Eu sou Ingrid Bergman (2015)

Eu sou Ingrid Bergman (2015)

Poucas coisas na vida me emocionam tanto quanto assistir a um filme no cinema. Quando a luz apaga, é como se todos os meus problemas ficassem lá fora e eu tivesse um encontro, um encontro só meu, com alguém de que gosto muito. Dessa vez, voltei de um encontro com uma das primeiras pessoas que me apresentou ao cinema clássico: Ingrid Bergman.

Como muitas pessoas nesse mundão sem porteira, Casablanca foi um dos primeiros clássicos aos quais assisti. E, depois de chorar baldes com o amor entre Ilsa e Rick, a palavra “cinema” tomou outro significado para mim. As imagens eram um deleite para mim, fascinavam-me. Às vezes, se um filme estava ruim, eu gostava de prestar atenção aos movimentos, às imagens, aos cenários. É como se eles reproduzissem uma época especial, um tempo que ficou cristalizado ali. Eu sou Ingrid Bergman cristaliza a vida da atriz através de filmagens caseiras e fotografias nunca vistas antes.

O resultado é um documentário belíssimo e por vezes melancólico, que nos deixa com o choro engasgado.

Tudo começou (há um tempo atrás, na ilha do sooool) quando Isabella Rossellini encontrou, por acaso, o diretor Stig Bjorkman e a atriz Harriet Andersson no Festival de Cinema de Berlim. Os três saíram para jantar, e lá pelas tantas Isabella perguntou:

Você gostaria de fazer um filme sobre a minha mãe?

Eu sou Ingrid Bergman nasceu assim. Esse projeto não teria sido possível sem a ajuda dos quatro filhos da atriz, Isabella, Ingrid, Roberto e Pia. O documentário é baseado nos depoimentos deles, em filmagens caseiras da própria Ingrid/filmadas por ela própria e nos seus diários. Durante todo o documentário, as únicas pessoas entrevistadas fora do circuito familiar da atriz são Liv Ullmann, que trabalhou com a atriz em Sonata de Outono, e Signourney Weaver cujo primeiro trabalho no teatro foi ao lado de Ingrid .

O mais fascinante desse documentário é a capacidade que ele tem de apresentar a uma nova Ingrid Bergman. As filmagens caseiras e diários foram uma escolha muito acertada, estratégias que ajudam a desenhar uma nova Ingrid aos nossos olhos. Essa Ingrid se mostra uma pessoa que simplesmente amava fotografar e filmar tudo, reflexo de uma infância sofrida. A atriz perdeu toda a família quando criança, e a relação disso com sua paixão por filmagem e fotografia é bastante clara: era uma forma de criar laços afetivos, de afirmar sua identidade. Além disso, seu pai adorava fotografia, o que a influenciou bastante a gostar também. São esses pequenos detalhes que fazem de Ingrid alguém com quem você pode se identificar.

Ingrid e Rossellini com os filhos.

Eu, que acho fotografias e filmagens caseiras emocionantes pelos mesmos motivos elencados acima, em muitos momentos senti vontade de chorar. As imagens conseguem captar os sentimentos da atriz; quando ela sorri, é difícil não abrir um sorriso também. Como sua filha, Isabella Rossellini, diz: “Acho que a maior qualidade de mamãe era o seu charme”. Foi exatamente como o funcionário do cinema que me vendeu o ingresso relatou: uma experiência melancólica. Por outro lado, essa experiência nos leva ao melhor de Ingrid Bergman: a sua semelhança com a pessoa que está sentada assistindo ao documentário.

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Ingrid Bergman em “Stromboli”.

Ingrid Bergman viveu sua vida de maneira intensa. Falava francês, alemão, sueco, italiano e inglês. Começou a carreira na Suécia, na mesma escola que Greta Garbo estudara. Mas, como ela mesma diz, isso não era suficiente. Queria conhecer o mundo. A atriz era, sobretudo, uma mulher que escolheu o destino que queria ter. Tanto no cinema quanto na vida, ela ousou, fracassou, voltou. Gostei muito da maneira como Bjorkman tratou os altos e baixos da vida de Ingrid, sem aquele sensacionalismo barato de Programa do Ratinho. O caso com Roberto Rossellini é abordado de uma forma muito bonita, com trechos de filmagens caseiras do casal na Itália e depoimentos da prima e dos filhos de Ingrid. Esses momentos da vida da atriz são tratados como algo normal, e não poderia ser diferente. Atire a primeira pedra quem nunca se apaixonou por uma pessoa enquanto estava comprometida com outra. Às vezes, me parece que se fala mais sobre o caso entre Rossellini e ela do que sobre os grandes filmes que fizeram juntos.

O que chamou muito minha atenção também foi a questão da maternidade em Eu sou Ingrid. Quando Ingrid começou a se relacionar com Rossellini, ela “abandonou” a filha Pia para ir morar com ele na Itália. É claro que uma atitude dessas só poderia dar zica, isso porque Hollywood caiu em cima dela e ela, praticamente, foi banida de lá. Durante muitos anos, Bergman sequer queria pisar nos EUA por conta da repercussão de seu affair. Depois, ao separar-se de Rossellini, ela conheceu outro homem e foi morar na França. Ingrid conta em uma entrevista que nunca teve raízes e que não gostava de cultivá-las. Esse espírito aventureiro não casa com a maternidade. A atriz recebeu inúmeras críticas por deixar os filhos para trás e ir viver essas experiências. Ninguém conseguia ver Ingrid como uma boa mãe, afinal, uma boa mãe é aquela que jamais abandona o ninho, que abre mão de viver sua vida pelos filhos.  A sociedade tem dificuldade em aceitar a experiência multifacetada que é a maternidade. Acredito que Ingrid viveu a maternidade de uma maneira muito peculiar. A impressão que temos é de que sua relação com os filhos era muito boa, ainda que eles não se vissem frequentemente. Quando Isabella teve escoliose, ela parou a carreira durante dois anos para cuidar dela. Onde está o seu Deus agora? É interessante perceber que a ausência de Ingrid possibilitou que no seus quatro filhos aflorasse um senso de independência mais cedo do que em outras crianças. Mais interessante é ver que os filhos não guardam mágoas pelo fato da mãe ter ido viver suas experiências e os deixado. Acho que, quando você cresce e amadurece, entende que sua mãe é uma pessoa como qualquer outra. E ela deve ser livre para viver a vida.

Da esquerda para direita: Signourney Weaver, Isabelle Rossellini e Liv Ullmann.

Eu sou Ingrid Bergman emociona sem cair na pieguice. Talvez ele tenha me impactado tanto pelo fato de que é a vida real que está sendo mostrada ali. Nós nunca estamos preparados para ela. Quando o documentário foi se aproximando do fim, já sentia calafrios. Porque, well, eu sabia que a morte da atriz era algo inevitável de ser abordado ali. Uma das imagens que mais me marcaram desse documentário foi um close no rosto envelhecido da atriz, a cena final de Sonata de Outono. Ali, percebi como nossos ídolos, no fim das contas, são pessoas e a morte, infelizmente, é o destino inevitável delas. Porém, tento ser otimista: um ator é eternizado pelas imagens. Ingrid Bergman deixou uma obra magnífica, e o documentário sobre ela não poderia ter sido lançado em hora melhor, no ano de seu centenário. Duvido que qualquer pessoa que não a conheça saia do cinema sem vontade de assistir a alguns de seus filmes.

 Revisão do texto: Pâmela Lima

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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