Ricki and The Flash – De volta para casa (2015)

Ricki and The Flash – De volta para casa (2015)

Ah, Meryl Streep. Insira muitos suspiros aqui. Essa mulher leva meu dinheiro desde 2008, quando pela primeira vez fui assisti-la no cinema em Mamma Mia!. Ela arrancou meu coração fora ao cantar músicas da minha banda de pop favorita, o ABBA. De lá para cá, nesta vida severina de cinéfila, encontrei pouquíssimas pessoas que não apreciavam seu trabalho. Um abraço coletivo de todos que choraram com A escolha de Sofia. De lá para cá, ela já leu receitas com voz sensual no programa de Ellen DeGeneres, fez selfie no Oscar, comeu pizza no Oscar, fumou maconha com o Alec Baldwin e mostrou que senhora de 66 anos ainda tem papeis bons, ainda aparece transando em cena com roqueiro bonitão sim senhor! Quem dera que outras atrizes pudessem fazer as mesmas coisas que Streep, mas isso é conversa para outro post.

Em 2015 ela nos apresenta de novo uma faceta que nós adoramos: a de cantora. Só que aqui ela não é a cantora de rádio de A última noite e nem a atriz decadente que canta Me em A morte lhe cai bem. Que nada, meus amigos, em Ricki and the flash ela canta Rolling Stones, Bruce Springsteen, Pink e Lady Gaga. Ela faz com que a gente caia de amores por sua Ricki, a roqueira decadente que busca resgatar o relacionamento com os filhos.

Como esperava o filme não é grande coisa. E não é por isso que ele não é bom, pelo contrário. Às vezes acho que as pessoas anseiam que um ator faça sempre papeis grandiosos. Isso nem sempre é possível. Ricki and The Flash não é nenhum As Horas, mas há momentos maravilhosos, pontos interessantes de serem discutidos e uma mensagem positiva.

A discussão maternidade versus carreira perpassa o filme. Ricki (Meryl Streep) optou por uma vida de roqueira, algo por si só bastante incomum. Quantas cantoras de rock vemos por aí? E mais velhas? Pouquíssimas. Pense no machismo que elas sofrem todos os dias por estarem em um meio muito mais masculinizado que outros por aí. A nossa Ricki vive como quer, cantando em um bar ao lado de sua banda. E tem um romance com o vocalista, afinal estamos falando de uma banda de rock, quem se lembra do Fleetwood Mac? Aliás, uma das melhores falas do filme é a que Ricki diz que as pessoas amam histórias de amor entre cantores, basta lembrar como o Fleetwood Mac fez sucesso. Soltei risinhos juvenis no meio do cinema, pois quem me conhece sabe que essa é minha banda favorita de rock de todos os tempos. Voltando ao que interessa, a personagem deixou os filhos com o ex para viver como bem entendia. Uma ligação irá mudar os rumos de sua vida, Pete (Kevin Kline), seu ex, liga e lhe pede ajuda. A filha deles, Julie (Mamie Gummer) está arrasada por causa de seu divórcio com o marido e Pete já não sabe o que fazer para tirá-la da letargia.

É aí que maternidade e carreira vão se encontrar. Quando Ricki revê a filha, a única coisa que parece ter entre elas é mágoa e desprezo. A filha não quer saber da mãe, não aceita ter sido trocada por uma carreira. Quanto mais penso sobre o tema maternidade mais me confundo. Tive de ler um texto para a faculdade chamado O mito do amor materno e ele dialoga de certa forma com Ricki and The Flash. Hoje em dia uma mãe que abandona os filhos, por qualquer que seja o motivo, não é bem vista. Nem sempre foi assim. Na época do Antigo Regime, as mães deixavam que seus filhos fossem mandados para amas-de-leite, que os matavam depois. Pareciam não se importar com suas mortes, pois mesmo sabendo que iriam morrer nas mãos das amas elas continuavam mandando-os para serem criados por elas. Isso nos mostra que o amor materno é um mito, ou seja, ele muda de acordo com o tempo. Nem sempre, na história, a relação mãe e filho foi valorizada. Hoje ela é venerada e é fruto da sociedade que vivemos. Daqui 50 anos pode ser que não seja mais. Por isso Ricki é demonizada o tempo inteiro no filme, tachada como a mãe má. Mães normais não fazem isso com seus filhos. O desprezo é a moeda com que ela é paga por ter abandonado os filhos. É interessante que, em uma cena do filme, isso é discutido, ainda que superficialmente. Ricki para de cantar e começa a conversar com a plateia. A princípio sobre Mick Jagger e o fato de ele ter tido filhos com mulheres diferentes. Que ele podia não criá-los e estaria tudo bem, pois continuaria sendo uma grande estrela e mais do que isso ainda seria respeitado. Isso não é possível com as mulheres. Se elas não estão lá, são monstros. Uma professora que tive contou que o pai de seu filho é sempre elogiado, ele é o pai herói, troca as fraldas, olha que maravilhoso. Ela, para a família, não faz mais que a obrigação.

O filme foi inspirado na vida de Terry Cieri, uma roqueira de Jersey que tem uma banda chamada Silk and Steel, além de ser sogra da roteirista do filme, Diablo Cody. A roteirista, premiada por seu trabalho em Juno, conheceu Terry quando namorava seu filho, Daniel Maurio. Ela conta que não estava preparada para uma sogra tão peculiar:

I went to Jersey to meet [Maurio’s] entire family when we got engaged, and nobody had prepared me for the fact that his mom was this kind of offbeat character”. “I saw her band playing at this bar on the shore and I said to my husband, ‘This is a movie.’ Because as a screenwriter, you’re always looking for movies all around you.

Diablo também conta que ao contar à sogra que Meryl Streep faria um papel inspirado nela a roqueira chorou. As duas se encontraram durante as gravações de algumas cenas musicais no bar onde Ricki canta. Aliás, os figurinos, o cabelo e os acessórios foram ideia da atriz. Na fase de pré-produção a roteirista mostrou alguns vídeos de Terry cantando para inspirar Streep.

Terry Cieri, a verdadeira Ricki, e Meryl Streep.

Na minha ingenuidade havia achado que nada superaria Meryl Streep cantando ABBA, mas como me enganei! Ricki and The Flash tem a melhor seleção de rock clássico, como Rolling Stones e Bruce Springsteen. Também há o momento pra lá de estranho em que uma versão de rock de Bad Romance é tocada. Ainda não decidi o que acho dela, mas a iniciativa já merece aplausos. Ela teve de aprender algumas lições de guitarra e você pode conferi-la aqui tentando rasgar alguns acordes, orientada por ninguém mais ninguém menos que Neil Young.

Talvez o filme fosse melhor se não tivesse sido mutilado. Ao olhar todos os teasers e trailers você percebe que muito foi cortado. Por quê? Queria ver Meryl Streep tendo problemas no aeroporto ao tirar todos os objetos metálicos do corpo (só para constar: essa cena existe no filme, mas não na versão estendida do trailer).

Sorte a nossa que ainda sobrou Meryl Streep cantando clássicos do rock. Acho que só isso já valeria a sua ida ao cinema. Ainda bem.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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