Complicated women (2003)

Complicated women (2003)

Há um consenso de que o cinema clássico é o lugar do recato e do amor ingênuo. Sexo? Suicídio? Homossexualidade? Isso non ecziste! Os filmes clássicos são melhores, pois não mostram violência, mulheres que abortam ou saíam da norma.

Será mesmo? Não, essa é a ideia que eles querem que você tenha.

Houve um tempo em Hollywood em que as mulheres dominaram as bilheterias e fizeram filmes que falavam sobre a mulher moderna que nascia nos anos 20. Assuntos polêmicos, como aborto e infidelidade, estavam na agenda e eram tratados de uma forma que ia contra toda ideia que temos sobre filmes antigos. Esse período de zueira, quer dizer, de liberação em Hollywood, é o que chamamos de era pre-code.

Complicated Women, documentário narrado por Jane Fonda e baseado na obra de Mick La Salle, mostra que o cinema clássico pode ser sim muito ousado!

Nos anos 20, o cinema estava a todo vapor. O surgimento dos estúdios de cinema em um território abandonado da Califórnia possibilitou a emersão de Hollywood. Agora tínhamos um negócio propriamente dito, em que filmes e estrelas tornaram-se barganha e bens valiosos. O star system, ou seja, a ode às estrelas e ao modo de vida glamouroso delas ia de encontro ao momento que os EUA viviam: um período próspero para a economia. Nada melhor do que dar o recadinho sutil do american way of life nos filmes, certo?

Em 1929, a chegada do som trouxe uma reviravolta inesperada ao cinema. Hoje nos parece difícil  imaginar os filmes mudos; nos anos 20 era impossível imaginá-los falados. Por que falar? Os filmes não terão mais graça! Quem quer ouvir a voz desses atores? Esses eram alguns dos pensamentos da época sobre o som. O tempo provou que as pessoas queriam sim filmes falados. Para alguns atores, foi a treva. Alguns não tinham uma voz desejável para as telas e suas carreiras foram arruinadas. Outros, como Greta Garbo, usaram o som ao seu favor. A atriz deixou o mundo seduzido com seu forte sotaque sueco.

Greta Garbo tocando fogo no cabaré em “Rainha Cristina”.

Os conceitos sobre o que era “ser mulher” também estavam mudando. Elas agora usavam cabelos curtos, calças (!!!) e vestidos largos, bem diferentes dos espartilhos que quase as matavam nos séculos passados. Além disso, a entrada delas na força de trabalho acelerou o processo de mudança na sociedade. Entrada essa, vale ressaltar, que se deu por conta dos interesses capitalistas, já que a força de trabalho de uma mulher custava menos que a de um homem. Embora se vestissem de forma mais livre e algumas até trabalhassem, as mulheres ainda sofriam regulação social. Elas tinham liberdade até certo ponto. Contanto que não o ultrapassassem estava tudo bem. Se o fizessem, seria um caminho sem volta. O que era esperado das mulheres? Casamento, maternidade, fidelidade ao marido. Vocês imaginem a ira da galere conservadora ao constatar que os filmes pre-codes reuniam tudo que havia de “pior” na sociedade em suas tramas! Eles enlouqueceram, bateram o pé durante anos e conseguiram implementar um código pra lá de conservador, em 1934, que proibia qualquer coisa que saísse da norma.

Antes da implementação do Código Hayes, o cinema pirou bastante o cabeção dos conservas. Tivemos filmes sobre mães solteiras, mulheres que decidiam “jogar conforme as regras do mundo patriarcal” e que viviam relacionamentos abertos com dois homens ao mesmo tempo. Eram mulheres que existiam e que a sociedade fazia questão de apagar ou esconder. Pois, meu bem, quando mulheres desviantes da norma são interpretadas por nomes como Barbara Stanwyck, Norma Shearer e Greta Garbo não há mais como negar a existência delas!

Os fãs da era pre-code podem sentir falta de outros filmes, mas vale ressaltar que Complicated Women não teria como abarcar todos os filmes dessa época por questões de espaço. Por isso, o documentário centra-se naqueles filmes que você precisa ir correndo assistir.

As mulheres dos pre-codes foram insubmissas dentro da submissão. Já imaginou uma mulher dizendo ao marido, em um filme dos anos 30, que o traiu na lata? E com o melhor amigo dele?  Pois é o que acontece em A divorciada (The Divorcee). Jerry (Norma Shearer) é traída pelo marido e decide “fazer o jogo” dele para se vingar.  Ela o trai, eles se separam e assim começa uma sucessão de aventuras amorosas da personagem com outros homens. É muito interessante ver como a trama trata da inversão de papéis. Mulheres traindo, relacionando-se com outros homens deixa a sociedade desconfortável. Incomoda ver na tela do cinema a instituição do casamento destruída. Tanto incomodou que no final temos Jerry redimida, arrependida daquela vida “promíscua”. Quedizê, no fim das contas a mulher acaba sempre voltando para o papel que esperam dela. Mas, ainda sim, acredito que A divorciada merece todo crédito por colocar a mulher – ainda que na primeira hora de filme – como dona de seu corpo e sua vida. Aliás, Norma Shearer, teve que provar que poderia interpretar Jerry. Ninguém acreditava no potencial da atriz, acostumada a interpretar mocinhas ingênuas na tela. E para desespero da geral, Shearer ainda era casada com o todo-poderoso do estúdio para o qual trabalhava, Irving Thalberg. Imaginem esse homem deixando a esposa interpretar alguém como Jerry.  Ela teve que fazer um ensaio sensual (Norma, manda nudes!) com o fotógrafo George Hurrell para provar que poderia pegar o papel.

“A divorciada”, 1930.

Também encontramos insubmissão na submissão em Serpentes de Luxo (Baby Face). Nele, Lily Powers (Barbara Stanwyck) usa o corpo como arma para subir na vida. Desde o começo do filme, ela está cercada por homens que só a exploram e a objetificam. Em uma das cenas mais célebres do filme, a personagem diz ao pai que foi ele quem a ensinou a “ser uma vagabunda”, pois ele a obrigava a se prostituir. Lily tem consciência de que o mundo não é para as mulheres e carrega um ódio muito grande dos homens. Uma das minhas cenas favoritas é quando ela derrama uma xícara de café fervendo na perna de um homem que tentava a seduzir. Antes de Lisbeth de Os homens não amavam as mulheres, tivemos Lily Powers. Todo ódio da personagem transforma-se em vontade de vencer na vida, ser rica, e ela sabe que isso só vai acontecer se ela se casar com um homem rico. Por isso, Powers começa a trabalhar em um banco, utilizando seu corpo, seduzindo os funcionários para subir de posição. De certa forma, ela subverte a norma. É como se ela utilizasse tudo aquilo que a oprime para conseguir o que quer. Um filme que valeria uma análise muito mais minuciosa, confesso!

“Serpentes de Luxo” (Baby Face), 1933.

Mas a quem serve toda essa liberação sexual? A quem serve ver Claudette Colbert em uma banheira cheia de leite, completamente nua, em O sinal da cruz? E Greta Garbo beijando uma mulher em Rainha Cristina? E Jane nadando nua ao lado de Tarzan? Essa é uma pergunta que nunca tinha me feito até começar a pensar na escrita desse post.

A resposta que encontrei não foi a das melhores.

Ela servia aos estúdios, para encher os bolsos dos Louis B.Mayers da vida. Em suma: era uma liberação sexual permitida pelos homens porque eles se beneficiavam disso. Era bom ver mulheres semi nuas, beijando outras mulheres. Porém, na hora que elas queriam viver isso em suas vidas, a sociedade as barrava. E a maior prova disso é a criação do Código Hayes. Quando a liberação das mulheres chegou a um ponto inaceitável, a solução foi criar normas para impedir que as mulheres, inspiradas no que vissem nas telas, resolvessem copiar as atitudes de suas personagens favoritas. O cinema é uma ferramenta muito poderosa de regulação do comportamento social. Se as mulheres vissem Miriam Hopkins tendo um relacionamento aberto com dois homens ao mesmo tempo em Design for living, por que não poderiam fazer o mesmo? Portanto, os católicos colocaram ordem nesse galinheiro chamado cinema.

Complicated Women é um presente para os cinéfilos que desejam descobrir a era pre-code ou os que desejam conhecer um período de “revolução” dentro da submissão. Os pre-codes contém diversas problemáticas, mas tentei me centrar naquilo que achei mais importante e que deixaria vocês mais curiosos para ir correndo assistir aos filmes.

Você pode assistir ao documentário completo aqui.

 Revisão do texto: Ana Rolim

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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