Stromboli (1950)

Stromboli (1950)

Acho que bem no fundo eu me apaixonei por Roberto desde o momento em que vi Roma, cidade aberta, pois não podia ignorar que ele estava sempre presente em meus pensamentos.

Ingrid Bergman

Falar de Stromboli sem mencionar o que aconteceu durante seus bastidores é mutilar parte de uma história que incendiou Hollywood e o mundo no começo dos anos 50. De um lado, uma atriz sueca querendo sair de Hollywood; de outro, um cineasta conhecido por seus temas duros e realistas e uma atriz italiana, sua musa. No meio deles, um período em que a Europa tentava se reerguer, depois dos horrores vividos na Segunda Guerra Mundial.

Stromboli é uma reunião de angústia, paixão, horror, claustrofobia, choro e beleza.

Após o fim da 2ª Guerra Mundial, o mundo vivia um momento difícil, principalmente os países da Europa que foram devastados pelo conflito. Não eram apenas as cidades que estavam destruídas; havia uma chaga muito maior no coração das pessoas que tinham visto seu país invadido, ocupado e devastado. Ao contrário de Hollywood, que buscava o otimismo e até mesmo certo escapismo, a Itália mergulhou profundamente naquele que havia sido o seu pior período até o momento. Dessa chaga profunda deixada pela guerra nascera o neorrealismo, movimento cinematográfico que se libertou das correntes do glamour excessivo dos filmes de até então. Aqui, temos atores sem experiência de atuação, planos de privadas e pessoas sem maquiagem. Que glamour o que mané, o negócio aqui é denunciar os estragos causados pela 2ª Guerra Mundial.

Uma atriz sueca de muito prestígio nos EUA assistiu aos filmes de Roberto Rossellini, um dos caras em matéria de fornecer tapas na cara da sociedade com seus filmes neorrealistas, e ficou simplesmente enlouquecida com o que viu:

O realismo e a simplicidade de Roma, cidade aberta deixavam o coração apertado. Ninguém parecia ator e ninguém falava como ator. Havia escuridão e sombras, e às vezes não se podia ouvir, outras sequer ver o filme. (…) Era como se estivéssemos , envolvidos no que acontecia, chorando e sangrando por eles.

O nome dela era Ingrid Bergman, e aí começava uma das histórias mais polêmicas de Hollywood e uma das parcerias mais bonitas do cinema.

Depois de se apaixonar pela bruta realidade mostrada por Rossellini, ela decidiu escrever-lhe uma carta. Nela, Ingrid elogia o trabalho do diretor e se oferece para trabalhar com ele. No entanto, a chegada dessa carta a Itália demorou. Isso porque a atriz não sabia para onde mandá-la. Ninguém nos EUA conhecia direito esse tal de Rossellini. Um dia, assinando o autógrafo de um fã na rua, a oportunidade surgiu. Ele disse que era italiano, e ela lhe perguntou se conhecia Roberto Rossellini. É claro, ele é um dos nossos grandes diretores! Ingrid, então, conseguiu o endereço do estúdio de cinema onde Rossellini trabalhava e enviou a carta. Por pouco a carta não chegou, pois o estúdio pegou fogo e uma das únicas coisas que sobrou foi a carta! E não é que Rossellini comprou a ideia?

Anna Magnani e Rossellini.

O primeiro encontro entre Ingrid e Roberto aconteceu em Paris, quando ela ainda estava casada com Petter Lindstrom. O marido da atriz queria que ela conseguisse um contrato milionário para rodar Stromboli na Itália. Ele acreditava que uma atriz do calibre dela não poderia se “vender tão barato”. Ingrid nem ligava para dinheiro; ela queria muito aquele filme.

Aos poucos, o tempo começava a fechar. De um lado do oceano, Anna Magnani atirava um prato de spaghetti na cabeça de Rossellini ao perceber que ele recebera um telegrama de Ingrid; de outro o casamento de Ingrid com Petter dava sinais de desgaste. Ela estava cansada daquele homem que controlava tudo o que ela comia e não conseguia se enturmar com seus amigos. O lado Ingrid living la vida loca clamava por algo diferente. E ela sabia, no fundo, que a pessoa que a tiraria daquele marasmo hollywoodiano seria Rossellini.

Stromboli sofreu vários reveses até finalmente entrar em produção. Primeiro, Sam Goldwyn iria produzi-lo, mas ao ver Alemanha, ano zero apavorou-se com a brutalidade da direção de Rossellini e desistiu. Não financiaria aquele filme que nada tinha a ver com os padrões hollywoodianos. Por fim, Ingrid conseguiu que a RKO financiasse, pois Howard Hughes estava topando qualquer negócio para trabalhar com a atriz. A essa altura, Hollywood já sentia o cheirinho de romance, como mostra esta carta de Ingrid:

Meu casamento está acabado – de agora em diante todos os meus filmes serão feitos por você – é o que se comenta. Eu o segui até Nova York, dizem – um novo drama de triângulo abateu-se sobre Hollywood. (…) Estou muito infeliz com isso e não quero complicar com telefonemas diários.

Apesar de Stromboli não ter recebido a devida atenção na época, é impossível não estabelecer conexões entre a trama do filme e o que acontecia na vida de Ingrid Bergman. Karen, sua personagem no filme, é uma imigrante lituana que se casa com um pescador, Antonio. Ela faz isso porque não conseguiu um visto para morar na Argentina, e o pescador é a única chance que ela tem de abandonar o campo de concentração onde vivia. Ao chegar a Stromboli, ilha onde Antonio vivia, a jornada de desespero da personagem começa. Isso porque a pessoa que é começa a entrar em conflito com os habitantes locais.

A própria Ingrid vivia o mesmo conflito de certa forma, pois a Itália e seu cinema eram completamente diferentes daquilo que ela estava acostumada. Em Hollywood, havia certo controle sobre a produção do filme. Os atores sabiam os diálogos, por exemplo. Com Rossellini, improvisação era o canal. Diálogos para quê?! Ele também chamava amadores para atuar em seus filmes. Mario Vitale (Antonio) era um pescador sem experiência alguma em atuação. Isso colabora – e muito – para o caráter realista do filme. Dá para entender a intenção de Rossellini, mas vai dizer isso a uma atriz acostumada a todo o sistema hollywoodiano?

Stromboli destoa um pouco dos outros filmes sobre a 2ª Guerra feitos por Rossellini. A brutalidade é quase suavizada, é como ela se chocasse o tempo inteiro com a paisagem estonteante da ilha. Logo, você pensa que não é tão brutal, mas na verdade é. Roberto consegue misturar um tema universal (a impossibilidade de adaptação das pessoas a um lugar) com algo bem específico, no caso, a falta de perspectivas após o fim da 2ª Guerra. Talvez por isso Stromboli tenha envelhecido tão bem; não é um filme que fala somente sobre guerra. O sentimento experimentado por Karin é algo pelo qual todas as pessoas já passaram.

Rossellini dirigindo Ingrid Bergman e Mario Vitale.

A ilha poderia representar os muros que construímos durante a vida. Como diria Norman Bates: “Às vezes, estamos presos em nossas próprias armadilhas”. E é isso, Karin está presa naquele casamento que supostamente deveria libertá-la. Naquela ilha que representa tudo que poderia ser e não foi. A personagem tenta escapar, mas é impedida pelo vulcão da ilha. As últimas cenas do filme, quando Karen cai sobre o vulcão e não consegue mais levantar, são de uma beleza ímpar. Ali, conseguimos vislumbrar a própria Ingrid Bergman cansada de receber tantas cartas desaforadas, em um país em que ninguém falava sua língua – pela segunda vez. A capacidade dessa mulher de adaptação é incrível.

Stromboli foi o começo de uma parceria incrível entre Ingrid Bergman e Roberto Rossellini. Juntos, eles fariam mais três filmes: Europa 51, Viagem a Itália e O medo. No fim das contas, o desprezo de Hollywood serviu para que a atriz ficasse na Itália e realizasse alguns de seus maiores trabalhos. Sorte a nossa.

Revisão do texto: Pâmela Lima.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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