As vinhas da ira (1940)

As vinhas da ira (1940)

Seis semanas após a estrondosa estreia de E o vento levou em Atlanta, um filme completamente incomum para os padrões hollywoodianos também invadia as salas de cinema: As vinhas da ira. Dirigido por John Ford e rodado em sete semanas, esse filme se tornaria E o vento levou com proposições sociais. Até hoje, muitos anos após seu lançamento, As vinhas da ira ainda dialoga com o nosso presente, sobretudo neste momento em que vivemos uma das maiores e ferozes crises do sistema capitalismo.

A ponte com E o vento levou é interessante se pararmos para pensar que dois filmes com propostas tão diferentes tiveram reações tão semelhantes do público. Hattie McDaniel, que interpretara a empregada Mammie, fora proibida de ir à première de E o vento por causa das leis racistas que vigoravam no estado da Geórgia naquela época. Já As vinhas da ira, o filme, foi censurado em alguns estados e o livro chegou até mesmo a ser queimado em praça pública (hum, sinto cheiro de caça às bruxas) na cidade natal do autor, Salinas. Só que As vinhas da ira fazia algo que E o vento levou não ousara: meter o dedo de algumas feridas dos norte-americanos. Como por exemplo o capitalismo.

Aqui já começa o meu encanto por esse filme, pois ele critica justamente o sistema que enriquecia Hollywood. Não é segredo para ninguém as relações que a indústria cinematográfica mantinha (e acredito que ainda mantenha) com os grandes bancos. A própria criação de Hollywood foi uma tentativa de escapar do controle do monopólio que Thomas Edison ensaiava com sua invenção, o cinematógrafo. Futuros cineastas foram para essa terra de ninguém – na época a Califórnia – para construir estúdios, com seus próprios equipamentos para não pagarem mais nada a Thomas. Também não é segredo para ninguém que os estúdios tinham espécies de sedes em Wall Street, o centro financeiro dos EUA.

Lendo reportagens para preparar este texto me deparei com o comentário de uma resenha dos anos 40 sobre As vinhas da ira. O autor se perguntava se Darryl F.Zanuck havia escolhido adaptar o livro de Steinbeck por querer sambar na cara de Hollywood e a resposta que ele se dava era não. Zanuck quis um filme que fosse tão bem-sucedido quanto E o vento levou. A versão da Fox de E o vento levou, digamos assim. No entanto, não podemos esquecer que Zanuck, na época em que estava na Warner Brothers, revolucionou o estúdio e fez filmes pra lá de ozados como I am a fugitive from a chain gang (O fugitivo em português).

O filme começa volta de Tom Joad (Henry Fonda), um assassino que passara quatro anos preso, para casa no Oklahoma. O que vê não poderia ser pior: degradação, miséria e fome. Sua família está para ser desalojada, pois um grande banqueiro comprou aquelas terras e não há mais espaço para os moradores dali. A acumulação primitiva consiste no fato de que enquanto muitos tem (ou seja, acumulam) outros não tem nada. Você pode se iludir e pensar que é por causa do trabalho honesto que uns tem muito e outros nada. No entanto, se olharmos para a história veremos que esse processo de acumulação se deu através de pilhagens, assassinatos e outros formas sujas de enriquecimento. A riqueza do banqueiro que se apropria das terras de Joad é o próprio capitalismo em pessoa agindo, essa mão invisível como meu professor costuma dizer. Isso porque ele não as conquistou com trabalho mas às custas de expropriação de terras.

A terra prometida da família Joad é a Califórnia, onde afirmam que há trabalho abundante como colhedor de frutas. Eles se agarram a essa oportunidade como se fosse a última gota do deserto. Porém, como vocês podem imaginar, de prometida essa terra não tem nada. Na tão sonhada Califórnia existe super exploração da força de trabalho, pessoas dispostas a aceitar dois centavos por dia como salário e pobreza. As vinhas da ira mostra como o sistema capitalista fracassa, pois não há distribuição de renda, não há trabalho digno e o trabalhador vive à exaustão. O amor ao dinheiro faz com que banqueiros consigam comprar a polícia para manter esse sistema que paga dois centavos por um dia de trabalho. Talvez indiretamente o filme esteja dizendo aos norte-americanos: é esse o preço que estamos pagando pelo american way of life?

Um dos momentos mais tocantes para mim no filme é a cena em que a família Joad é vítima de xenofobia por parte dos californianos. Ele estão saindo da cidade e são barrados por diversos homens com pedaços de pau na mão. O discurso deles é “Escuta aqui, queridinhos, vocês estão roubando nossos empregos, nossas mulheres e tudo que é nosso. Portanto saiam já daqui!”. Esse tipo de pensamento é o que leva algumas pessoas a incendiarem abrigos, a baterem nas pessoas e a incitarem o ódio. Não vêem que o buraco é muito mais embaixo.Essas palavras lembram um acontecimento muito recente, a questão dos migrantes na Europa. Essa é a maior onda de migrações desde o final da Segunda Guerra Mundial e tem despertado a ira da extrema direita, que ganha cada vez mais espaço na Europa. É assustador ver como essa cena dialoga com o presente, em certo momento lembrei da jornalista que colocou o pé na frente de um garoto que atravessava a fronteira para que ele tropeçasse.

As vinhas da ira é um filme clássico essencial para que conheçamos o outro lado da moeda norte-americana. Os filmes sempre retrataram os EUA idílico, a terra das oportunidades. Poucos filmes têm a coragem de As vinhas da ira. E o mais surpreendente é o sucesso que fez – e ainda faz – naquela época, recebendo generosas reviews nos jornais. Ver este filme é examinar o presente através do passado. Imperdível.

Curiosidades:

  • O final do filme é diferente do que John Ford havia planejado. Quem o mudou foi Zanuck, que inseriu o discurso de Ma Joad. Os planos de Ford eram de terminar o filme na cena em que Tom e Ma Joad conversam e se abraçam;
  • O filme foi indicado ao Oscar em diversas categorias. Perdeu em melhor filme para Rebecca, a mulher inesquecível mas ganhou por melhor diretor e melhor atriz coadjuvante;

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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