O eterno judeu (1940)

O eterno judeu (1940)

A manipulação da história parece algo impensável a primeira vista. Qualquer um com bom senso sabe, por exemplo, que a ditadura civil-militar brasileira não é uma invenção da esquerda. No entanto, algumas pessoas que saíram às ruas este ano protestando contra o governo empunhavam cartazes que pediam a volta desse período negro em nossa história. De repente, a ditadura não parecia mais tão ruim, ela era até boa, o país estava a pleno vapor, crescendo 5% ao ano! Como não querê-la de volta então?

Exemplos como esse nos mostram que a história pode ser manipulada a bel prazer para atingir determinado fim. Trata-se de uma história que favorece uns e desfavorece outros. O eterno judeu, filme de cunho nazista, busca criar uma imagem negativa dos judeus que justificasse sua aniquilação, através de uma lavagem cerebral muito bem executada. A trilha sonora, o narrador e as imagens não deixam dúvidas ao espectador alemão: os judeus são o mal do mundo e merecem ser exterminados.

O título pode nos dar pistas sobre a linha seguida durante os 60 minutos de filme. Por que o eterno judeu? Por que ele é eterno? Sua eternidade reside no fato de que ele é como uma praga, que resiste eternamente. Desde a Antiguidade, os judeus estão parasitando a humanidade e não há diferença entre os judeus de países X ou Y. Sua natureza é igual, eles adoram roubar, enriquecer às custas dos outros. É nesse judeu que o filme irá se concentrar. Assustador para não dizer o mínimo.

O eterno judeu foi lançado em 28 de novembro de 1940 e a ideia era que coincidisse com as primeiras deportações de judeus para a Europa do Leste. Antes do filme começar, um aviso é colocado na tela: de que os judeus não eram o que as pessoas pensavam e que este filme retratava os judeus como eles realmente eram e viviam. Goebbels, ministro da cultura popular e propaganda durante o governo nazista, mandou uma equipe chefiada por Fritz Hippler para registrar imagens dos judeus nos guetos poloneses. Lá, eles viviam em total degradação e aí começa a manipulação interessante do filme. Eles viviam naquela pobreza toda por causa da invasão alemã mas ninguém menciona isso. A impressão que temos é de que eles vivem daquela forma, suja e degradante, porque era a natureza judaica.

Que realidade O eterno judeu nos mostra? A que a Alemanha gostaria que seus cidadãos conhecessem, no caso a de que esse povo, ironizado pelo narrador como escolhido por Deus, era uma ameaça à saúde do povo ariano. O filme usa diversos argumentos para que acreditemos no mal que o povo judeu representa. Temos, por exemplo, a comparação do vigor do povo alemão com a “preguiça” dos judeus. Eles são parasitas, não trabalham e roubam o dinheiro alheio. Nós, os alemães, lutamos pelos nossos bens, trabalhamos para conquistá-los. A sementinha do ódio aos judeus é gradativamente plantada ao longo de O eterno judeu. Lá pelas tantas, você começa a perceber que eles estão por todos os lados: cinema, teatro, bancos.

Outro argumento bastante forte utilizado no filme para suscitar o antissemitismo é a comparação dos judeus com ratos. Assim como os ratos, os judeus povoam o mundo por séculos. Nada os destrói nem os abala. Eles são nojentos, feios e se alimentam do que os outros fazem. Vemos imagens de ratos correndo, um grupo imenso de ratos. Imagino que a intenção fosse enojar os espectadores, uma vez enojados com os ratos eles estariam sentindo nojo dos judeus por consequência.

Os absurdos de O eterno judeu não param por aí. Não basta compará-los a ratos nem denegrir suas feições físicas. O filme dá seu golpe final ao mostrar uma cena emblemática de The house of Rothschild. Esse filme norte-americano foi o supra sumo da má representação judaica nas tela durante os anos 30. Ele se propõe a contar a história da família Rothschild, que teria enriquecido emprestando dinheiro a todas as nações do mundo. A cena desse filme mostrada em O eterno judeu é quando Nathan Rothschild esconde seus bens com a chegada do fiscal de imposto. A escolha dela não foi por acaso: o objetivo era mostrar os judeus como pessoas gananciosas e mentirosas. Logo depois a cena em que Nathan está morrendo é mostrada. Nela o patriarca da família profetiza que cada um de seus filhos iria fundar um banco em países influentes da Europa. Essa era uma das formas que os judeus haviam dominado o mundo na mente dos nazistas.

O filme carrega um final “otimista”, com rostos de alemães corajosos e bonitos. Ao fundo o discurso de Hitler que já anunciava o que aconteceria a seguir:

Caso os judeus do sistema financeiro internacional dentro e fora da Europa levem as pessoas a outra guerra mundial, o resultado não será uma vitória do judaísmo, mas a aniquilação da raça judaica na Europa.

Essa estratégia de bode expiatório é absurda, porém mais absurdo é pensar que ela aconteceu a menos de 100 anos. E isso na história é pouco tempo, pouquíssimo tempo. Acredita-se que algo semelhante não irá se repetir, mas lanço a pergunta: será mesmo? Pensemos nas migrações que estão acontecendo neste momento na Europa. Alguns grupos de extrema-direita insistem em culpar os imigrantes pelos males do mundo. Eles roubam nossos empregos, casam-se com nossas mulheres, são parasitas e vivem dos auxílios dos governos. A semelhança que essa afirmação guarda com a dos judeus merece nossa atenção. Não é ser alarmista, no entanto quando alguns discursos se repetem na história temos de estar atentos aos seus verdadeiros objetivos.

Você pode assistir ao filme completo aqui.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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