Entre novela e filme: A Sucessora (1978) e Rebecca, a mulher inesquecível (1940)

Entre novela e filme: A Sucessora (1978) e Rebecca, a mulher inesquecível (1940)

A vida do fã é basicamente dar tiros no escuro e torcer para acertar o alvo. Ao me apaixonar por Nathália Timberg e seu trabalho eu sabia que venderia minha alma ao capitalismo em algum momento para comprar tudo que estava disponível sobre ela na internet. Cá estou nesta difícil jornada de descrever tudo que senti ao assistir aos 30 primeiros capítulos de A Sucessora, novela de 1978 estrelada por essa grande atriz.

Espera aí… mas isso daqui não é um blog sobre cinema? Por que então falar sobre novela? Qual é a lógica?

Tudo a ver, meus amigos, tudo a ver. Isso porque A Sucessora dialoga com um dos filmes mais célebres do cineasta Alfred Hitchcock: Rebecca, a mulher inesquecível.

compacto a sucessora 1A Sucessora estreou em 1978 no horário das seis. Foi escrita por Manoel Carlos, inspirada no livro homônimo de Carolina Nabuco. Nessa trama temos a história de Roberto Steen (Rubens de Falco), um milionário do RJ, que vai até a Fazenda Santa Rosa averiguar se aquelas terras valem a pena serem compradas ou não. A filha da dona da fazenda é justamente nossa mocinha, Marina Stein (Susana Vieira, muito antes de tirar o microfone da mão de apresentadoras de televisão). Marina e Roberto são como fire meet gasoline, aquela canção da Sia, e a atração entre eles é imediata. Ela, desde o primeiro capítulo, parece fascinada com Alice, a viúva do milionário, uma mulher que todos afirmam ter sido inesquecível. Os dois pombinhos acabam se casando e Marina vai morar na mansão Steen. Como nem tudo são rosas, ela encontra resistência da parte de todos: da irmã de Roberto, Germana (Arlete Salles); dos amigos de Roberto e principalmente da governanta, Juliana (Nathália Timberg).

Pausa para: EI, MAS ISSO DAÍ NÃO É REBECCA?

Pois é. Existe uma treta envolvendo Carolina Nabuco e Daphné du Maurier, autora de Rebecca. A primeira afirma ter sido plagiada pela segunda. Carolina escreveu A Sucessora no começo dos anos 30 e reza a lenda que teria mandado o manuscrito para os EUA querendo obter a opinião de outros autores. Du Maurier teria lido e copiado a base da trama de Nabuco. Além disso, circula um disse-não-me-disse de que na época em que o filme de Alfred Hitchcock estava prestes a ser lançado, os advogados do diretor ligaram para a autora tentando um acordo. Quer dizer, eles sabiam que a treta poderia ficar maligna para o lado deles caso Carolina optasse por processá-los. O importante de toda essa confusão é que a novela não perde nada para o filme.

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Daphné du Maurier

Por que vamos amar A Sucessora?

Você que aguentou ler este texto até aqui merece saber por que amar/começar a assistir A Sucessora. Para começar, é uma viagem ao que eram as novelas antigamente. É um mundo inteiramente novo, a atuação das personagens é por vezes bastante teatral e naquele português de 1978 que é estranho aos ouvidos. Ao assistir a essa novela você se pergunta: por que não temos mais novelas assim? O que aconteceu às novelas brasileiras? Parece-me que falta talento nos autores ao amarrar as personagens à trama de uma história. Felizmente isso não acontece com A Sucessora.

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O casal protagonista: Marina e Roberto.

Também vamos amar A Sucessora por causa de Nathália Timberg. Juliana, sua personagem, não perde absolutamente nada para a lendária Sra.Danvers de Rebecca, interpretada por Judith Anderson.  Toda vez que ela aparece em cena eu penso neste clássico da MPB: Juliana (a boa).

Ao contrário da Juliana da canção, essa daqui samba – e muito. Em A Sucessora Nathália prova que seu mestrado na Universidade Interpretação de Vilãs foi muito bem aproveitado. Ela é a governanta que vem de brinde com a mansão de Roberto Steen e esconde um segredo nas portas do quarto do qual só ela tem a chave. O que amo nela é sua capacidade de transmitir seus sentimentos sem dizer uma palavra. Por ser empregada da casa ela não se sente no direito de dizer o que pensa, limitando-se a cumprir ordens. Portanto, a maneira como ela manifesta seus sentimentos é através dos carões que faz. E que carões! Somando isso às mãos o resultado é uma personagem extremamente reprimida e rancorosa. Juliana espreme as mãos, aperta-as até perder a força enquanto ouve a nova senhora da casa dizer que quer colocar fogo na mansão para se livrar daquele tormento. Em uma de suas melhores cenas, a governanta fica numa fúria tal que aperta os espinhos de algumas rosas que está segurando até sangrar. Enquanto suas mãos sangram, as lágrimas correm furiosamente de seus olhos. Nathália Timberg é tão boa no que faz que as rosas que usou na cena eram de verdade. Vocês têm ideia que essa mulher rasgou a própria mão em nome da arte? Que atriz, amigos! Manoel Carlos conta que o elenco só descobriu que eram de verdade ao cortar a cena e ver a mão rasgada de Nathália.

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Acadêmicos Nathália Timberg – Categoria: melhor vilã- Nota: deeeeez

Susana Vieira foi um dos elementos mais surpreendentes de A Sucessora para mim. Confesso que nunca fui admiradora feroz de seu trabalho, apesar de ter assistido algumas novelas inesquecíveis que fez como Por Amor e Senhora do Destino. A Susana que eu conhecia era a que dizia que “ninguém é mais poderoso que Deus e eu” e ficou por aí. O que vi em A Sucessora foi uma atriz que consegue se impor em cena, ter uma presença em cena que se choca completamente com o que pensamos sobre uma mocinha. Geralmente elas são idiotas e ingênuas. Nós vamos odiá-las. Só que não dá pra odiar Marina Steen, minha gente! O que Susana nos apresenta é uma mocinha feminista, leitora voraz e que nos momentos certos sabe ser tão afiada quanto uma faca. As cenas de confronto com a personagem de Nathália Timberg são sensacionais, pois Marina não se entrega aos carões da governanta, ao contrário de Joan Fontaine em Rebecca. Acredito que isso também venha da personagem da própria Susana, que jamais deixaria que sua colega lhe roubasse a cena (mas ela rouba mesmo assim, desculpa mundo!).

SUCESSORA

Ninguém é mais poderoso que Deus e eu.

A Sucessora está disponível em DVD pela Globo Marcas. O trabalho de edição da novela é satisfatório e o design do box também. O único problema é que a novela foi editada como se fosse um grande filme, ou seja, você só tem os créditos de abertura uma única vez, o que dificulta a localização do espectador. Por exemplo, assisti a 11 capítulos numa tacada só porque os créditos de fechamento simplesmente não apareceram. Uma boa surpresa é que o box contém extras: depoimentos de Susana Vieira, Nathália Timberg e Manoel Carlos.

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E aí? Vamos assistir a essa grande novela?

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

Comentários

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2 Comentários
  • Alberto Froster disse:

    Olá! Fantástica novela. Fica a pergunta: onde consigo assistir aos 30 primeiros capítulos da novela??

    • Olá Alberto, tudo bem? Obrigada pelo comentário primeiramente. Pois então, atualmente você consegue assistir trechos no Youtube, um canal bem bacana está postando algumas cenas antológicas. Assisti-la completa, infelizmente, só pelo DVD 🙁 Mas fica a dica: vale muito a pena comprar! Um abraço!

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