007 contra Goldfinger (1964)

007 contra Goldfinger (1964)

Entre os muitos dramas da minha vida figura o de não conseguir preencher todas as lacunas de filmes que gostaria. Ainda falta muito para ver, sempre faltará. No sábado passado, lá estava eu vivendo o dilema de escolher o próximo filme para ver – e vocês sabem que muitas vezes nós passamos mais tempo escolhendo do que vendo – quando me ocorreu a ideia de assistir um dos filmes da franquia 007. Só havia assistido ao último filme da franquia, Skyfall, e essa me pareceu uma boa hora para criar vergonha na cara e ver os filmes antigos.

007 contra Goldfinger me surpreendeu positivamente em vários aspectos, ainda que em outros tenha despertado a minha ira. Senta que lá vem história!

Se tem algo fascinante nos filmes de 007 são as aberturas. Alguém aí lembra da abertura do último filme, Skyfall, cantada por Adele? E daqueles créditos sensacionais? Pois é! Em 007 contra Goldfinger temos a maravilhosa Shirley Bassey cantando o tema de abertura, Goldfinger. Cenas do próprio filme são projetadas no corpo de uma mulher pintado de dourado e de biquíni. Embora tenha adorado a abertura, algo me incomodou. Depois, conversando com uma amiga, me dei conta do que era: a mulher de biquíni. Vocês sabem melhor que eu o quanto as mulheres são objetificadas nos filmes de 007 e aqui já começamos pela abertura. Aquela modelo, sem nome, tendo uma bola de golfe correndo para dentro de seus seios! Os créditos de abertura estavam sendo projetados para Shirley Bassey enquanto ela gravava a canção. Ao final, ela segura a nota final e isso aconteceu por que os créditos continuaram rolando e Bassey se viu obrigada a continuar cantando. Quase desmaiou.

Esse foi o terceiro filme da franquia James Bond e embora tenha querido se afastar da proposta política, ele não consegue. A história de Auric Goldfinger (Gert Fröbe),um milionário que quer tornar todo o ouro dos EUA radioativo para criar uma crise mundial, se mistura com o próprio contexto da Guerra Fria. Talvez não seja tão direto quanto Moscou contra 007 mas os elementos de sempre estão ali: americanos bonzinhos versus o mundo comunista dos mauzões. Se os planos de Goldfinger dessem certo, o Ocidente cairia. E isso seria uma chance para os comunistas comedores de criancinhas dominarem o mundo e imporem seu sistema tenebroso aos olhos dos norte-americanos. Não é surpresa que o aliado de Goldfinger seja uma personagem asiática (que sequer nome tem), reforçando estereótipos de quem era bom ou mau naqueles tempos. Poderíamos aplicar o conceito de etnocentrismo – a minha cultura é boa e a sua é atrasada –  aos filmes de oo7 sem problemas. O etnocentrismo está escondido nos próprios inimigos de James Bond. Quem são eles? Os russos, asiáticos… tudo que os norte-americanos consideravam atrasados!

A cena mais famosa de oo7 contra Goldfinger é a que Jill Masterson (Shirley Eaton) aparece morta, de bruços na cama e coberta por uma camada de ouro. Ela era aliada (e possivelmente amante também) de Goldfinger e James Bond acaba passando uma noite com ela. Uma morte tão cruel não me parece fruto do acaso. A relação entre ouro e mulher é inevitável: ambos um objeto “valioso”. Jill era apenas um objeto para Goldfinger. Ele a via como ouro, algo que você pode malear como quiser. Trata-se de uma vingança de Goldfinger por James Bond ter se apropriado de certa forma de algo que era seu

Pussy Galore (Honor Blackman) é uma personagem que me intrigou bastante. Ela pilota aviões, é aliada do vilão da história e resiste às investidas do nosso garanhão gostosão 007. No livro de Ian Fleming, ela é lésbica e foi inspirada em Blanche Blackwell, amante e vizinha de Fleming. Porém, isso não seria interessante para a trama, uma vez que é imperativo haver romance nos filmes de 007. Ou pegação. Então Pussy tornou-se apenas um osso duro de roer. Aos poucos 007 vai amolecendo o coração da moça até ela cair em suas graças. Por que todas as mulheres tem de ter um romance com a personagem principal? Todas as mulheres que aparecem em 007 contra Goldfinger têm qualquer espécie de flerte com Bond. Quando elas são fodas, como é o caso de Pussy, a sensualidade ofusca suas melhores características. Pussy é hipersexualizada, começando pelo nome, e o fato de ela pilotar aviões e comandar uma esquadrilha pouco importa.

Assistir a 007 contra Goldfinger nos proporciona uma viagem ao que era o cinema nos anos 60. A era clássica estava morrendo e esses filmes tentavam resgatar o interesse das plateias de irem ao cinema, coisa que havia morrido com a chegada da televisão. Fora que é uma aula de como esse meio tentou moldar a mente dos norte-americanos para a Guerra Fria que se desenrolava naquela época.

Curiosidades:

  • Os produtores queriam Orson Welles para interpretar Goldfinger;
  • A reprodução de Fort Knox, lugar onde todo o ouro dos EUA fica guardado, foi recriada no Pinewood Studios na Inglaterra. Ela foi tão bem executada (os produtores não tiveram acesso ao lugar) que o próprio pessoal de Fort Knox parabenizou a equipe do filme;
  • Esse é o único filme de Sean Connery como 007 no qual ele não termina na água – em um barco ou navio.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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