O bebê de Rosemary (1968)

O bebê de Rosemary (1968)

Quando fui morar com minha avó, um dos primeiros artistas aos quais ela me apresentou foi Raul Seixas. Ela gostava de ouvir os LPs dele e logo eu já sabia todas as músicas. Uma de minhas favoritas, Sociedade Alternativa, dizia:

Fazes o que tu queres pois é tudo da lei!

Anos mais tarde descobri que algumas músicas de Raul foram escritas com Paulo Coelho, o escritor que todos amamos odiar. Naquela época, Coelho se identificava com o ocultismo e muitas das letras escritas pelos dois refletem isso, como é o caso de Sociedade Alternativa. Esse meu trecho favorito, por exemplo, é um dos lemas de Aleister Crowley – grande ocultista do século XIX –  contido no famoso trabalho O livro da lei.

E o que isso tem a ver com O bebê de Rosemary? Tudo, meus amigos, tudo.

Embora Aleister Crowley já estivesse morto, suas ideias sobre fazes o que tu queres, há de ser tudo da lei foram reapropriadas pelos hippies nos movimentos pacifistas dos anos 60. O bebê de Rosemary também bebeu da fonte Crowley, contando uma história de uma seita ocultista na cidade de Nova York.

Guy (John Cassavetes) e Rosemary Woodhouse (Mia Farrow) são um casal tonto feliz que está à procura de um lugar para morar. De forma inesperada, conseguem um apartamento no Edifício Bramford, famoso por sua estrutura antiga e o sonho de moradia de muitos. Na realidade, o Bramford era o Edifício Dakota, onde anos mais tarde John Lennon seria assassinado. Voltando ao que interessa, nossos protagonistas ignoram completamente os acontecimentos bizarros que rondam o edifício. Duas irmãs que praticavam canibalismo haviam morado no Bram, assim como Adrian Marcato, um ocultista famoso. Sem contar, é claro, os suicídios que aconteciam aos montes por lá.

Minnie (Ruth Gordon apenas LACRADORA) e Roman Castevet (Sidney Blackmer) são o casal idoso vizinho dos Woodhouse. Eles se conhecem após o misterioso suicídio de Terry, uma garota que morava com os Castevet. O casal idoso pra lá de excêntrico adota os Woodhouse e logo eles se tornam vizinhos inseparáveis.

Minnie Castevet (Ruth Gordon).

No entanto, há algo errado com esses vizinhos. Eles são generosos demais. Eles são cuidadosos, preocupados demais. São tudo demais.

Os doces vizinhos são satanistas.

Talvez aí se esconda um dos triunfos de O bebê de Rosemary. Ao contrário da maioria dos filmes de horror que retratava os vilões de forma grotesca, o primeiro filme norte-americano de Roman Polanski mostra os satanistas como pessoas perfeitamente integradas à sociedade. Eles não estão em seus castelos, isolados. Eles estão ao seu lado, eles podem ser seus vizinhos. E é isso que desperta medo. Minnie e Roman são aparentemente inofensivos, sua figura frágil contrasta com o imenso poder que vamos descobrindo que eles têm ao longo do filme. Pessoas morrem em circunstâncias misteriosas para garantir o sucesso da carreira de Guy.

Rosemary fica grávida depois de um ritual satânico, no qual é estuprada pelo demônio enquanto os satanistas assistem. Essa cena, tanto no livro quanto no filme, merece nossa atenção. O bebê de Rosemary foi um dos primeiros filmes clássicos aos quais assisti e naquela época não me senti tão incomodada quanto agora. Comecei a tentar elencar as razões para o meu desconforto ao assistir ao filme e cheguei à conclusão de que não é o estupro em si que me incomoda tanto, mas a violência constante contra a mulher, tratada como algo normal. O estupro, o ato sexual sem consentimento, é o ponto alto da violência que Rosemary sofre ao longo da trama. No entanto, ela já sofria outros tipos de violência como o tratamento misógino – disfarçado de marido zeloso – por parte de Guy. Após o ritual satânico, mais violência: a confissão do estupro. Rosemary vê os arranhões em seu corpo e questiona Guy sobre o que aconteceu. Ele confessa que transou com a esposa enquanto ela dormia, alegando que foi uma espécie de necrofilia. Não importa quem a estuprou, demônio ou Guy, o problema é o estupro ser encarado como algo corriqueiro. Depois disso as violências que a personagem sofre não são físicas, e sim psicológicas. São o reflexo de como a sociedade encara a mulher, como de certa forma nos dita o que fazer. Ela não pode viver sua gravidez como deseja. Seu médico, o Doutor Saperstein, ordena o que ela deve fazer, os vizinhos lhe dão um suco que ela odeia tomar. Rosemary é acuada em todos os cantos e não pode sequer escolher o nome da criança sem alguém lhe dizer que não serve.

O filme foi produzido por William Castle, o mestre dos filmes de terror B. Realizou filmes com estrelas do calibre de Joan Crawford e Barbara Stanwyck e havia comprado os direitos do livro para o cinema. Mas quis o destino que Roman Polanski viesse da Europa para rodar O bebê de Rosemary, enganado por Robert Evans – produtor da Paramount – que lhe dissera que iria rodar Os amantes do perigo.

Como todos os filmes do gênero, O bebê de Rosemary é cercado por diversas histórias macabras. A mais assustadora de todas é a que envolve a esposa do diretor, Sharon Tate. No mesmo ano do lançamento do filme, a atriz foi brutalmente assassinada pela seita de Charles Manson, a Helter Skelter. Na verdade, a vítima em potencial da seita era Terry Melcher, filho da nossa querida Doris Day. Melcher, produtor musical, havia se recusado a gravar um disco de Manson por que ele cantava mal, despertando a ira de Manson. Porém, a seita não sabia que Terry havia se mudado e entraram na casa achando que o encontrariam. Acabaram assassinando Sharon, que estava grávida, e alguns amigos do casal. Deixaram uma mensagem na parede, escrita com sangue: Death to pigs.

Curiosidades:

  • O figado cru que Mia Farrow aparece comendo no filme é de verdade;
  • Os créditos de abertura são cantados por ela também;
  • A voz da personagem Donald Baumgart, ator que fica cego em decorrência de um feitiço, foi feita por ninguém mais ninguém menos que Tony Curtis;
  • Esse filme faz parte da trilogia do apartamento de Roman Polanski;
  • O roteiro foi escrito por Roman Polanski e Ira Levin, autor do livro;
  • A fidelidade da adaptação chega a ser assustadora. Os diálogos são iguais aos do livro, por exemplo.

Revisão do texto: Ana Rolim

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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