Charada (1963)

Charada (1963)

Na década de 1960 o cinema, de maneira geral, começava a passar por algumas mudanças, e comédias românticas a la Doris Day estavam ficando para trás. A Old Hollywood dava seus últimos suspiros. Nesse contexto, surge Charada, o filme que o The Guardian chamou de “a última faísca da Golden Age”.

E os protagonistas para tanto não poderiam ter sido melhor escolhidos! Dois ícones de uma era para o melhor filme de Hitchcock que Hitchcock nunca fez.

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Audrey Hepburn e Cary Grant são verdadeiras instituições do cinema. Ícones geralmente associados a uma determinada época do cinema hollywoodiano, a “Golden Age”. Época essa que chegava ao fim quando Stanley Donen os chamou para protagonizar Charada, em 1963. Grandes estrelas da época estavam se escasseando, desaparecendo; Grace Kelly partira para Mônaco, Marilyn Monroe morrera em circunstâncias misteriosas, Clark Gable e Humphrey Bogart estavam mortos. E aos poucos, o cinema perdia mais e mais espaço para a televisão.

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Em 1963, Audrey Hepburn já tinha um currículo de fazer inveja; o próprio Stanley Donen já tinha trabalhado com a diva há alguns anos atrás, em Cinderela em Paris, onde ela soltava o gogó e arriscava alguns passos ao lado de Fred Astaire. Audrey era carismática e charmosa, muito admirada pelos colegas de profissão. Não era do tipo que chegava atrasada e dava piti no estúdio, em meio a ataques de estrelismo. Esse foi um dos motivos que fez com que a Audrey conquistasse a simpatia e a admiração de Cary Grant durante as gravações de Charada.

É triste pensar que esses lindos demoraram tanto para fazerem algo juntos. Não que o resultado tenha sido ruim – longe disso. Cary Grant, em vias de se aposentar, custou a ser convencido a entrar no barco – ele considerava ridícula a ideia de um velho – palavras dele – correndo atrás de uma novinha – palavras minhas. Tanto que para aceitar fazer o filme, ele exigiu uma mudança aqui e ali no roteiro, e voilá! Habemus Charade!

Charada é comédia, espionagem, suspense e romance, tudo meio que ao mesmo tempo! É quase uma screwball comedy. O mais incrível é que ele tem um quê de Hitchcock, o que leva muita gente a, erroneamente, considerá-lo como um filme do mestre. Além do mais, os créditos de abertura tem o estilo de Saul Bass, que fazia o design dos créditos dos filmes de Hitch na época. Por essas e outras, o filme recebeu a alcunha de: the best Hitchcock film that Hitchcock never made. E esse já é um bom motivo para querer assisti-lo.

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Vamos ao plot: Hepburn é Regina, uma americana em Paris (‘cê jura?), que é sempre a última a saber. Acho que não existe melhor definição para essa personagem. A bichinha passa um aperto danado ao ficar viúva e se dar conta que não sabia nada sobre a vida do marido, quando pessoas estranhas começam a segui-la e quando começa a ser questionada sobre uma quantia em dinheiro, que todos julgam estar com ela. No meio dessa farofada, aparece Peter, um tiozão irônico, sexy e misterioso, na pele de Cary Grant. Um cara de 549574398 personalidades é uma incógnita para Regina, que apesar de tudo, confia no lindo desde o início para tentar desvendar a treta infinita em que o marido estava metido. E toda hora Regina acaba sendo surpreendida pela suposta origem do cara. Plot twist é o que não falta nesse filme! Vale destacar ainda o papel de Walter Matthau nesse filme, como o agente da CIA, Bartholomew, um dos que estão na caçada ao paradeiro da grana roubada pelo marido de Regina.

c6e97391d4f41d74155df4a2bf386a36As mudanças no roteiro solicitadas por Cary Grant fizeram toda a diferença para a boa fórmula que dá certo em Charada. Piadinhas com a diferença de idade do casal protagonista aliadas ao fato de que é Regina quem tenta incansavelmente seduzir o enigmático personagem, convenceram Cary a entrar no filme, e dão aquele toque charmoso de Old Hollywood. Sim, por que adoramos uma boa comédia romântica onde a mocinha persegue o mocinho (vide Levada da breca e Irene, a teimosa, de 1938 e 1936, respectivamente). Seria um tanto patético se Cary bancasse o James Bond, indo para cima de Audrey como um trator. As tentativas de Regina para amolecer seu parceiro são adoráveis e cheias de charme. Uma boa dose daquela mágica da Golden Age que a gente ama. E, sem sombra de dúvida, Cary Grant sempre soube como ninguém ser esse tipo de galã; charmoso, irônico e bem humorado. Audrey não resiste. Nem nós.

E agora, quem poderá nos defender?

Outros dois pontos bacanas a serem destacados sobre Charada são o figurino de Audrey e a trilha sonora de Henry Mancini. Regina desfila pelas ruas de Paris sofredora e cheia de dúvidas, mas faz isso ostentando diversos modelitos de Givenchy, miguxo adorado de Audrey. É pra morrer de amor. Somado a isso, temos a trilha maravilhosa de Henry Mancini (olha o pleonasmo aí, geeente!), que combina muito bem com o clima do filme. O tema é uma das minhas músicas favoritas de todos os tempos. Você pode ouvi-la aqui. Aliás, se tem uma coisa que Henry Mancini faz bem, é compor trilha para filme que tenha Audrey no meio. A icônica Moon river, de Bonequinha de luxo, de 1961, foi composta pelo mestre tendo Audrey em mente. Em Charada a fórmula deu certo mais uma vez.

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 Gente, é Cary Grant e Audrey Hepburn em um dos melhores filmes do malemolente Stanley Donen. É divertido e prende do início ao fim.

Corre pra ver!

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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