O destino bate à sua porta (1946)

O destino bate à sua porta (1946)

A expressão tocar fogo no cabaré me encanta. Já a utilizei diversas vezes por aqui, mas acredito que ela nunca se encaixou tão bem quanto para descrever os filmes noir. Riscar o fósforo e esperar as chamas consumirem as plateias mais conservadoras (e ávidas por sordidez ao mesmo tempo) é algo que esse gênero consegue realizar com eficácia. Em 1944, Barbara Stanwyck tocou fogo no cabaré ao aparecer só de toalha no alto de uma escada em Pacto de Sangue; em 1946 seria a vez de Lana Turner incendiar o público enquanto a câmera nos presenteia com uma preguiçosa visão de seu corpo em trajes de banho.

Idealizado pela galinha dos ovos de ouro do noir, James M.Cain, O destino bate à sua porta tem tensão sexual, corrupção, diálogos ácidos e valores que a sociedade norte-americana não estava nenhum pouquinho interessada em mostrar. Código Hayes de censura? Que código? Um beijo para o Código Hayes! *Claudete Troiano feelings*

Pois se o cinema norte-americano estava interessado, agora que a Segunda Guerra Mundial havia terminado, em mostrar um pouco de otimismo em seus filmes, O destino bate à sua porta faz tudo ao contrário. E o público adorava essa subversão.

O destino bate à sua porta é baseado em um romance de James M.Cain, a galinha dos ovos de ouro dos filmes noir. Ele ofereceu três ovos, digo plots ao cinema: Pacto de Sangue, Alma em suplício e O destino bate à sua porta. Três dos maiores filmes noir dessa vida são baseados em histórias desse lindo, como não amar?

Lana Turner e James M.Cain.

Cain inspirou-se na história do casal assassino Ruth Snyder e Judd Grey, dois criminosos que denunciaram um ao outro e foram condenados à cadeira elétrica, para escrever The postman always rings twice (título em inglês). Contudo a MGM, embora tivesse comprado os direitos, não conseguia de jeito nenhum adaptar aquela história sem tombar em algum momento com o Código Hayes. Alguns anos tiveram de transcorrer para que a história conseguisse a tão esperada adaptação. E não havia melhor momento do que o pós-guerra para isso acontecer.

As pessoas voltaram da guerra e Hollywood queria animação e otimismo. Enfrentando as pendengas dessa vida pós-guerra com um sorriso no rosto, vamô que vamô. No entanto, o público queria mesmo era sordidez. Filmes como O falcão maltês, Pacto de Sangue Até a vista, querida já haviam trazido atores e atrizes célebres em papéis desprezíveis e a fórmula tinha dado certo. O clima estava propício para essas histórias que deturpavam os valores da sociedade norte-americana, a guerra havia retirado o otimismo daquelas pessoas. Essas tramas funcionam como metáforas de como o mundo realmente era, do pessimismo em relação à vida, algo que a guerra trouxera a várias pessoas.

O destino contém pequenas pistas que nos ajudam a decifrar o fascinante mundo dos filmes noir. Por exemplo, a primeira cena do filme. Nela Frank Chambers (John Garfield), um forasteiro, depois de agradecer pela carona que recebe, vê que um policial parando o carro que ele estava. Da conversa deles só conseguimos ouvir o policial dizer: “Quem você pensa que é?”. Depois que o carro parte, Chambers, curioso sobre o acontecimento, pergunta quem era aquela pessoa que conseguiu se livrar da multa. Resposta: o promotor público. Aqui já podemos ter uma ideia de que o mundo dos filmes noir é um lugar onde a corrupção rola solta. Promotores públicos que se aproveitam de seu cargo para subornar policiais? Temos! Tay Garnett, diretor de O destino, joga na nossa cara o que se tornará evidente ao longo do filme: se você quiser se salvar, terá que jogar conforme as regras.

Frank Chambers, nosso protagonista, chega ao restaurante Twin Oaks querendo um emprego e Nick Smith (Cecil Kellaway), o dono, emprega-o como ajudante no posto de gasolina. Está tudo muito bom, tudo muito bem até a personagem encontrar Cora Smith (Lana Turner), a esposa de seu patrão.

Vamos respirar fundo para falar sobre a primeira aparição de Lana Turner nesse filme.

Lacradora, sensualizando, fazendo todos os forninhos caírem, vindo com o Código Hayes abaixo. Assim é a primeira aparição de Cora. Um batom cai no chão e vai rolando até Frank. A câmera se desloca e preguiçosamente filma debaixo para cima as pernas de Lana Turner. Amigos, que cena! Quando a câmera volta para Cora, percebemos que ela está com roupas de banho. Lembrou-me outra atriz, em outro noir, que explodiu o forno: Joan Crawford e seus trajes de banho em Alma em Suplício. Cora é blasé, não liga muito para o forasteiro e sai de cena magicamente, assim como entrou. Já é tarde demais, Frank caiu no feitiço dos cabelos platinados daquela loura. A última parte da cena mostra o hambúrguer que Nick estava cozinhando para a personagem pegando fogo. A analogia não poderia ser mais genial.

CHAMA O SHAMU!

Os diálogos ácidos e de duplo-sentido também são uma marca de O destino. Frank e Cora brincam de rato e gato até entregarem-se um ao outro e os diálogos ajudam a aumentar o climão. Em um deles o duplo sentido fica evidente:

Você não encontrará nada barato por aqui.

Essa frase é dita por Cora e obviamente ela não estava apenas se referindo às latas de tinta e aos pincéis como também a ela mesma.

MA OEA tensão sexual, assim como na maioria dos filmes noir, é um desafio de entendimento: como o código de censura poderia ser tão estúpido e deixar passar coisas que evidentemente remetiam a sexo? Há duas cenas que causam calafrios, perturbação e risos de quinta série: a primeira é a dança entre Frank e Cora; a segunda é a ida à praia. As personagens dançam tão coladas que você fica o tempo inteiro se perguntando como o marido de Cora, que está tocando violão bem bonito perto deles, não está percebendo nada. Seria o código de censura tão estúpido assim? Já a cena da praia é uma variação da cena da dança, com a diferença de que as personagens estão em trajes de banho e molhadas.

Algo que notei reassistindo ao filme foram os figurinos de Lana. Cora usa roupas de cor branca em 99% do filme e acredito que isso não seja fruto do acaso. O branco representa a inocência, o puro e contrasta com o caráter da personagem. Desejar a morte do marido não é algo lá muito inocente, né? Os figurinos são de um branco que quase reluz, que dá dor nos olhos. Algo muito parecido com o efeito dos azulejos brancos do banheiro de Marion Crane em Psicose.

Lá pelas tantas a tensão sexual explode e começa o romance. Eles estão tão apaixonados que fogem, mas devido às más condições voltam. A única maneira de conseguirem ficar juntos é matando o marido de Cora. Aí de nada mais me lembro, como diria Leila Lopes. O resto fica pela curiosidade de vocês em saber se eles serão bem-sucedidos neste plano ou não.

Curiosidades:

  • James M.Cain ficou muito feliz com a atuação de Lana Turner, tão feliz que lhe presenteou com um exemplar do romance autografado por ele;
  • Há um remake desse filme, protagonizado por Jack Nicholson e Jessica Lange;
  • O destino bate à sua porta é o filme favorito de Lana Turner;

Recentemente a Warner Brothers relançou este filme no Brasil na versão Blu-Ray. Ela é um presente para os olhos, um trabalho de restauração impecável sobretudo nas cenas da praia, que foram filmadas ao livre e estão muito mais nítidas nessa versão. Além disso, o Blu-Ray também conta com extras pra lá de interessantes, como o documentário sobre Lana Turner narrado por sua filha, Cheryl.

Essa edição tão caprichosa de O destino bate à sua porta faz parte da primeira promoção do Cine Espresso, O Cine Espresso bate à sua portae você pode participar dela acessando nossa página no Facebook.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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