Chinatown (1974)

Chinatown (1974)

Forget it, Jake. It’s Chinatown.

Poucos filmes norte-americanos dos anos 70 casaram tão bem a nostalgia da Old Hollywood com nova geração de cineastas independentes quanto Chinatown. As câmeras Panavision, uma das grandes tecnologias do momento, caminhavam ao lado de uma história que poderia muito bem ter saído de um filme noir dos anos 40. Ou da mente de um Raymond Chandler, quem sabe.

Chinatown coroou a volta de Roman Polanski ao cinema, depois de quatro anos em Roma. Talvez muito de seus sentimentos em relação ao assassinato da esposa, Sharon Tate, estejam refletidos na atmosfera dura e por vezes confusa do filme. Considerado um dos grandes neo-noir do cinema, Chinatown também tornou-se famoso pelas tretas entre Faye Dunaway, uma das protagonistas, e o diretor. O Programa do Ratinho parece mais um programa infantil da Mara Maravilha dos anos 80 quando lembramos que a atriz jogou uma xícara de urina no rosto de Polanski.

Uma vez, duas vezes e por fim três vezes. Chinatown é um filme desafiador e três vezes foi o número necessário para que eu pudesse entender de fato a trama. A história é tão bem construída e cheia de detalhes que você precisa assistir mais de uma vez para ligar os fatos. Isso é reflexo do roteiro maravilhoso de Robert Towne, que teve a ideia de escrever uma história sobre um mistério envolvendo água e energia quando morava com Jack Nicholson. Na realidade, o plano inicial era fazer uma trilogia sobre Los Angeles, começando nos anos 30 e terminando nos anos 50. Com esses filmes teríamos um raio X da cidade, porém o projeto deu ruim. Para nossa alegria sobrou Chinatown, que nos dá uma ideia bastante precisa do que era Los Angeles nos anos 30.

O filme conta a história de Jake Gittes (Jack Nicholson), um detetive particular que começa a investigar a vida de Hollis Mulwray (Darrell Zwerling, o chefe do departamento de água da cidade a pedido da esposa do próprio. No entanto, essa investigação de praxe acaba se revelando uma trama muito mais sórdida do que o detetive pensou. Los Angeles passava por uma seca naquele momento e a construção de uma barragem para combatê-la atravessa a investigação de Gittes. O que teria a morte de Hollis a ver com a seca? Por que um bêbado afogou-se em um lago que estava seco? A resposta para essas perguntas é mais complicada do que aparenta.

Um acontecimento parecido ao da seca em Los Angeles inspirou Towne a escrever a história do filme. Na época, em sua cidade, estava em votação um projeto que destruiria o cânion da cidade. A prefeitura parecia não se importar com o impacto ambiental dessa ação, mas Towne sim. E foi com essa ideia em mente que começou a esboçar as primeiras linhas da história. Ele conta, nos extras da edição especial de Chinatown, que a leitura de um livro sobre a história de Los Angeles abriu seus olhos. Los Angeles roubou a água de Owens Valley e trouxe para San Fernando Valley. Depois o vale foi incorporado à cidade. Semelhança pouca com Chinatown é bobagem!

Por que Chinatown é considerado um neo noir? Bem, essa é uma classificação utilizada para filmes “modernos” cujas temáticas se aproximam dos filmes noir dos anos 40 e 50. Polanski nos dá um mistério, um detetive e uma femme fatale de presente. Quer mais noir que isso? Sim! Talvez, para mim, o que há de mais noir em Chinatown seja a personagem de Jack Nicholson. Gittes esconde um passado sombrio, algo que nós vamos saber lá pela metade do filme. O título do filme está ligado a esse passado, pois fora em Chinatown que algo de marcante aconteceu ao personagem. Além disso, o detetive é uma mistura de Sam Spade – personagem do romance policial O falcão maltês e imortalizado por Humphrey Bogart no cinema –   e Philip Marlowe –  o detetive de Raymond Chandler. Jake tem a dureza de Spade e as sacadas sensacionais de Marlowe. Um de seus momentos mais espirituosos é a discussão com Evelyn Mulwray (Faye Dunaway) acerca do mistério da morte de Hollis, após ter tido o nariz retalhado pelo personagem de Roman Polanski:

Sra.Mulwray, eu gosto do meu nariz. Gosto de respirar através dele e ainda acho que você está escondendo alguma coisa.

 Este texto não seria o mesmo se não falássemos sobre os bastidores de Chinatown. História é o que não falta!

A química que vemos entre Noah Cross (John Huston) e Gittes é fruto da relação super amiguxa que Huston e Nicholson tinham. Naquela época, Jack namorava com a filha do diretor, Anjelica Huston. John encontrou no ator um companheiro de biritas. Lembro que o documentário sobre Uma aventura na África comenta o gosto pela bebida de Huston; ele passava dias bebendo com Humphrey Bogart nos bastidores.

A treta entre Roman e Faye também é lendária. Ela tinha dúvidas quanto à motivação de sua personagem e Polanski não estava a fim de esclarecê-las. Só diz as porras das falas. Sua motivação é o seu cachê. – ele teria dito a ela. Em outro episódio lendário, Roman levou uma xícara de xixi na cara (Ra Ra Ra Ratinho, todo povo tá ligado em você)  da atriz.

A edição norte-americana de colecionador de Chinatown é linda! Dá gosto de ver que os extras não são apenas o trailer do filme. Temos quatro mini documentários de aproximadamente 20 minutos contando os bastidores do filme: Chinatown: The Beginning and The End, Chinatown: Style, Acting Chinatown e Chinatown: the classic. E o que dizer dessa capa? Poderia ficar horas observando o lindo rosto de Faye Dunaway.

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E aí, que tal assistir a esse clássico de Roman Polanski para comemorar o aniversário desse grande diretor?!

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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