Perdas e danos (1992)

Perdas e danos (1992)

A ousadia de Louis Malle ao tratar de temas polêmicos em seus filmes não é algo que ocorreu tardiamente, e sim ao longo de toda sua carreira. Desde seu primeiro filme Ascensor para o Cadafalso (1958) e em tanto outros, Malle sempre abordou temas controversos, como por exemplo: a liberdade sexual feminina, o suicídio, o incesto e a pedofilia. Desde que Os amantes (1958) foi lançado e censurado em alguns países, vemos  um diretor que não se deixou abater pelas pressões da sociedade.

jeanne

Perdas e Danos claro que não foge desse padrão e se em 1958 tivemos a cena acima, imagina em 1992. Penúltimo filme de Malle, que veio a falecer três anos depois de seu lançamento, traz Juliette Binoche, Jeremy Irons, Miranda Richardson e Rupert Graves nos papéis principais.  Baseado no romance de Josephine Hart, apresenta-nos a história de Stephen Fleming, ministro do parlamento inglês, que tem a típica família conservadora, composta por seu filho mais velho Martyn, a pré adolescente Sally e a esposa Ingrid. Família perfeita, até a noticia de que o filho está com uma nova namorada, Anna Barton.  Mas porque a namorada do filho estaria causando problemas à família? 

familia

Anna é um tipo incomum de mulher, rosto angelical, olhar enigmático e muitas vezes triste; ela não é uma femme fatale de filme noir, mas tem o mesmo potencial de uma. E é ai que esta o X da questão: o político membro da família conservadora vai viver um triângulo amoroso com a nora, então inicia-se assim uma dupla traição. Como disse, Anna é uma mulher enigmática e não sabemos quais são suas reais intenções, alias não querendo dar spoiler, mas já dando eu não consegui mesmo ao final do filme descobrir qual o real objetivo dessa mulher, é algo estranho a se dizer, porém é uma personagem realmente complexa ao meu ver.

Em uma das primeiras cenas do filme, vemos a mulher de Stephen, Ingrid, cozinhando e ele chegando de mais um dia de trabalho. Aparentemente não há motivos para um caso, o casal parece estar em plena harmonia, no entanto é a ida de Stephen a um coquetel e a aparição de Anna que vão nortear todo o resto da história. Anna chega ao coquetel com um único objetivo: apresentar-se ao sogro. Mas para isso ela usa um método de sedução e não desvia o olhar do sogro, que corresponde. A tensão sexual entre eles é evidente! Anna não esta querendo apenas uma pequena apresentação; ela quer algo a mais e todos percebemos isso. Isso fica ainda mais claro quando no dia seguinte Martyn leva a namorada à casa dos pais e ela finge não conhecer Stephen.

Após essa segunda apresentação, Anna liga para Stephen e marca um encontro em sua residência. Ele vai e é nesse encontro que acontece uma das mais intensas cenas de sexo que já vi em filmes. O mais interessante da cena é que Malle captou o desejo de ambos os personagem, não há diálogos, não há musica, os atos se concretizam mostrando o prazer que um sente pelo outro. Aliás, todas as cenas de sexo que ocorrem entre eles são assim, muito intensas e nos passam a sensação de serem muito verdadeiras. Uma curiosidade, é que reza a lenda de que Irons acabou se empolgando um pouco nessas cenas, o que fez Binoche pedir para interromper as gravações algumas vezes.

perdas

São ao longo desses encontros que Anna vai revelando um pouco sobre seu passado e em uma dessas conversas ela conta sobre o suicídio do irmão e uma possível relação incestuosa entre eles. Aston, o irmão de Anna, segundo ela conta era apaixonado por ela e não suportava vê-la com outros homens – me lembra muito a relação incestuosa de Os sonhadores (2003), em que a personagem de Eva Green tem um acesso de loucura, pois o irmão leva uma amante para casa – e acaba pondo fim a sua vida cortando os pulsos. Analisando a relação que se estabelece entre ela e Stephan, conseguimos ver que ele está possessivamente obcecado por ela, tal qual o irmão uma vez esteve e isso é algo que desde o ocorrido deixa-a em alerta.

Lembre-se, pessoas sofridas são perigosas, sabem que podem sobreviver. – Um aviso de Anna para Stephen.

O envolvimento dos dois chega ao ponto de Stephen ir a Paris atrás do casal e ligar para quarto de Anna sendo que o filho atende e passa a ligação. Ela se encontra com ele e eles transam na entrada de uma capela, em plena luz do dia, com a possibilidade de qualquer um aparecer. É como se Stephan não estivesse se importando com a traição ou mesmo com a figura pública e importante que é. Muito menos com a esposa, tratando a relação entre pai e filho como se não fosse tão importante. Conseguimos ver isso quando em um jantar em família  Martyn faz uma critica à ausência de seu pai e também a classe social na qual esta inserido, lembrando-o de que mesmo que ele tivesse todos os finais de semana mais perfeitos na casa interiorana da família, a ausência do amor do pai ainda é algo que pesa em seu ser.

Outro ponto importante do filme é o sexto sentido das mães de Martyn e de Anna, que é interpretada por Leslie Caron. Ambas, desde que aparecem no filme, dão indícios de que algo muito grave vai acontecer. A primeira não vai com a cara da nora no momento em que coloca os olhos nela, é como se ela de certa forma percebesse as atitudes dúbias da moça. A segunda, em um jantar entre as famílias, mostra o padrão de namorados que a filha escolhia desde a tragédia com o irmão, sempre seguindo o físico do namorado com quem ela estava na época. Martyn é a cara do irmão morto e isso gera uma surpresa em todos. O anúncio de que algo de errado estava acontecendo e que só iria piorar estava debaixo dos olhos de todos o tempo todo.

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Malle dirigindo Juliette Binoche e Jeremy Irons.

Como boa parte dos filme de Malle, o teor de polêmica envolvendo a trama é tão grande que realmente não conseguimos nos posicionar a respeito, porém o fato de pensarmos sobre o assunto é relevante como forma de aproveitá-lo da melhor forma possível. Perdas e danos é isto: um belo filme que mostra a complexidade das relações humanas e a decadência de um homem que é envolvido por uma mulher. O título em inglês Damage (dano) não poderia ter sido tão bem escolhido. Espero que gostem.

Escrito por Patrícia

Futura graduada em administração de empresas, mas que malemá administra duas páginas no Facebook.Viciada em velhas como Jeanne Moreau, Bette Davis, Meryl Streep e tantas outras que cansaria para listar. Amante de tudo que envolva o cinema e que sonha em fazer disso não só um hobby, mas uma profissão.

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