Entre livro e filme: Hannah Arendt e a banalidade do mal

Entre livro e filme: Hannah Arendt e a banalidade do mal

No Terceiro Reich, o Mal perdera a qualidade pela qual a maior parte das pessoas o reconhecem – a qualidade da tentação.

Tomei conhecimento do livro Eichmann em Jerusalém através de uma amiga muito querida, que agora é minha colega no curso de História. Falávamos sobre nazismo, assunto que particularmente me interessa muito, quando ela me relatou a existência de um livro escrito por Hannah Arendt  – filósofa alemã que ficou muito famosa ao escrever As origens do totalitarismo –  sobre o julgamento de Adolf Eichmann, um dos caras que esteve envolvido com a Solução Final durante a Segunda Guerra Mundial. Alguns meses se passaram e depois de muita enrolação (leia-se falta de dinheiro) finalmente consegui comprar o livro.

Hoje, antes de escrever este texto, finalmente terminei Eichmann em Jerusalém. Foi uma leitura densa e desafiante ao mesmo tempo, exigindo que muitas vezes eu parasse para pensar naquilo que a autora estava colocando. Apesar disso, gostaria de deixar o meu imenso TE DEDICO! para Hannah Arendt através deste texto, que se pretende um relato pessoal da minha experiência depois de ler e ver o filme sobre o período em que Hannah Arendt escreveu essa obra tão controversa. Não esperem tratados filosóficos sobre o Mal, nazismo e afins. Deixo isso para essa grande filósofa alemã.

Adolf Eichmann foi sequestrado no início dos anos 60 em Buenos Aires por um comando israelense e mandado a Jerusalém para ser julgado por seus crimes contra a humanidade. Ele havia colaborado ativamente para Solução Final, enviando centenas de pessoas para morrer em campos de concentração. Depois do julgamento em Nuremberg esse prometia ser outro evento do século. O livro de Arendt versa sobre esse momento muito peculiar da história, onde um crime sem precedentes seria julgado. Fantasiado de um “enredo” simplório, o de contar a história do julgamento de Eichmann, o livro na realidade mergulha fundo na figura do acusado, para mostrar que ele não era um monstro como muitos gostariam que fosse. Como alguém tão normal quanto ele poderia ter cometido todos aqueles crimes e ainda sim não se sentir culpado? É isso que Hannah Arendt tenta nos mostrar ao longo das 300 páginas do livro.

Já o filme de Margaret Von Trotta trata sobre a escrita de Eichmann em Jerusalém. E aqui a leitura do livro e o filme se fundiram para me deixar ainda mais perturbada sobre o assunto. Uso perturbada aqui no bom sentido, o de balançar todas nossas convicções do que é/seria a natureza do Mal. E se ele existe dentro de cada um de nós. Hannah foi como uma espécie de correspondente para cobrir o julgamento de Eichmann para o The New Yorker e todos achavam que aquilo seria o máximo, afinal que pessoa melhor do que a que escreveu As origens do totalitarismo, além de ser judia, para nos relatar diretamente do front o que estava acontecendo?

Só que a autora relatou não foi bem aquilo que as pessoas gostariam de ter ouvido. Pelo menos não naquela época em que a Segunda Guerra Mundial havia acontecido há apenas 20 anos atrás.

Para os que leram Eichmann em Jerusalém o filme age como um complemento à leitura, elucidando pontos que talvez não tivessem ficado tão claros em um primeiro momento. Para os que não leram o filme consegue deixar você bastante curioso para ler uma obra que fez com que Hannah Arendt fosse acusada de antissemita. E acho que é nesse ponto que Hannah Arendt acerta: ele consegue dar o recado a todos. As teorias da autora são, por vezes, repetidas à exaustão e nem por isso tornam-se menos fascinantes. Ela acreditava que o problema era o sistema e não o indivíduo. Eichmann repetiu diversas vezes no julgamento que só estava cumprindo ordens. Se Hitler tivesse dito que seu pai era um traidor e o mandasse matá-lo, Eichmann o faria. E foi aí que os problemas começaram, pois Arendt acreditava que o acusado não era antissemita. Que ele não odiava os judeus, só estava cumprindo ordens. O Mal é burocratizado e o ser humano é privado daquilo que o torna especial: o ato de pensar. Eichmann, para Hannah, era medíocre e havia muitos como ele.

Imagens reais do julgamento são utilizadas no filme e confesso que senti um arrepio ao ver o acusado falando. Você sente a frieza e o olhar de quem acha que não deve nada a ninguém. Talvez isso tenha despertado ainda mais a ira das pessoas naquela época. O fato é que fica bastante claro que não era Eichmann que estava sendo julgado pelo que cometeu; e sim fatos históricos. Até porque se tivessem julgando o homem talvez ele não tivesse sido condenado à morte.

Hannah Arendt é um filme que merece ser visto, pois sua atualidade é brutal. Penso na situação de ódio supremo que vivemos atualmente no Brasil e no quanto isso tem relação com o que Arendt expôs. Quero dizer, as pessoas vão às ruas pedindo a morte da presidenta e evocando a ditadura civil-militar, acreditando que não há nada de errado nisso. O ódio banalizou-se de tal forma que você odeia sem saber exatamente o que odeia. E aí reside o maior perigo de uma sociedade democrática: o ódio. Manipulando o ódio das pessoas podemos conseguir tudo. Engana-se quem acredita que o nazismo e o totalitarismo pertencem aos livros de história. Essas situações podem muito bem se repetir, em contextos é claro diversificados.

Assistir a esse filme é como assistir a uma parte essencial de nós mesmos retratada na tela.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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