Sede de Viver (1956)

Sede de Viver (1956)

Interpretar Vincent Van Gogh renovou minha teoria sobre o significado de ser ator. Para mim, representar é criar ilusão, fazendo uso de disciplina rígida para não se perder na personagem em questão. O ator nunca pode se confundir com a personagem, o público sim. Enquanto se está representando, tenta-se incorporar seus pensamentos; quando o filme acaba, deve-se voltar a si mesmo. É necessário controlar-se. Entretando, por pouco não me perdi em Van Gogh.” – Kirk Douglas

Falta pouco mais de um ano para o centenário do Kirk Douglas. Um dos atores mais versáteis e completos de que já ouvimos falar. Foi indicado três vezes ao Oscar, sem nunca faturar a estatueta (DiCaprio feelings). Somente em 1996, a Academia resolveu homenagear o astro com um Oscar honorário e o anúncio que antecedeu a entrega do prêmio o descreveu como “um ator que não marcou somente em um filme, mas no conjunto de sua obra”. Bullshit! Nossa humilde opinião é de que Kirk foi subestimado diversas vezes por membros da Academia, que só enfatizaram seu trabalho bem mais tarde. Antes tarde do que nunca, devem ter pensado “vamos dar logo um prêmio honorário pra não ficar assim tão feio, né”.

Quarenta anos antes desse tapa-gafe do Oscar, em 1956 Kirk era indicado ao prêmio de Melhor Ator por sua performance em Lust for Life (Sede de Viver, no Brasil). O filme é baseado no bestseller “Lust for Life”, lançado em 1934 e retrata o trabalho e vida pessoal de Van Gogh. Dirigido por Vincente Minnelli, o longa-metragem captura imagens autênticas de diversas obras do gênio, cedidas por museus e instituições que colaboraram com a produção.

lustposterKirk Douglas fundou sua própria companhia de filmes em 1955, a Bryna Productions (a companhia foi batizada com o nome de sua mãe) que produziu 19 filmes entre 1955 e 1986. Enquanto ainda tentava estabelecê-la, decidiu que a próxima produção seria baseada no romance de Irving Stone sobre Vincent van Gogh. No entanto, Douglas descobriu que a MGM obtinha os direitos de Lust for Life há anos e quase realizaram uma produção com Spencer Tracy em 1936. Após o roteiro ser reescrito, Kirk e MGM chegaram a um acordo e o filme seria produzido por John Houseman e dirigido por Vincente Minnelli.

John, Kirk e Minnelli já haviam trabalhado juntos em “The Bad and the Beautiful“, que atingiu enorme sucesso e marcou o início de uma boa relação entre eles. Douglas relatou sobre a experiência sensacional de trabalhar com Minnelli novamente: “Minnelli é um diretor extremamente exigente e impaciente com atores. No entando, me sentia como o ‘favorito da professora’. Parecia-lhe que eu sempre agia da maneira correta: via, com prazer, tudo o que eu fazia. Seria porque trabalháramos juntos, e com sucesso, em The Bad and the Beautiful? Ignoro-o, mas, seja como for, era um sentimento muito agradável encontrar aprovação por parte de um diretor tão rigoroso.”

lustforlifequote Kirk não só era parecido, como tinha a mesma idade de Vincent quando se suicidou, aos 37 anos. Minnelli filmou em diversos lugares onde Van Gogh morou e trabalhou, estiveram na casa amarela e na ponte onde pintara “The Langlois Bridge at Arles”. Vestiram camponeses locais com trajes da época para que parecessem saídos de pinturas. A semelhança de Kirk com o pintor atraiu olhares surpresos de velhos campôneos que o conheceram, dispararam com nostalgia: “Il est retourné“. (“Ele voltou.”) Diversas informações do filme são baseadas nas cartas que Vincent trocava com Theo, seu irmão mais novo, diversos detalhes de sua vida pessoal foram revelados quando as cartas foram publicadas em 1914. Van Gogh só vendeu um quadro em toda sua vida e a fama póstuma aconteceu em uma exposição na França, em 1901.

O filme passeia com eficácia entre a vida pessoal e profissional de Van Gogh, a harmonia é tamanha que quase não se percebe o que separa a genialidade e os demônios que o atormentaram durante toda a vida. Na trama, Vincent é um jovem inquieto na busca de seu lugar no mundo, sente-se fracassado em todas as convenções sociais de sua época; não casou, não constituiu família e era incapaz de sustentar a si mesmo. Ansiava por ser útil de alguma forma e conseguiu um trabalho temporário como missionário na Bélgica, em uma comunidade pobre de mineiros. Van Gogh acabou se envolvendo na miséria e nos problemas reais daquela gente, até o ponto em que seu irmão Theo o incentivou a ir embora e dedicar-se de verdade a pintura, que sempre lhe interessou.

Douglas Wayne MOMENTO FOFOCA. Em sua autobiografia The Ragman’s Son, Kirk conta sobre a reação de John Wayne em um jantar, depois de uma exibição de Sede de Viver: “Minha interpretação de Van Gogh impressionava a todos. Organizamos uma projeção particular de Lust for Life e muitas pessoas ligadas a indústria cinematográfica vieram. Depois houve um jantar na casa de Merle Oberon, onde encontrei John Wayne, que me fitava incessantemente, dando a impressão de estar nervoso. Ainda não havíamos trabalhado juntos até então. Segurava um drinque em uma mão, e acenou-me com a outra. A sós no terraço, censurou-me: ‘Jesus! Como pode fazer esse tipo de papel, Kirk? Sobraram tão poucos de nós. Devemos representar personagens fortes, durões, e não esss bichas loucas’. Tentei explicar, ‘Sabe John, sou ator, gosto de fazer papéis interessantes. É tudo faz de conta, não é real, John. Você pensa que é John Wayne, não é?’
Ficou me olhando de maneira estranha. Havia conseguido enganá-lo. Tomei-o como algo lisonjeador; o filme o sensibilizara, ou, pelo menos, mexera com ele.”

Sérião, é por essas e outras que Kirk Douglas me representa. Que abismo existia entre ele e John Wayne.

“Lust for Life” foi o filme mais difícil já feito por Kirk Douglas, segundo palavras do próprio. O que o torna tão especial, para mim, é que nessa época era raro um filme mostrar de forma tão honesta o desespero e a angústia que poderia levar alguém a se mutilar. O homem que contrariou diversos estereótipos, na figura vulnerável e fascinante de Van Gogh. Está facilmente entre as melhores cine biografias que já assisti, se não for a melhor.

Curiosidades:
– O terceiro filho de Kirk nasceu durante as filmagens de Lust for Life e foi batizado Peter Vincent Douglas (sim, Vincent, como Van Gogh).
– Marc Chagall, o pintor surrealista, comoveu-se com Lust for Life e enviou sua autobiografia a Kirk Douglas, queria que o interpretasse. Apesar de Douglas admirar profundamente seus trabalhos, declarou que “jamais poderia interpretar Van Gogh, ou qualquer outro pintor novamente”.

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Escrito por Guilherme

Still tryin' to find my place in the sun.

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