Star Wars: a saga tinha tudo para dar ruim e não deu

Star Wars: a saga tinha tudo para dar ruim e não deu

Pode-se fazer esse filme para adolescentes mais velhos, vinte e poucos anos, ou fazê-lo para a garotada, e é isso que eu quero, crianças de 8, 9 anos. Esse é um filme Disney.

George Lucas

Na semana passada, o sétimo episódio de Star Wars estreou e, ao contrário da Camila, ainda não fui assistir. Estou assistindo a todos os filmes da saga para entrar no cinema com dignidade. Você não leu errado. Nunca tinha visto  Star Wars e essa era uma das minhas maiores vergonhas cinéfilas. É com lágrimas nos olhos que inflo os pulmões para dizer: POR QUE DIABOS ESPEREI TANTO TEMPO PARA VER? Isso nos leva à frase de George Lucas que abre este post: se ele acreditava que se tratava de um filme para crianças, por que eu, no auge dos meus 24 anos, me sinto como uma criança histérica de nove?

A resposta chega a ser ridícula: porque é bom demais! Trata-se de um universo tão mágico, tão bem construído que qualquer pessoa pode apreciar, crianças ou adultos. Não era o que George Lucas, na época em que estava escrevendo o roteiro do primeiro filme, pensava. Ele achava que ia dar ruim e tinha todos os motivos do mundo para acreditar nisso. Tudo que vemos na tela em Star Wars foi fruto de muito suor, incerteza e negociações.

O motivo que, inicialmente, me levou a querer assistir Star Wars foi uma frase dita pela Camila quando conversávamos sobre o assunto:

SW foi a pá de cal na Old Hollywood.

Essa é uma das frases chave para entender um dos motivos pelos quais a saga de George Lucas gerou tanta discórdia em Hollywood. Star Wars terminou o serviço começado pelos caras da chamada Nova Hollywood. Essa turma do barulho  sessão da tarde feelings era formada por nomes como Francis Ford Coppola e Martin Scorsese. A intenção deles? Quebrar com todos os paradigmas do cinema. Como eles fizeram isso? Fazendo filmes que escapavam às normas convencionais. Eles se assemelhavam bastante aos que estavam sendo feitos na Europa naquele momento: tramas mais experimentais e de cunho político. Os diretores da Nova Hollywood recusavam-se a chamar atores que não parecessem pessoas normais para trabalhar. As estrelas pertenciam a Old Hollywood, aqui a gente quer povão. Ironicamente, foi essa turma da pesada que salvou Hollywood da falência nos anos 70.

Essa foto seria tão 2015 se não fosse tão 1977.

No entanto, o clima não era dos melhores entre essa turma. As tretas decorriam do clima de rivalidade que pairava no ar. Pense numa batalha de egos, os mais engajados do movimento versus os não tão engajados. Adivinhe de qual turma George Lucas fazia parte. Tanto ele quanto Steven Spielberg eram filhos da televisão e isso os diferenciou radicalmente dos outros diretores da época. Eles acreditavam que se contava uma história com imagens; não com blá blá blá shakespeariano. Por isso, não eram muito bem vistos entre os colegas. Sente só como este trecho do livro Como a geração sexo, drogas e rock and roll salvou Hollywood resume bem o drama de Lucas:

Como Spielberg, Lucas queria ser levado a sério como artista, receber o tipo de atenção que os críticos derramavam sobre Coppola e Scorsese.

Antes de Star Wars, George Lucas dirigiu Loucuras de Verão, um sucesso que rendeu 55,1 milhões de dólares. Foi um recorde para a época. Porém, nada de tapete vermelho e menções honrosas. Um mês depois da exibição desse filme, ele começou a escrever o tratamento de SW, inspirado na obra de Carlos Casteneda. O Don Juan do escritor virou Obi-Wan Kenobi; a “força vital” a Força. No ano seguinte, em 1973, Lucas só tinha um emaranhado de confusões que não agradou muito seu agente, Jeff Berg. Mesmo assim, ele tentou vender o filme para a Universal, o que não deu muito certo. Star Wars acabou sendo comprado pela Fox, depois que seu diretor executivo Alan Ladd Jr. roubou uma cópia de Loucuras de Verão e a assistiu. Eles combinaram que a empresa de Lucas, a Star Wars Corporation, ficaria com 40% do lucro líquido. O diretor recebeu a soma estratosférica de 15 mil dólares para desenvolver o roteiro, 50 mil para escrevê-lo e mais 100 mil para dirigi-lo. George Lucas estava começando a cumprir a promessa que havia feito ao pai, com quem não tinha uma convivência saudável: “Serei rico antes dos 30 anos”.

Mestre Yoda e George Lucas.

Star Wars sempre foi visto pelo diretor como um filme infantil. Segundo o livro Como a geração sexo, drogas e rock and roll salvou Hollywood, tratava-se de uma tentativa de dar às crianças um mundo de fantasia. Para Lucas, elas não tinham os filmes de faroeste e os filmes com Errol Flynn como sua geração teve. Além disso, o diretor sempre sonhou em realizar um filme de ficção científica, era um grande fã de 2001: uma Odisseia no Espaço.

O primeiro filme da saga levou dois anos para ser escrito. A loucura de Lucas chegou a um nível tão absurdo que ele cortava chumaços do próprio cabelo com uma tesoura e jogava no lixo. As personagens da trama sofreram diversas modificações. Por exemplo, Obi-Wan e Darth Vader eram a mesma personagem e depois tornaram-se duas. Annikin Starkiller virou Luke Skywalker. Acontecimentos da época também inspiraram o diretor. O Imperador foi baseado em Richard Nixon, o único presidente a renunciar na história dos EUA. Se você para para pensar, é realmente incrível a semelhança entre os dois. Ambos acreditavam que podiam fazer tudo que queriam, Nixon inclusive declarou na entrevista que o enterrou de vez que espionar os outros não era crime porque ele era o presidente dos EUA. Já Han Solo foi inspirado em Coppola! Lucas e o diretor de O Poderoso Chefão eram pra lá de miguxos. Han era “uma versão autoelogiosa do relacionamento entre os dois”.

Como estamos falando de uma novela com toques mexicanos, é claro que o drama não parou por aí. Quando as filmagens de Uma nova esperança começaram, o diretor teve problemas com o elenco. Ele costumava dar instruções vagas de atuação, e os colegas o achavam frio e distante. Carrie Fisher conta em sua autobiografia Wishful Drinking que o relacionamento entre eles era de amor e ódio. O famoso penteado da Princesa Leia no primeiro filme era algo que Carrie odiara desde o primeiro minuto, mas com medo de ser despedida a atriz disse ao diretor que adorou.

O trio parada dura de SW: Luke Skywalker, Princesa Leia e Han Solo.

George vivia perturbado no set, enfrentando a cara feia de todos. A descrença nele era tamanha que Chewie era chamado de “o cachorro”. Traz o cachorro, ilumina o cachorro. Isso e outras coisas irritaram tanto o diretor que ele nunca mais dirigiu. Foi apenas na segunda trilogia de SW, em 1999, que Lucas voltou à direção.

Contra tudo e todos, Star Wars Episódio IV: uma Nova Esperança foi um dos maiores fenômenos dos anos 70. A Universal deve ter se arrependido amargamente de ter recusado o filme. É claro que todo sucesso tem seu ônus e com SW não poderia ser diferente. Alguns diretores da Nova Hollywood acreditam que esse filme foi a maior desgraça do cinema. Nas palavras de William Friedkin, diretor de O exorcista:

O que aconteceu com Star Wars foi o mesmo que quando o McDonald’s se estabeleceu e o gosto por boa comida desapareceu. Agora estamos num período de involução. Tudo está sendo sugado para um grande redemoinho.

A crença era de que SW esvaziou a vontade das pessoas de ver filmes sérios. Elas não estavam mais interessadas em contracultura ou política. Queriam ir ao cinema com a família e se divertir. Para mim, essa visão é um pouco equivocada, embora consiga entendê-la. Demorei muito tempo para ver Star Wars justamente por acreditar que um filme de ficção científica não passava de tiros no espaço, naves e efeitos especiais bacanas. Mas, ah, como eu estava enganada. SW não se resume a belos efeitos especiais; existe uma trama bem construída, personagens cativantes e muitos, muitos pontos de análise. Uma nova esperança fala sobre a luta entre o nosso lado bom e ruim, política e rebeliões. Turma de Nova Hollywood, admiro vocês pra caramba mas não vamos dizer que o trabalho do coleguinha não vale nada.

Não adianta chorar ou reclamar, por mais que você odeie a saga Star Wars não há como negar que ela mudou o cinema. E mudou para melhor.

Obrigada, George Lucas!

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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