Sede de Escândalo (1931)

Sede de Escândalo (1931)

Se a MGM tinha Irving Thalberg nos seus melhores anos, a Warner Brothers não ficava muito atrás. No começo dos anos 30 o estúdio tinha Darryl F. Zanuck, responsável por colocar ordem na bagaça. A Warner Brothers deve muito a ele, pois o estúdio estava às portas da falência quando foi resgatado pelo produtor e colocado em pé de igualdade com outros grandões, como a MGM.

Sede de Escândalo tem a marca inconfundível do estilo dos maninhos Warner: dramas sociais, diálogo rápido e a preferência por histórias cruéis. Histórias de amor? Eles pouco ligavam para isso. A combinação explosiva desses três elementos funde-se com a atuação monstruosa de Edward G.Robinson, em seu primeiro papel mais dramático.

Como relatei no meu texto sobre Grande Hotel, a MGM lucrou muito com a Crise de 29. Não fora o caso da Warner Brothers. Ué, mas não foram eles que lançaram o primeiro filme falado? Como não estavam rycos? Pois é, pois é. O fato é que os maninhos Warner gastaram rios de dinheiro investindo na tecnologia do som, mas isso não os salvou da bancarrota. Estavam praticamente falidos. Portanto, a palavra de ordem no estúdio era economizar. Economizar nas histórias, nos cenários. Um filme com duas estrelas de grande porte? Nem pensar, vamos gastar demais! Menos era mais para os maninhos Warner. Por isso, o interesse deles se voltava para narrativas rápidas e econômicas, bem diferentes de seus rivais que adoravam uma pitada de glamour. E esse modelo era perfeito para histórias sobre tipos populares e os efeitos da Crise de 29 na vida de pessoas simples.

O livro The genius of the system: Hollywood filmmaking in the studio era nos dá mais detalhes sobre o tal house style da Warner:

And perhaps most distinctive in Warner pictures were the lack of naive optimism and a disdain for romantic love as either motivating plot device or a means of narrative resolution.

Sede de Escândalo é a falta de otimismo e final feliz em forma de filme! Ele conta a história de um jornal, o The Gazette, que não está indo muito bem nas vendas. Um dos funcionários sugere que eles reavivem uma história de assassinato que aconteceu há 20 anos atrás para dar visibilidade ao jornal. Só que para isso terão de passar por cima de qualquer ética ou sentimento. Em certos momentos remeteu-me à trama sensacional de Adorável Vagabundo de Frank Capra, em que um jornal cria a figura de um herói para vender mais.

Embora tenha sido rodado em 1931, esse filme dialoga com o presente. Quantas histórias não foram manipuladas pela mídia até à exaustão? Lembro-me da época do assassinato da menina Isabella. Só se falava nisso, você ligava a televisão e lá estavam as pessoas explorando a tragédia alheia para ganhar audiência. Não é muito diferente do que acontece em Sede de Escândalo; a miséria moral de Nancy (Frances Starr) vende como água. Enquanto o jornal vive seu grande momento, ela teme que sua filha descubra que ela é uma assassina. De um lado a ambição que supera qualquer valor moral; de outro o sofrimento de quem não pode fazer nada se defender perante a um adversário tão poderoso como o The Gazette.

Randall, o editor inescrupuloso do jornal, foi um dos primeiros papeis dramáticos de Edward G.Robinson. Assim como James Cagney, o ator tinha um rosto que combinava bastante com o tipo de filme que a Warner gostava de fazer. Suas expressões eram duras e seu rosto tinha apelo popular. Robinson consagrou-se nos filmes de gangster, basta nos lembrarmos de Alma no lodo (Little Caesar). Apesar de ser um papel um pouco diferente do que de costume, ainda podemos ver a dureza e a falta de escrúpulos que dominavam seus personagens em filmes gangsters. Um dos momentos mais emblemáticos do filme, para mim, é quando Randall está triste por causa dos rumos que a história de reviver o assassinato tomou. Ele faz um discurso moralista que cai por terra assim que o telefone toca. Um novo escândalo está para acontecer e ele, é claro, não pode ficar de fora. Isso mostra duas coisas: que os maninhos Warner não queriam saber de redenção e que o cara realmente não dá a mínima para as vidas que destrói. Uau!

Às vezes é assustador como filmes tão antigos possam ter tanta relação com o presente. Sede de escândalo é um deles. Ao assisti-lo, tenho certeza de que vai pensar que a exploração desenfreada de um fato ainda acontece por aí. E não precisamos ir muito longe para isso, é só ligar a televisão e está lá: a miséria do mundo servindo aos interesses dos poderosos.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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