Os reis do iê-iê-iê (1964)

Os reis do iê-iê-iê (1964)

1964: quatro caras vindos do norte da Inglaterra acabam de espatifar milhares de corações ao redor do mundo. Sim, os Beatles estavam no auge em 1964; após conquistarem a América, nada parecia impossível para os rapazes de Liverpool.200_s

É por isso que quando o diretor Richard Lester surgiu com a proposta de um filme para o grupo, eles nem titubearam; toparam logo. O filme, ao contrário do que se imaginava, não seria um documentário acompanhando a banda, e sim, uma versão bonitinha e até mesmo um pouco nonsense da realidade dos Fab Four.

E foi com o típico humor britânico, que consagraria o Monty Python anos mais tarde, que A hard day’s night (ou Os reis do iê-iê-iê, como resolveram chamar o filme no Brasil pré-Jovem Guarda) entrou para a história da cultura pop.

(E isso que os tais caras ainda nem tinha descoberto a maconha…)

Ringo, John, Paul e George enfrentam uma rotina interminável de apresentações e corre-corre. Os fãs surtados não dão sossego. Parece um dia típico na banda mais famosa do mundo, não? Pois é justamente disso que trata A hard day’s night: mostrar um dia lotado de compromissos na vida dos Beatles. De maneira fictícia, é claro (afinal a realidade não deveria ser tããão bonitinha, não?).

Acompanhados pelo empresário Norm (Norman Rossington), o assistente-roadie-faz-tudo Shake (John Junkin) e o troublemaker avô de Paul (He’s very clean!), simplesmente chamado de “Grandfather” (Wilfrid Brambell),  os Beatles se desdobram entre compromissos, correm sem parar, flertam com garotas aqui e ali, enfrentam um diretor com claros problemas psicológicos rodando a baiana (Victor Spinetti, que se tornaria amigo dos rapazes, e voltaria no filme seguinte), usam sarcasmo para responder às perguntas idiotas dos jornalistas (respostas, que aliás, foram tiradas de entrevistas reais dos rapazes!),e… cantam! Sim, eles cantam pra caramba, com ou sem motivo. E, como não poderia deixar de ser, a trilha é fantástica!

Um dos pontos altos do filme é quando John, Paul, George e Ringo conseguem dar uma escapada do estúdio onde aguardam a hora do show que apresentarão, e fogem para um campo e lá eles tem um doce momento de traquinagens como crianças ao som de Can’t buy me love. Além dela, temos outras maravilhas como a faixa-título (o hino de quem trabalha demais, assim como essa que voz fala), e que aparece na sequência de abertura, em que os Beatles fogem de fãs enlouquecidos (incluindo um muito jovem Phil Collins!). A minha favorita ainda é If I fell, com John cantando para um emburrado Ringo. Outro destaque é And I love her, que um apaixonado Paul McCartney compôs para Jane Asher, sua namorada na época, e que aparece no filme durante uma “gravação” dos Beatles para o especial de TV de que participam.

Uma das coisas mais interessantes sobre A hard day’s night é que em nenhum momento os Beatles soam forçados como acontecia em alguns filmes do Elvis. Tudo ali parece natural, desde a maneira como cada um se comporta até o modo em que eles se relacionam. Diz a lenda que Richard Lester passou alguns dias convivendo com os rapazes antes de botar a mão na massa. Embora fosse um filme com uma história fictícia, ele queria que chegasse o mais perto da realidade possível. Por isso temos uma versão da personalidade de cada um: John é sarcástico e vive fazendo piadinhas sujas, Paul é diplomático e galanteador, George é o legítimo come-quieto, enquanto que Ringo é o ingênuo, amigão de todos, e que, por isso mesmo, sofre bullying de todos os lados (até do avô abusado de Paul). Sobra até para o célebre nariz do baterista. Aliás, dos quatro Ringo é o que se sai melhor nas telas, e acaba se tornando quase o protagonista da história quando, provocado pelo avô, sai do estúdio para “viver a vida de verdade”, sem ligar para os compromissos profissionais, deixando os outros preocupados, e Norm e o diretor do especial surtados. A segunda parte do filme gira quase que apenas em torno do desaparecimento de Ringo. Talvez por isso, o simpático baterista tenha sido escolhido para ser o protagonista do filme seguinte da banda, Help! (1965). E isso não passou nem perto de causar ciúme entre os outros beatles, já que todos reconheceram o talento nato de Ringo para a coisa.

Outro ponto bacana no filme é que as piadas não são óbvias (longe disso), de vez em quando são até bobas, mas na maior parte são inteligentes. As gags ficam mesmo é por conta do avô malandro, que gera a discórdia entre todos, tenta lucrar com a imagem do neto famoso e quase coloca tudo a perder ao colocar Ringo contra os outros. O toque cômico também está nas cenas-solo dos Beatles, onde cada um mostra um pouco mais daquela versão da própria personalidade. O único que não teve essa cena na versão final foi Paul, já que a sua sequência, apesar de gravada, não agradou ao diretor, que não conseguia encaixa-la no filme. No final, a cena que incluía Paul paquerando uma garota em um teatro, ficou de fora de A hard day’s night.

tumblr_nyg8nw6nrF1qczzlio1_1280A hard day’s night também tem uma outra importância na vida de um dos Beatles. George Harrison conheceu sua futura esposa, a modelo Pattie Boyd, no set do filme. Pattie participa de algumas cenas na sequência do trem. Aliás, quando os rapazes a conheceram, todos tentaram paquerá-la, mas foi George, com o jeito come-quieto que mencionei antes, que chamou a atenção de Pattie. Logo os dois engatariam um namoro que viraria casamento em 1966.

Mas o que eu realmente aprecio nessa história toda é que até quem não morre de amor pelos Fab Four pode curtir o filme sem medo de ser feliz. O humor é do melhor tipo, a trilha sonora… Bem, é Beatles, cara! Sente, relaxe, aproveite, sorria… e cante! Afinal, nem adianta teimar:

eles eram tudo isso SIM!

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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