Anjo do mal (1953)

Anjo do mal (1953)

A Segunda Guerra Mundial influenciou a criação dos primeiros filmes noir dos quais temos conhecimento. No entanto, foi na época do pós-guerra que a produção desse estilo e gênero aflorou de fato. A guerra fria havia instaurado nos americanos o medo do comunismo, do outro e de uma guerra nuclear com a União Soviética. O cinema, como não poderia ser diferente, viu nesses acontecimentos uma oportunidade para contar novas histórias. Anjo do mal (Pickup on South Street) mistura realidade e ficção do jeitinho que só o diretor Samuel Fuller sabia fazer.

O filme conta a história do roubo da carteira de Candy (Jean Peters) dentro do metrô de Nova York. O único porém é que a moça carregava consigo um microfilme roubado do governo americano e que seria entregue aos russos. Para Skip McCoy (Richard Widmark) tratava-se apenas de um roubo habitual; para a polícia uma questão de segurança nacional. Inicia-se então uma caçada à carteira roubada, algo que me lembrou por vezes Relíquia Macabra, em que todas as personagens estão atrás do falcão incrustado de diamantes.

Quando assisti a Anjo do mal pela primeira vez, algo me incomodou. Não parecia um noir, sabe? Houve um estranhamento muito grande, no meu caso porque pensava os filmes noir de uma única maneira. E o que é mais incrível neste gênero/estilo é a sua versatilidade. Podemos ter uma perseguição a um objeto valioso (Relíquia Macabra), amantes que assassinam maridos (Pacto de Sangue, O destino bate à sua porta), roteirista que cai nas mãos de estrela do cinema mudo decadente (Crepúsculo dos Deuses). Todos os filmes citados são noir, mas cada um com uma pitada diferente, um foco diferente,  que dá aquele sabor Sazon todo especial ao estilo. Em Anjo do Mal, Samuel Fuller insere um elemento importantíssimo, que dá a tônica dos filmes noir dos anos 50: a guerra fria.

Mesmo em negócios sujos como o nosso, existem limites.

Essa frase dita pela personagem de Thelma Ritter, Moe, poderia resumir a situação ambígua que se estabelece durante o filme: ser ladrão é ok; comunista não. Negociar com os vermelhos é a pior coisa que alguém poderia fazer em 1953, ou seja, é melhor ser um batedor de carteiras do que trair o governo. O mergulho que o filme faz na paranoia comunista norte-americana não poderia ser mais verdadeiro. Ao saber que o microfilme que carregava na bolsa seria entregue aos russos, Candy fica histérica. Para mim, ela representa o sentimento de medo de tensão pelo qual os americanos passavam naqueles dias. Todos eram vigiados, havia um clima de deduração no ar. Era melhor dedurar do que ser dedurado. Foi por esta razão que muitas pessoas foram investigadas pela HUAC – órgão do governo norte-americano – e indiciadas. O lema era basicamente este: respirou? é comunista.

Moe (Thelma Ritter).

Personagens como Skip McCoy incomodaram J.Edgar Hoover, o bãn bãn do FBI durante 48 anos. O batedor de carteiras é chamado à delegacia para dar satisfações sobre o paradeiro da carteira de Candy e é informado sobre o conteúdo dela. Se ele se recusar a dizer onde o objeto está, consequências inimagináveis podem se produzir nos EUA. Skip apenas responde:

Não apele para a bandeira!

Sam Fuller nos conta nos extras de Anjo do Mal – lançado pela Versátil em seu box Filme Noir – Volume I – que Hoover ligou para Zanuck, o produtor da Fox, e pediu que ele mudasse a fala. Não quero um americano dizendo, em plena guerra fria, que não devemos apelar para a bandeira, teria dito Hoover. A fala original era “Não apele para a maldita bandeira”, Zanuck e Fuller decidiram “abrandá-la” e retirar o maldita. O incômodo de Hoover não era infundado, pois Skip representa o pior tipo de americano que aquela época poderia ter produzido: o que não se importava com nada. A personagem só se importa consigo mesma e se ela momentaneamente vira herói é para salvar a própria pele. McCoy era um péssimo exemplo para as plateias americanas, já que essas deveriam fazer seu dever de cidadãos e cooperarem contra a invasão vermelha.

Anjo do Mal é um mergulho no submundo do crime onde policiais subornam pessoas em troca de informação, tiras espancam criminosos e moças burras envolvem-se em tramas complicadas. A direção cuidadosa de Samuel Fuller faz desse filme um must see do noir, especialmente se você está à procura de mais informações sobre o que acontecia no cinema durante os anos 50. O filme faz parte da nossa primeira promoção, o Cine Espresso bate à sua porta. Corre lá na página do Facebook que ainda dá tempo de participar!

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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