Gretchen – Filme Estrada

Gretchen – Filme Estrada

Quem nunca se pegou cantarolando ou até mesmo dançando Conga, la conga, conga, conga, conga  dando as famosas rodadinhas de Gretchen que atire a primeira pedra. Ela também foi a nossa primeira professora de francês na escola da vida com seu je suis la femme ô ô ô. Se o Brasil é o país dos memes, Gretchen é certamente um deles e até arriscaria dizer que ela faz parte de nossa subjetividade brasileira. Depois de Rita Cadillac ter seu próprio documentário já estava na hora da rainha do bumbum também ter uma parte de sua vida registrada em 35 mm.

A pergunta que você deve estar se fazendo é: por que ela vai escrever sobre Gretchen no Cine Espresso? A cultura brasileira, sobretudo a que chamamos de trash, sempre me fascinou. Na adolescência, comecei a ouvir as canções da Jovem Guarda e foi assim que um leque de possibilidades no que diz respeito à música brasileira se abriu para mim. Acho que foi de minha mãe que ganhei um CD chamado A discoteca do Chacrinha. De um lado era apaixonada por Erasmo Carlos e pela galerinha que gravava discos conceituais no começo dos anos 70; de outro estava berrando os versos de Não se vá de Jane & Herondy. Depois de ler um livro que situava as canções bregas no contexto da ditadura civil militar, minha visão mudou completamente. Nós somos esse amontoado de vivências, uma metade é Gretchen; a outra Gal Costa e assim vamos. Nós somos Gretchen, meus amigos. E é por isso que ela merece estar aqui.  Aliás, aqui cabe outra pergunta: é trash para quem? Quem tem o poder de chamar algo de trash? É trash só por que é do povão?

A figura de Gretchen nos atravessa desde que nos entendemos por pessoas. Quando conheci Gretchen? Não sei. A impressão que tenho é de que ela sempre esteve ali, na televisão, em nossa vida. As poucas palavras que Gretchen disse em suas músicas tornaram-se famosas Brasil afora.

Gretchen – Filme Estrada, ao contrário do que se pensa, não tem o intuito de dissecar o mito Gretchen. Na realidade, o documentário de Eliane Brum e Paschoal Samora, se propõe mostrar a última turnê, que coincidiu com a candidatura da cantora à prefeitura da Ilha de Itamaracá. No entanto, é impossível separar o mito Gretchen desses dois acontecimentos. Na verdade, é ele quem sustenta o documentário. É apoiando-se na figura de Gretchen que Maria Odete se mostra ao longo dos 86 minutos de Gretchen – Filme Estrada. Sem Gretchen, Maria Odete jamais poderia ter partido rumo a uma empreitada tão inesperada: a candidatura à prefeitura.

O documentário caminha o tempo inteiro na corda bamba. Trata-se de um equilíbrio entre o absurdo e a tristeza. Absurdo ao notarmos o quanto a candidatura de Gretchen estava fadada ao fracasso desde o começo; tristeza ao ver a pobreza da Ilha de Itamaracá e como os moradores são explorados à exaustão no processo eleitoreiro. Embora seja um documentário sobre Gretchen, a crítica política não fica de fora. Sua candidatura à prefeitura não passa de um jogo de interesses e isso fica bastante evidente quando sua vice, Anne, decide abandonar o partido. E não que no final do documentário Anne aparece ao lado do partido opositor ao de Gretchen?

Depois que terminei de assistir a Gretchen – Filme Na Estrada, me peguei pensando sobre a cantora. No fim das contas cheguei à conclusão de que ela é um exemplo feminista mal interpretado. Analisemos os fatos. Ela usa seu rebolado há 30 anos para ganhar dinheiro, o que muitos podem classificar como um meio horroroso de pagar as contas. Porém, Gretchen é dona do seu corpo e faz o que bem entender dele, ou seja, se rebolar é o que a faz feliz quem somos nós para julgá-la? Ela é demonizada, denegrindo a categoria feminina e nesse aspecto ela se aproxima de nós, mulheres. Gretchen, apesar de rica e famosa, não escapou às opressões. É claro que não podemos comparar a opressão dela a das mulheres negras e pobres por exemplo, porém no fim das contas Gretchen, essa figura que amamos odiar, é tão parecida conosco que chega a ser assustador.

Quando falei que somos Gal Costa e Gretchen ao mesmo tempo, quis dizer que ser brasileiro (larga de filosofia, tchê) não cabe em categorias. Somos uma mistura fascinante de diversos elementos e Gretchen é um deles. Sim, dançamos La Conga dando rodadinhas e ao mesmo tempo gostamos das canções de Caetano Veloso. Ou de Ludmilla. Ou de Valesca. Gretchen – Filme Na Estrada é um convite a descobrir nossa brasilidade, escondida nas Ilhas de Itamaracá e Gretchens da vida.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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