                                                                                                                       
Filmes por Atriz:
                                                                                                                       
Filmes por Diretor: