Despedida de solteiro (1957)

Despedida de solteiro (1957)

Quando voltaram para suas casas, após o término da Segunda Guerra Mundial, os homens encontraram algo bem diferente do que esperavam: suas mulheres trabalhando e uma sociedade devastada. Para reverter este quadro todos os homens que haviam lutado na Segunda Guerra agora teriam direito a uma educação universitária gratuita. Além disso houve um movimento de “volta” das mulheres ao lar, ou seja, agora que seus maridos estavam presentes para sustentar a casa elas não precisavam mais trabalhar. Algumas mulheres disseram não e outras aceitaram. O fato é que os anos 50 representam uma “crise” nos valores sociais norte-americanos, algo que iria agravar-se nos anos 60.

Despedida de solteiro retrata a crise do homem norte-americano, o WASP (White Anglo-Saxon Protestant), que de repente se viu sem eira nem beira após assistir aos horrores da Segunda Guerra Mundial. Frente à luta pelos direitos civis e ao ingresso das mulheres na força de trabalho os homens sentiram-se acuados. Realizado pela produtora de Burt Lancaster, o filme discute a crise do casamento, um dos pilares da sociedade norte-americana.

Despedida de solteiro originalmente foi produzido para a televisão e exibido na  Goodyear TV Playhouse em 1953. Já o filme seria produzido pela Hecht Hill Lancaster, a famosa produtora de Burt Lancaster, conhecida por seus filmões-tapa-na-cara-da-sociedade como Embriaguez do Sucesso. Harold Hecht sentiu cheirinho de sucesso e contratou Paddy Chayefsky para adaptar o roteiro televisivo para o cinema. Ele achava que esse filme poderia ser um grande hit como Marty, outro filme produzido pela Hecht Hill Lancaster e que também fora adaptado da televisão para o cinema.

Como o próprio título do filme já enuncia, trata-se da despedida de solteiro de Arnold (Philip Abbott), funcionário de uma empresa de contabilidade. A ação se passa durante um dia; desde a hora em que as personagens vão para o trabalho até o amanhecer, após a despedida.

Uma das partes de O segundo sexo, escrito por Simone de Beauvoir, discute acerca do que chama de destino. Sendo designada mulher você tem alguns caminhos pré-definidos e se pensarmos nos anos 50, esses caminhos eram ainda mais estreitos. Ter uma educação para que algum homem queira se casar com você, depois do casamento os filhos e a uma casa para cuidar; esse era o destino das mulheres. E quanto aos homens? Teriam eles um destino também? Despedida de solteiro parece responder afirmadamente a essa questão. O destino deles seria o casamento, um trabalho extremamente tedioso e filhos. A despedida de solteiro de Arnold trará a tona questionamentos sobre a função do casamento, algo que não deveria ser discutido naquela época. Você casa porque tem que casar e ponto final.

A aparência e a essência se chocam o tempo inteiro em Despedida de solteiro. Na aparência Charlie (Don Murray) tem um casamento muito feliz, sua esposa Helen (Patricia Smith) está grávida e ele estuda à noite. A essência nos mostra o contrário, um homem apavorado que de repente se vê confrontado com as reais dificuldades de um casamento. As contas para pagar, um filho vindo por aí… Ninguém havia dito que seria difícil assim, pois afinal de que serviria à manutenção do casamento dizer a verdade? Não, meu filho, casamento é amor, um bonito jardim e filhos. Será mesmo? Não é o que Charlie presencia em casa.

Os tiros de metralhadora simplesmente não param em Despedida de Solteiro. Cada cena parece corroborar a mensagem do filme: o casamento não é esse conto de fadas que os filmes de Doris Day tanto adoravam mostrar. A hipocrisia caminha de mãos dadas com o casamento, quer dizer, você finge que não sabe que seu marido a trai e tudo bem. Julie, cunhada de Helen, relata o caso de seu marido, um médico, com uma paciente como se fosse algo normal. Espere estar 11 anos casada, é o que ela diz depois de ouvir Helen enaltecer Charlie. A traição parece justificável aos olhos das personagens, uma vez que o casamento é uma instituição falida. A infidelidade é intrínseca ao casamento, basta ver a personagem Eddie (Jack Warden) que primeiro liga para a esposa no trabalho e depois para suas amantes. Isso na frente dos colegas de trabalho!

A sensação que tive ao assistir Despedida de solteiro era de que houve uma tentativa de criação de um sentimento de compaixão em relação aos homens. Como se o filme estivesse, indiretamente, justificando as ações deles. Coitadinhos, eles sofrem com o casamento tanto quanto as mulheres e aí traem mas são gente fina, elegante e sincera lá no fundo. Além disso, o filme parece querer tornar a vida dos homens mais difícil do que realmente era. Homens e mulheres estavam presos ao casamento nos anos 50, sim é verdade, porém não podemos negar que ainda sim as mulheres sofriam muito mais as consequências. Se elas saíssem da linha, se traíssem seus maridos, ficariam faladas na vizinhança e seriam a desgraça de sua família. No entanto, se a traição vem de um homem ela é normal. As esposas sabem que são traídas e se conformam com isso. Os homens estavam presos ao casamento, sim estavam, só não eram julgados o tempo inteiro como as mulheres. Não tinham suas escolhas limitadas. Que nada! Eles podiam trabalhar e estudar, como a personagem Charlie.Uma mulher pode fazer o mesmo, só tem de estar preparada para sofrer as consequências.

Um homem simplesmente é enquanto uma mulher precisa estar o tempo inteiro se justificando para a sociedade.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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