Ronnie Von – Quando éramos príncipes (2013)

Ronnie Von – Quando éramos príncipes (2013)

Eu acho o Ronnie Von tão importante quanto o Roberto Carlos.

Rita Lee

Um homem simpático, de terno bem cortado e lindos olhos verdes. Esse é Ronnie Von que marca presença nas noites da TV Gazeta todos os dias. Sua avó ou mãe provavelmente são loucas por ele. Porém, muito antes do programa na TV Gazeta, existia um Ronnie Von que ninguém poderia imaginar. Um Ronnie Von sem camisa na capa de um melhores discos brasileiros de rock psicodélico. O cara que desafiou sua gravadora para gravar canções experimentais, com espelhos quebrando e trechos de propagandas. O cara que arruinou sua carreira em prol do que acreditava.

Agora estamos falando do Ronnie Von que conheci! E é essa fase desconhecida o tema do documentário Ronnie Von – Quando éramos príncipes.

Antes de me interessar por cinema, a música era a paixão que ocupava meu tempo na adolescência. Como relatei no texto O bebê de Rosemary, ao vir morar com minha avó fui apresentada ao Raul Seixas. Mas não só a ele; também fui apresentada a outros artistas, pois a coleção de vinis dela é de dar inveja a qualquer um. Clara Nunes, Simon & Garfunkel… Minha família praticamente formou meu caráter musical.

Minha tia tinha uma coleção invejável de CDs e um dia, sem querer, levei um deles para casa. Aquele CD, Jovem Guarda – O novo de novo, foi um divisor de águas da minha adolescência. A partir dali comecei uma viagem pelas músicas da Jovem Guarda e fiquei muito fã de uma cantora em especial, a Silvinha. E assim como o cinema, uma coisa vai nos levando a outra. O desejo de conhecer mais a carreira dos meus cantores favoritos – com a ajuda preciosa de um amigo – me levou ao rock psicodélico brasileiro.

Os Mutantes são quase sempre o grupo mais lembrado quando se trata de psicodelia brasileira. Não é para menos, os caras eram realmente bons no som que faziam. No entanto, a lembrança excessiva deles ensombra os grupos de garagem e os artistas que igualmente fizeram um som psicodélico de alta qualidade. Outro fator é o preconceito que ronda a música brasileira. É porcaria, é ruim e tudo que é melhor vem de fora. Quem nunca disse essas frases que atire a primeira pedra. Portanto, no caso do rock psicodélico, só pode ser uma cópia malfeita do que estava sendo feito nos EUA e na Inglaterra. Só que não.

Os Mutantes.

O rock brasileiro psicodélico tomou ritmos como o baião, adicionou guitarras elétricas e voilà, criou algo único. Mais único ainda talvez seja o fato de que as pessoas que gravaram esses álbuns estejam presas aos estereótipos/imagens negativas que criaram para elas. Tomemos Vanusa, por exemplo. Até hoje lembrada pelo episódio miserável do hino nacional, ela foi uma das pioneiras nos discos experimentais dos anos 60. Quem poderia imaginar? Pois é, a cantora gravou três álbuns psicodélicos antes de enveredar para MPB. São pérolas, cheias de efeitos de voz e guitarras. Atômico Platônico, minha canção favorita dela, é uma pequena pérola perdida no mar da música brasileira. O mesmo aconteceu com Ronnie Von. O estereótipo do bom moço, do cara dos cabelos compridos que virava a cabeça cantando ahhh, meeeeeeu bem tornou impossível o reconhecimento de uma das melhores fases de sua carreira: a psicodélica.

Capa do primeiro disco psicodélico de Ronnie Von.

Ronnie Von – Quando éramos príncipes resgata esse período desconhecido da carreira do Pequeno Príncipe e só por isso merece meus aplausos em pé. No final dos anos 60, cansado daquela palhaçada de ahhhh, meu bem, Von entrou em estúdio para gravar um dos álbuns mais icônicos de rock psicodélico. Para vocês terem uma noção da importância do disco, o vinil original vale mais de 100 reais! Meu sonho é adquiri-lo quando for ryca!

Ronnie Von caiu de quatro (literalmente, como ele explica no documentário) na música e, pelo fato de seu pai sempre viajar, tinha acesso aos lançamentos musicais meses antes de chegarem ao Brasil. Quando os Beatles estouraram na Inglaterra, ele já estava a par e amava o quarteto. Caiu de quatro em um palco, cantou e um produtor musical pensou: vamos apostar nesse cara. A família de Ronnie, tradicional até a raiz dos cabelos, quase o deserdou. Cantor, o quê? Cantor de cabelo comprido cantando rock? Nem pensar!

Vale lembrar que nos anos 60, a querela da música brasileira era a adição ou não de guitarras elétricas nas canções. O grupo dos amantes de Bossa Nova, banquinho e violão feelings, odiava pensar sequer que a música brasileira pudesse se render ao estrangeirismo e adotar as guitarras elétricas em suas músicas. Para o desespero da família tradicional da música brasileira foi o que aconteceu; a Jovem Guarda trouxe a guitarra e o iê-iê-iê para o Brasil. A Jovem Guarda provocou cosquinha se comparada aos estragos que a Tropicália causou. Letras irônicas e de cunho social, guitarra elétrica ao lado da viola, aquilo realmente era o fim da música brasileira para os radicais.

Nosso amigo Ronnie Von não se identificava com a Jovem Guarda e aí os probleminhas começaram. Ele tinha um programa de televisão e devido à rivalidade com Roberto Carlos, que possuía o programa Jovem Guarda, o cantor que ia num programa não poderia ir no outro. Foi assim que Os Mutantes se tornaram amigos de Von. Rechaçados pelo Jovem Guarda, foram recebidos de braços abertos no programa dele. Isso porque o cantor gostava daquela forma de fazer música e até mesmo sonhava em poder fazer o mesmo. Ele fez. Deu ruim. Mas por quê? Só assistindo ao documentário para saber.

O documentário tem 50 minutos e passa voando. Ele intercala depoimentos com cenas do cantor em estúdio, depois de 17 anos sem pisar em um, regravando seus clássicos psicodélicos. Pela ligação tremendamente pessoal que tenho com a Jovem Guarda, Ronnie Von e rock psicodélico brasileiro foi impossível não sentir uma empolgação ao assistir Ronnie Von – Quando éramos príncipes. Parecia que havia voltado aos meus 15 anos.

Duvido que você não tenha vontade de escutar, depois de assistir ao documentário, pelo menos uma das canções psicodélicas do Pequeno Príncipe.

Você pode assistir ao documentário aqui.

Revisão do texto: Ana Rolim

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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