Os homens preferem as loiras (1953)

Os homens preferem as loiras (1953)

But square-cut or pear-shaped
These rocks don’t lose their shape
Diamonds are a girl’s best friend!

 

Os homens preferem as loiras foi a minha primeira incursão no fantástico e fascinante mundo de Marilyn Monroe. Lembro que, naquela época, minha mãe me deu de presente todos os filmes que formariam meu caráter como cinéfila e este clássico de Howard Hawks foi um deles.

Quem me conhece sabe que não sou uma pessoa chegada em musicais, mas existem algumas coisas nessa vida pelas quais você abre uma exceção, e uma delas é Os homens preferem as loiras. É impossível não se ver enfeitiçado por Marilyn Monroe e Jane Russell!

Além disso, o que dizer sobre Diamonds are a girl’s best friend? Um número musical tão ou mais icônico do que Gene Kelly e seu guarda-chuva. Não há quem não se lembre do vestido rosa e dos diamantes, seja na imagem da própria Marilyn ou na homenagem de Madonna no videoclipe de Material Girl. Ainda lembro da fita cassete da Madonna que minha mãe tinha em casa e de como eu simplesmente amava dublar Material Girl, correndo de um lado para o outro, imaginando aqueles homens de terno me oferecendo diamantes. Mal sabia que estava imitando mesmo Marilyn Monroe!

O filme conta a história de Dorothy (Jane Russell) e Lorelei (Marilyn Monroe), duas lindas showgirls. A amizade delas é marcada pelo antagonismo: Lorelei é obcecada por diamantes e está à procura de um homem rico para se casar; Dorothy só se envolve com vagabundos sem um tostão no bolso. Lorelei está noiva de Gus Esmond (Tommy Noonan), ingênuo bundão que está disposto a fazer e mundos e fundos por ela. No entanto, o pai do noivo sente o cheiro de cilada de longe e desaprova terminantemente a relação. As melhores amigas acabam de ter de viajar para a França e o  papai do noivo contrata um detetive particular, Mallone (Elliott Reid) para ficar de olho em Lorelei.

Será que a paixão por diamantes de Lorelei irá mantê-la afastada de confusões? Acho que não!

Uma das coisas que mais aquecem meu coração em Os homens preferem as loiras é o sentimento de proteção que Dorothy tem em relação à Lorelei. Em um mundo em que somos ensinadas a enxergar outras mulheres como possíveis rivais, o filme nos brinda com uma relação verdadeira de irmandade. Dorothy poderia muito bem ficar furiosa com o fato de que sua amiga desperta mais atenção que ela, até mesmo com inveja. Porém, o contrário acontece: essa amiga quer proteger a outra das ciladas que esta se mete. Essa amiga ama tanto a outra que até mesmo irá se passar por ela para livrar sua cara de um roubo.

Desmaiada com tanta beleza.

É claro que a sororidade entre Lorelei e Dorothy carrega outra face da moeda: Dorothy quer salvar Lorelei de quê? De se casar com um homem rico, do casamento “sem amor”. Ontem li um texto muito bom que questionava o nosso desejo de salvar nossas irmãs. Até que ponto podemos apontar o dedo na cara de alguém e dizer que essa pessoa está fazendo algo errado? Com isso quero dizer: Lorelei quer ser salva? Não, não quer. Ela ama os diamantes, o luxo e o dinheiro. Há algum mal nisso? Para Dorothy há sim. Uma mulher que não está claramente interessada no amor é um problema. Reassistindo ao filme, percebi como de burra Lorelei não tem nada. Ela está consciente de seu poder sobre os homens, do quanto ela os enfeitiça e se vale desses artifícios para conseguir o que quer. Imaginem esse tipo de coisa em 1953! Logo é preciso combater esse tipo de personagem e a maneira como o filme faz isso é colocando a personagem de Jane Russell como a voz da razão de Monroe. A personagem de Marilyn tem alguns toques transgressores, assim como as femmes fatales dos filmes noir.

Os homens preferem as loiras também esteve como musical na Broadway, estrelando Carol Channing. Marilyn foi assisti-la todas as noites, durante um mês, para se preparar para interpretar Lorelei. Outro fato interessante relacionado ao filme é que o papel da loira era para ter sido de Betty Grable. A atriz recusou e a Fox decidiu chamar a então novata Marilyn. Jane Russell ganhou quase o triplo do salário dela.

Jane Russell conta em uma entrevista de 1992 que na época do filme, a atriz sequer tinha seu próprio camarim e ela só o conseguiu quando fizeram Os homens preferem as loiras. Ainda sobre Marilyn:

She was very sensitive. Super sensitive. She got her feelings hurt, you know, a lot.

Segundo o livro Marilyn – Retrato de uma estrela, a atriz introduziu toques pessoais à personagem. A fala dita por Lorelei “Sei ser esperta, mas a maioria dos homens não gosta” foi um adendo da própria Marilyn. Aqui podemos perceber o quanto a imagem de loira burra perseguiu a atriz durante toda a carreira. Ninguém se lembra do seu gosto por leitura e de seu desejo por papeis mais sérios. Marilyn me lembra bastante Carmen Miranda, outra atriz que ficou presa a um estereótipo. Inclusive as duas pertenciam ao mesmo estúdio, a Twentieth Century Fox. Foi no final da vida que Monroe conseguiu fazer um de seus filmes mais sérios, Os desajustados. Infelizmente morreria dois anos depois, deixando-nos órfãos de uma das maiores estrelas que Hollywood já conheceu.

Curiosidades:

  • No número Ain’t there anyone here for love?, Jane Russell caiu acidentalmente na piscina. Ao ver os copiões Howard Hawks decidiu deixar no filme;
  • O vestido de lamê dourado usado por Marilyn tinha sido usado antes por Ginger Rogers em O gênio na televisão;

Marilyn Monroe e Jane Russell marcando seus nomes no Grauman’s Chinese Theater.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

Comentários

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

                                    
Encontre-nos no Facebook
Filmes por Ator:
                                                                                                                       
Filmes por Atriz:
                                                                                                                       
Filmes por Diretor: