Viva Maria! (1965)

Viva Maria! (1965)

Achei Jeanne simples, mas sofisticada, calorosa mas dura, sedutora mas temível, enfim, eu a achei tal qual a imaginava, com seu extraordinário poder de sedução que mal dissimulava seu caráter de aço temperado. Eu não a achava bonita, mas pior, perigosa. Ensaiamos nossas canções abraçadas pelas cinturas como duas crianças. Minha voz se esganiçava, a dela desabrochava. Ela me sorria gentilmente. Compreendi por que os homens eram loucos por ela.  – B.B. sobre Jeanne Moreau.

Talento, beleza e ousadia: acho que são as três palavras que mais definem Jeanne Moreau e Brigitte Bardot. Ambas frutos da década de 50 do cinema francês compartilharam mesmo sem saber, gosto, sonhos e até homens. Um dos grandes eventos da década de 60 não poderia ser nada mais, nada menos do que um filme entre essas duas divas eternas, “Viva Maria!” de Louis Malle. Gravado no México durante quatro meses, “Viva Maria!” foi uma super produção que contou com mais de 150 técnicos. Malle chamou o produtor de Buñuel para as filmagens – Óscar Dancigers – além de utilizar a casa do diretor no México, para hospedar algumas pessoas.

Malle havia acabado de dirigir o filme Trinta anos esta noite (1963), um filme que fala sobre pensamentos suicidas. Querendo fugir desse clima “pesado” foi que ele teve a ideia de fazer um filme de uma “comédia tropical envolvendo duas lindas damas”. Foi então que escreveu para Jean-Claude Carrière, que respondeu que o encontraria em um hotel do México para começar a pensar sobre o filme.  Malle conhecia Jeanne há  anos; aliás, como muitos sabem, foi ele o responsável por dirigir dois filmes que a fizeram conhecida mundialmente: Ascensor para o cadafalso (1957) e Os amantes (1958) – ambos filmes extremamente polêmicos para a época. Também tiveram um relacionamento durante as filmagens, então eram amigos de longa data, assim como todos os ex da Jeanne, com quem ela fazia questão de manter amizade após o relacionamento. Já com Brigitte, Malle fez um filme em 1962, Vida privada. Tendo trabalhado com a duas e conhecendo muito bem seus talentos, Malle decidiu reuni-las – e acho que foi uma das melhores coisas que ele poderia ter feito. Antes disso ele cogitou Shirley MacLaine para o papel que foi dado a Bardot, mas Jeanne desejava trabalhar com ela.

Quem escolheu Brigitte Bardot fui eu! A ideia inicial era juntar uma francesa e uma americana. Shirley MacLaine deveria ser minha parceira. Preferi Brigitte Bardot porque a acho maravilhosa e por sermos muito diferentes. Estávamos, sobretudo, felizes de romper com nossa imagem e fazer o papel de aventureira, geralmente reservado aos homens!

Os três em uma coletiva de imprensa.

Para B.B., Jeanne era a melhor atriz; para Jeanne, B.B. era o mito. Jeanne conheceu seu ar extraordinário; B.B., o profissionalismo de Jeanne. Tudo começou após Bardot ensaiar incessantemente as músicas que iria cantar com Jeanne no filme. Chegou em fim o dia de conhecê-la. Foi na Rue du Cirque, onde Jeanne morava com sua empresária Micheline Rozin – grande rival de Mama Olga (agente de Bardot). Segundo Bardot, em sua autobio: foi uma troca educada de lugares comuns, de promessas de amizade tranquilizadoras, mas efêmeras, o tradicional contato entre dois monstros absolutamente rivais mas muito educados.

Gravação das canções.

Em janeiro de 1965 deu início a produção do filme. Segundo B.B., ela, Jeanne e Malle ocupavam casas fabulosas, sendo que, dentro de casa, cada um tinha sua vida. Na casa de Malle, cada homem estava armado, ocupado atirando em alguma coisa dependendo do acontecimento a festejar à moda mexicana. Na casa de Jeanne, bebia-se champanha, comiam-se trufas brancas servidas em bandejas de prata lavrada, trazidas de Paris em suas bagagens e servidas por sua camareira. Pierre Cardim – ex namorado de Jeanne e design das roupas usadas no filme – enviava-lhe regularmente os mais lindos vestidos da sua coleção. Já na casa de Brigitte, o que se fazia presente eram os amigos, violão, baralho, brincadeiras, pareôs como única roupa, as risadas, a dança até tarde ao som dos Mariachis.

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Como toda grande produção e, principalmente, por se tratar da união de grandes atrizes, a imprensa da época estava em peso nos bastidores, e desde o primeiro dia a imprensa sempre esteve em cima. Parecia esperar uma luta ao ar livre entre Jeanne e B.B.. Em seu livro, ela descreve esse evento assim:

Era o golpe de estreia, o primeiro passo de uma longa marcha cheia de ciladas, de duras lutas em que se iriam engalfinhar, dando a impressão de não se envolver, duas tigresas ronronando, duas campeãs, ao mesmo tempo líderes e rivais de uma vitória sem final esperada no mundo inteiro. A imprensa metralhava uma Jeanne provocante e lânguida ou um a Brigitte maliciosa e sexy.

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O ringue de boxe que se formou no set de “Viva Maria!” é algo impressionante. Eu, que antes de escrever esse texto só havia visto as fotos desse encontro, não imaginava o quanto foi “disputada” a atenção da mídia para falar mais ou menos de uma estrela ou outra. Sério, pelas fotos elas são perfeitas companheiras de filmagem, senão grandes amigas de longa data, porém não! Ambas estavam rodeadas por equipes: maquiadores, cabeleireiros, agentes, camareiras, amigos e fãs, que defendiam com unhas e dentes sua estrela. B.B. conta que, quando elas rodavam uma cena juntas, seus respectivos maquiadores eram como treinadores de boxe que cochichavam enquanto  analisavam cada defeito em suas performances para depois sugerirem correção. No meio dessa disputa, Mama Olga chega de Paris e notifica que Jeanne está tendo mais sucesso do que B.B., principalmente por causa da cena de amor que ela teve com George Hamilton – que teve um caso com a Jeanne durante as filmagens. Foi o fim pra BB e o estopim para aumentar sua revolta. Dois anos depois, quem ganhou o BFTA de melhor atriz estrangeira foi a Jeanne. B.B. deve ter ficado apenas muito puta.

Jeanne e George Hamilton em uma cena do filme.

Luta de ego ao lado, o calor, a altitude da cidade, a escassez de água e alimentos, foi um grande problema para a produção quando foram para a cidade de Tecolutla. Não havia hotel, então tiveram que ficar em motéis baratos com condições péssimas de permanência, com o calor e a falta de água. Tiveram que tomar banhos rápidos e escovar os dentes com Coca-Cola, e evitar beber água. Com o calor, Jeanne teve uma queda de pressão e ficou de cama por vários dias. Malle usava gelo por baixo do chapéu, e Brigitte ficou com toda a sua perna e coxas queimadas. Foi uma super produção desgastante, porém muito recompensadora, e olha que nem comentamos sobre o enredo do filme….

Revisão do texto: Pâmela Lima

 

Escrito por Patrícia

Futura graduada em administração de empresas, mas que malemá administra duas páginas no Facebook.Viciada em velhas como Jeanne Moreau, Bette Davis, Meryl Streep e tantas outras que cansaria para listar. Amante de tudo que envolva o cinema e que sonha em fazer disso não só um hobby, mas uma profissão.

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