Vida contra vida (1953)

Vida contra vida (1953)

Os anos 50 foram uma época difícil para as atrizes do cinema clássico que começaram suas carreiras no final dos anos 20 e início dos anos 30. A televisão erguia-se como um meio poderoso de comunicação, capaz de roubar a supremacia do cinema. Além disso, essas atrizes chegavam aos 40 ou 50 anos com o título de “velha demais para o papel X” tatuado no rosto. Um papel realmente bom tornou-se difícil, especialmente para as que não aceitavam fazer o papel da mãe da mocinha por exemplo. Não para Barbara Stanwyck. Essa canceriana, aniversariante de hoje, parece não ter se intimidado com o título de “velha” estampado em seu rosto. De mãe da mocinha até pistoleira-dona-dessa-merda-toda ela fez dos anos 50 um lindo período de sua carreira, em que trabalhou com nomes de peso como Samuel Fuller.

Vida contra vida (Jeopardy em inglês) é um exemplo feliz de como Missy conseguiu reinventar-se e reafirmar o título de uma das maiores atrizes do cinema clássico.

Na realidade, o meu plano era homenageá-la aqui no Cine Espresso escrevendo sobre suas dobradinhas ao lado de Henry Fonda. Estava convicta e inclusive pronta para reassistir/assistir aos filmes que esses dois lindos fizeram juntos quando Vida contra vida apareceu. Como fã doente que sou, tenho um caderninho onde marco os filmes dessa linda aos quais já assisti e Jeopardy era um dos que imaginei que não veria tão cedo. O negócio é raro pra burro.

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Fã doente detected!

Nos primeiros 15 minutos de filme já havia desistido de Henry Fonda e Missy.

Mais 15 minutos e eu berrava dentro do banheiro da minha casa (sim, você não leu errado, eu assisti ao filme no banheiro por motivos de o sinal da internet pega muito melhor nesse cômodo).

E valeu a pena cada minuto dentro do meu banheiro!

Jeopardy conta a história de Helen e Doug Stilwin (Barbara Stanwyck e Barry Sullivan respectivamente), uma família comercial de margarina que decide ir viajar com o filho pequeno, Bobby. A narração de Helen – algo bastante comum nos filmes noir – nos situa nessa história enquanto a câmera de John Sturges nos leva às paisagens dos desertos norte-americanos. Até aqui um começo bastante atípico para um filme noir, não é mesmo? Só que não seria um filme desse gênero se, lá pelas tantas, algo não desse ruim: Doug prende a perna em um tronco no mar ao tentar resgatar o filho que ficara preso no píer. Eis o problema do filme: se eles não conseguirem tirá-lo de lá, a maré subirá e Doug morrerá afogado. Só resta a Helen sair em busca de ajuda enquanto Bobby toma conta do pai.

Nosso casal comercial de margarina.

Para piorar o que já estava ruim, a personagem consegue ajuda de um ladrão! Helen torna-se prisioneira dele ao passo que seu marido luta para permanecer vivo.

É interessante como Jeopardy representa de forma significativa a classe de filmes noir dos anos 50. Histórias rodadas em locação, um sentimento de impotência e até mesmo de paranoia, o absurdo e a inescapabilidade do destino são algumas tônicas das produções dessa época. Doug fica com as pernas presas em um tronco, um acontecimento completamente inesperado sobre o qual ele não tem controle algum. Jeopardy dialoga, de certa forma, com O mundo odeia-me (The Hitch-Hiker) e A morte num beijo (Kiss me deadly); todos esses filmes mostram como situações corriqueiras do dia a dia podem simplesmente sair do controle e serem até mesmo mortais.

Assistimos à desintegração dessa família comercial de margarina norte-americana, que exposta a uma situação extrema tem de abrir mão de seus valores se quiser sobreviver. Está nas mãos de uma mulher a salvação da família no filme e este fato não pode ser ignorado. Embora já estivessem no mercado de trabalho devido às necessidades de sustentar a casa durante a Segunda Guerra Mundial, as mulheres ainda desempenhavam um papel minúsculo na sociedade. Helen é a instituição do casamento em pessoa: fiel ao marido, uma boa mãe para o filho. Porém, no momento em que está refém do ladrão ela percebe que terá de se despir dessa máscara se quiser salvar Doug. Joga fora no lixo toda a “decência”. Seduzir o ladrão para convencê-lo a salvar o marido, aí vamos nós! Helen toma consciência do poder do seu corpo e o usa para conseguir o quer. Sob esse aspecto, ela transgride os valores de uma sociedade patriarcal que regula o corpo da mulher, dizendo o que deve ou não fazer com ele.

Alguém falou tensão sexual?

A tensão sexual entre Helen e Lawson (Ralph Meeker) o ladrão é um dos pontos mais legais desse filme. É incrível como Barbara Stanwyck consegue mudar de personalidade tão rápido! Sua expressão corporal está diferente, ela está atirada no banco carona, fumando um cigarro atrás do outro com um ar arrogante e desafiador. Missy incorpora traços de sua personalidade que ficariam mais evidentes nos filmes que fez nos anos 50: um misto de dureza e fragilidade. Ninguém misturou tão bem as ditas características associadas ao feminino e masculino quanto ela. Ela é a mulher com a pistola na mão, a chefe de toda essa bagaça e das respostinhas mal educadas aos homens que tentam intimidá-la. De repente, demonstra sensibilidade nos momentos em que ninguém espera e chora. Barbara Stanwyck mostrava através de seus papeis que as mulheres podiam ser o que quisessem e que não deveriam se prender a rótulos.

CHAMA O SHAMU!

Além disso, The key to the killer, primeiro episódio do programa de Barbara Stanwyck nos anos 60, tem um plot parecido ao de Jeopardy: uma mulher fica algemada a um ladrão e precisa rebolar (Sandy & JR, alguém?) para não perder a cabeça e sobreviver.

Por que ver Jeopardy? Para não cair no clichê e dizer BARBARA STANWYCK ORA BOLAS, diria que esse filme é uma das grandes provas de como um roteiro bem escrito faz toda diferença em um filme. No fim das contas, a trama é tão boa que supera a pobreza do orçamento. Quantos filmes de tipo A não acabam se transformando em grandes flopagens? Muitas produções se esquece de que o roteiro é o alicerce de um filme. Não se preocupe, você não corre esse risco com Vida contra vida. Aqui temos tudo que esperamos: boas atuações, bom roteiro e ansiedade. E a boa notícia é que ele está disponível online no site Memocine! É só dar o play e correr pro abraço!

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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