A Árvore da Vida (1957)

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Em 2011, eu estava debatendo com amigos sobre a complexidade da trama do filme “A Árvore da Vida” estrelado por Brad Pitt, concorrente em diversas categorias no Oscar daquele ano e a mãe de um deles passa e comenta “esse não é aquele filme da Elizabeth Taylor e Montgomery Clift nos anos 50?”.

Pra minha surpresa, pouco tinha escutado falar de “Raintree County” (A Árvore da Vida, no Brasil) lançado em 1957 e dirigido por Edward Dmytryk. É a segunda parceria de Elizabeth Taylor e Montgomery Clift, que eram amigos inseparáveis desde a primeira vez em que trabalharam juntos em Um Lugar ao Sol, seis anos antes.

Nesse período ocorreu o acidente sofrido por Montgomery Clift, que saiu embriagado de uma festa na casa de Elizabeth Taylor e bateu seu carro de encontro a um poste, na Hollywood Hills, estrada íngreme e cheia de curvas, que já serviu de locação para diversas cenas de corridas e perseguições no cinema. Monty já lidava com suas próprias inseguranças, teve seu rosto desfigurado e quase perdeu a vida. Sua depressão e o consumo cada vez maior de álcool e drogas deu início ao “mais longo suicídio de Hollywood”.raintree cast“A Árvore da Vida” era um projeto dos sonhos para o produtor Dore Schary, o ator Rod Taylor (que ficou mais conhecido por seu papel em Os Pássaros, de Hitchcock) ainda estava na luta por melhores papéis e fez campanha no estúdio até ser escalado. O time de coadjuvantes conta também com Agnes Moorehead (a hilária e maléfica Endora da série A Feiticeira) e Tom Drake (o inesquecível boy next door de Judy Garland em Meet Me In St. Louis). Montgomery Clift não se impressionou com o roteiro, mas estava animado em trabalhar com Liz Taylor novamente.

A abertura é ilustrada com desenhos do Condado de Raintree e a música sobre a lenda que ronda a cidade. Johnny (Montgomery Clift) é estudante e aspirante a escritor sem maiores ambições e fica bastante interessado sobre o mito de Raintree (ou árvore da vida) que dá nome ao condado. O professor de sua classe fala sobre a existência de uma árvore cujo fruto é o amor e que quem encontrá-la descobrirá os mistérios da vida e alcançará a grandeza. Os céticos apenas dão risada, mas os superticiosos nunca perdem a esperança de encontrá-la. Johnny é um idealista e não pretende perder a esperança tão cedo.

raintreeelizabeth2O rapaz tinha uma amizade colorida com a interessada Nell Gaither (Eva Marie Saint), mas logo é atraído por Susanna Drake (Elizabeth Taylor), uma garota de família rica que está de passagem pela cidade e se vê apaixonada por ele. Em seguida, Johnny descobre que Susanna sofre de paranóia, entre outros conflitos psicológicos. Mesmo sendo alertado por vizinhos e pela própria família de Susanna sobre seu estado, decide se casar com ela. Parece realmente curioso que uma moça tão bonita ainda fosse solteira, acontece que em sua cidade natal as pessoas sabiam o suficiente sobre ela. Susanna é atormendada pela terrível lembrança de um incêndio que matou seus pais e Henrietta, uma mulher negra que a criara como sua própria filha.

A trama é baseada em um romance publicado por Ross Lockridge, Jr. em 1948 e não teve uma adaptação satisfatória, na minha opinião. Diversas reviravoltas no roteiro me pareceram abruptas, mesmo que o filme tenha quase três horas. A guerra civil e a opinião dos personagens sobre a abolição da escravatura e outros temas importantes são pouco explorados.

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Apesar do sucesso nas bilheterias, a arrecadação de “A Árvore da Vida” não foi suficiente para compensar o alto custo da produção e causou um prejuízo de $484,000. A danada da MGM investiu pesado em tecnologia, esse foi o primeiro filme rodado em Widescreen de 65 milímetros, processo que o estúdio chamava originalmente de “Câmera 65”. Mais tarde evoluiu para o Ultra Panavision 70 e foi utilizado na produção de Ben Hur lançado em 1959, também pela MGM.

Os sets extravagantes e o atraso nas filmagens devido aos problemas com Monty e Elizabeth, fizeram com que o filme se tornasse o mais caro lançado pelo estúdio, até então. Em consequência disso, Dmytryk nunca mais voltou a dirigir para a MGM.

Na época das filmagens, Elizabeth Taylor deu uma festa em sua casa em Beverly Hills, a residência ficava no topo de uma colina cercada por uma estrada bastante perigosa. Por volta das onze e meia da noite, Montgomery Clift estava embriagado e sentindo-se cansado decidiu ir pra casa. Clift não era um grande motorista e já havia apagado na direção algumas vezes, então pediu para o amigo de longa data Kevin McCarthy guiá-lo. Cada um em seu carro, Kevin saiu na frente sendo seguido por Monty. Kevin assustou-se com a proximidade do carro do amigo, que dirigia muito próximo a ele, então decidiu afastar-se um pouco. Monty acelerou tentando alcancá-lo, perdeu o controle do veículo e bateu com força em um poste telefônico.

Kevin conta em um documentário que quando se aproximou do carro não escutou nenhum tipo de som, Monty estava coberto de sangue, inconsciente e ele temia que estivesse morto. Decidiu voltar a casa de Liz Taylor para pedir ajuda, quando retornaram perceberam um movimento dentro do carro, mas a porta estava emperrada e não conseguiam abrir. Então de alguma forma, Elizabeth conseguiu entrar pela porta traseira e Monty tentava dizer a palavra “dente”. Ela percebeu que ele estava engasgando em seu próprio sangue, então colocou a mão em sua garganta e conseguiu retirar dois dentes que o estavam sufocando.

Montgomery Clift estava com o nariz e o maxilar quebrados e foi descrito com uma “massa de sangue sem feições distintas”. A produção de “Raintree County” foi suspensa, Monty teve seu rosto reconstruído cirurgicamente e dois meses depois decidiu terminar o filme. Os executivos estavam preocupados com o orçamento e ironicamente Monty os tranquilizou dizendo que o investimento valeria a pena. As pessoas não perderiam a oportunidade de ir ao cinema conferir os danos do acidente, ele estava certo. Quando retornou as filmagens, Clift sentia muitas dores, tomava analgésicos fortes e bebia mais do que nunca. Por mais que a reconstrução de seu rosto fosse impressionante para a medicina da época, sua vida nunca mais foi a mesma ao perceber com 36 anos de idade que não tinha mais a beleza que o caracterizava.

Em uma tocante homenagem do TCM a Montgomery Clift, Elizabeth Taylor narra que Monty foi seu melhor amigo e que o acidente pode ter tirado a “delicadeza de seu rosto, mas não a beleza”. “A Árvore da Vida” certamente não é a melhor parceria da dupla, apesar de ter sido indicado a quatro prêmios da Academia. Imagino que o caos tenha tomado os bastidores em diversos momentos. O que sabemos de fato é que Monty e Elizabeth adoravam trabalhar juntos e é sempre maravilhoso vê-los em cena.

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Escrito por Guilherme

Still tryin' to find my place in the sun.

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