Você me pertence (1941)

Você me pertence (1941)

Que saudades estava de escrever sobre filmes de Barbara Stanwyck por aqui! Para uma sexta-feira à noite, depois de quatro horas ouvindo meu professor falar sobre Marx, precisava urgentemente de uma comédia. Vamos ver o que temos aqui… Eu ainda não vi esse filme da Missy com o Henry Fonda, parece bom. Foi mais ou menos assim que escolhi assistir Você me pertence, último filme da dobradinha Fonda-Stanwyck.

Lá pelas tantas já estava irritada com o enredo e com a mensagem clara que Você me pertence carregava: amor e trabalho, para uma mulher, não combinam. Só meu imenso amor por Barbara Stanwyck e a vontade de, mais uma vez escrever sobre esse assunto, me fizeram prosseguir com o filme.

Você me pertence (You belong to me) conta a história do encontro entre Helen Hunt (Barbara Stanwyck), uma médica bem-sucedida, e Peter Kirk (Henry Fonda), um milionário ocioso. Eles se conhecem quando estão esquiando, Peter acaba sofrendo um acidente e Helen o socorre. A partir desse momento ela começa a tratá-lo e é claro que ele cai de amores por ela. Também quem não cairia de amores por uma médica com o rosto de Barbara Stanwyck. Helen corresponde aos sentimentos de Peter e eles decidem se casar.

E aí os problemas começam.

Diria que, na verdade, o problema que se coloca desde o começo do filme se agrava: o fato de Helen ter uma profissão e ser bem-sucedida nela. Assim como em Confidências à meia-noite, aqui também temos uma personagem feminina forte, independente e que não leva desaforos para casa. Não poderia ser diferente, pois a mulher que se atrevia a sair do papel que lhe fora concedido teria que ter muita guts para responder à altura. Em Você me pertence a competência de Helen é o tempo inteiro posta a prova. É como se, pelo fato de ser mulher e muito bonita, ela não conseguisse ser competente também. É muito triste quando o próprio marido de Helen diz que seus pacientes a procuram só por que é bonita. Em outra cena, quando ela entra na sala de cirurgia, disposta a tratar Peter, a resposta que recebe do médico é:

Temos que chamar um especialista.

E olha que a personagem era uma das melhores na sua área! O que acontece daí para frente é uma variação desse problema. Ela se casa com Peter e ele não consegue aceitar a falta de atenção que recebe por parte da esposa por ela ser médica. Na lua de mel Helen tem de sair para atender uma emergência e são situações como essa que provocam as risadas no filme. Ela sai todos os dias para trabalhar e o deixa morrendo de saudades em casa. É daí que decorre um dos pontos mais interessantes do filme: a inversão dos papéis de gênero. É ele que fica em casa, é ele quem tem ciúmes dos pacientes da esposa. A situação é ridícula e nos soa absurda, certo? Sim, mas a tática do filme é genial, fazendo com que a gente sinta pena de Henry Fonda. Coitadinho, olha o que a esposa faz com ele, isso não é justo! Os ciúmes, os ataques são compensados pelo fato de ele ser um marido preocupado, amoroso e necessitado de atenção. Vocês sabem melhor que eu o quanto Henry Fonda pode ser convincente quando sofre. Agora imaginemos se fosse o contrário, se a esposa tivesse ciúmes, ataques e não deixasse o marido trabalhar. Que absurdo, pode não! Como ela faz isso, precisa deixar o marido trabalhar em paz. A inversão dos papeis de gênero em Você me pertence cria a identificação com Peter Kirk. Assim, as mulheres podem, indiretamente, pensar que seu papel pertence à esfera privada.

Helen é a falsa personagem feminina moderna. Moderna para o que 1941 permitia, a partir do momento em que ultrapassa essa linha ela precisará escolher entre a carreira e o marido. Felizmente o final do filme é surpreendentemente otimista para o que esperamos depois desse festival de sexismo.

O filme foi a última parceria entre Henry Fonda e Barbara Stanwyck, que no mesmo ano estouraram com As três noites de Eva. Você me pertence tentou repetir o sucesso e é bem-sucedido no que diz respeito à química dos atores. É ela que salva o filme. Talvez falte a mesma tensão sexual predominante em As três noites de Eva, algo como a cena do sapato, quem lembra? A primeira vez que trabalharam juntos foi em Quando elas teimam (The Mad Miss Manton) em 1938. Ele odiara rodar esse filme, mas gostava muito de Missy. Sente só essa declaração que ele fez:

I did three movies with her. Everything I did with her was something I love to remember. And I’m still in love with her, my wife has learned to live with it...

E quem não seria apaixonado por essa mulher? Uma das tantas perguntas sem resposta de minha vida.

ADEUS.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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