Laura (1944)

Laura (1944)

“No Hollywood clássico e Hollywood pós-clássico, eles decidiam por nós. Diziam quem era bonzinho, quem era mau. Preminger, não. Ele deixava o público decidir. E isso era muito sofisticado. Ele acreditava na inteligência do público.”
Dr. Drew Casper (USC Film Professor)

Muito antes de Laura Palmer de David Lynch, existiu o mistério em torno da morte de Laura Hunt, na trama de Otto Preminger, baseado no romance de Vera Caspary. Gene Tierney, Dana Andrews e Vincent Price estavam em ascensão, “Laura” é um daqueles projetos que marca um período memorável para todos que estiveram envolvidos. O elenco de gigantes conta ainda com Judith Anderson e Clifton Webb, que recebeu uma indicação ao Oscar por seu papel no filme. A produção foi indicada a cinco categorias da Academia, incluindo Melhor Roteiro e Melhor Diretor. Acabou faturando o Oscar pela incrível fotografia em preto e branco.

“Laura” é uma das principais referências do filme noir desde que o gênero voltou a ser popular e começou a ser estudado por jovens diretores nos últimos 30 anos. O clássico de Otto Preminger faz parte da primeira promoção do Cine Espresso, numa bela edição repleta de extras, lançada no Brasil pela Cinema Reserve.

Não foi somente Dana Andrews, Clifton Webb e Vincent Price que se apaixonaram por Laura. Nós amamos tudo que se refere ao filme, desde o elenco maravilhoso, o quadro icônico de Gene Tierney na cena do crime, até a primorosa direção de Preminger!

Gene with castA história é narrada por Waldo Lydecker (Clifton Webb), um famoso escritor de tramas policiais, totalmente obcecado por Laura (Gene Tierney). O homem excêntrico, de meia idade, observa o jovem detetive McPherson esperar na sala de visitas para interrogá-lo. A cidade só fala sobre o assassinato de Laura e está em todos os jornais.

Mark McPherson (Dana Andrews) é um tenente investigador, que ficou famoso após lutar e prender um gângster que matou três policiais com uma metralhadora. Waldo se julga a única pessoa que realmente conheceu Laura e foi o último a falar com ela na noite do crime. O homem pede para acompanhar o detetive na investigação, diz que se interessa em estudar as reações humanas ao serem interrogadas e alega a intenção de encontrar inspiração para seu próximo livro.

Os principais suspeitos são: Waldo, Shelby Carpenter e Ann Treadwell. Laura estava prestes a se casar com Shelby (Vincent Price), que parece ter um caso com a Sra. Treadwell (Judith Anderson).

Judith AndersonPausa para falarmos de Judith Anderson: a atriz australiana que participou de dezenas de peças célebres no teatro e que teve uma carreira um tanto quanto limitada em Hollywood, por não corresponder ao padrão de beleza convencional. A veterana participou de diversos filmes, geralmente em papéis de coadjuvante. Lembramos sempre de “Almas em Fúria”, filme em que leva uma tesourada no olho (!) de Barbara Stanwyck. Anderson ganhou mais notoriedade em Hollywood quando recebeu uma indicação ao Oscar pela sua governanta (que dizem, tinha tendências homossexuais) que infernizava a vida de Joan Fontaine em “Rebecca”, no clássico de Alfred Hitchcock. Seu personagem em “Laura” é de uma mulher influenciável, que está sendo usada pelo jovem amante interpretado por Vincent Price. Isso é o que torna Judith tão única, na minha opinião, ela não tinha vergonha de estar sujeita a qualquer coisa.

O investigador interpretado por Dana Andrews parece ser o herói da história, seu maior defeito é se deixar envolver e intrigar pela beleza e o mistério em torno de Laura. Na verdade, não existe malvado e bonzinho nesse filme, a roteiro permite que o público vá tirando suas conclusões. Um aspecto relevante é que não há uma femme fatale nesse Noir, Laura não leva ninguém a destruição, mas parece ter o dom de enfeitiçar todos ao redor. Existe muito mais do que beleza física nela. Gene e a direção de Preminger merecem todos os créditos por isso.

genetierneyhiDepois de conquistar a Broadway em 1940, Gene Tierney chamou atenção do figurão da Fox Darryl F. Zanuck e estreiou no western “O Retorno de Frank James” ao lado de Henry Fonda. O filme foi um sucesso de público, apesar das críticas. Gene ficava acordada até tarde da noite ensaiando suas falas, se esforçava até a exaustão e estava sempre pronta quando era chamada. O estilista Oleg Cassini que foi casado com a atriz, mais tarde declarou “Gene sempre quis fazer todo mundo feliz. O cabelereiro tinha que estar feliz, o rapaz que traria a comida tinha que estar feliz. Eu dizia a ela: ‘Eles são profissionais. Não precisam do seu apoio emocional contínuo. Dê isto a você mesma. Não se preocupe tanto com os outros.'” Gene Tierney se focou no trabalho durante toda a vida, talvez para escapar da instabilidade e sua trágica vida pessoal (que merece um post totalmente dedicado, that’s for sure). Mais do que um rosto inesquecível, que todos diziam ser mais belo na vida real do que nos filmes, Tierney foi um exemplo como profissional e de bondade com quem estava a seu redor.

O papel de Laura foi planejado para Jennifer Jones e o primeiro diretor do filme foi demitido nos primeiros dias de filmagem, Gene Tierney estava convencida de que o filme seria um fracasso e tentou recusá-lo. A atriz tinha somente 24 anos quando interpretou Laura e nos anos seguintes fez mais quatro filmes com Dana Andrews e três com Vincent Price. David Raksin é o responsável pela trilha sonora do filme, e estava especialmente inspirado nesse trabalho, durante a produção ele recebeu uma carta de sua esposa, que estava em Nova York, terminando com o casamento. De fato, parece que o ocorrido transparece na melancólica melodia, que escutamos na abertura do filme. A música tornou-se um clássico e foi gravada por diversos artistas, incluindo Frank Sinatra.

O filme foi um enorme sucesso de público e crítica, tornando Gene uma das estrelas mais requisitadas em 1944. Sua única indicação ao Oscar veio no ano seguinte em “Amar Foi Minha Ruína”, na ocasião perdeu para Joan Crawford que recebeu sua desejada e merecida estatueta por “Mildred Pierce”.

tumblr_nhay01l7dT1sr1ki0o1_400Dana Andrews é a personificação desses caras durões dos antigos filmes policiais, noir e pós-guerra. Sua figura com o chapéu, o sobretudo e o cigarro ajudaram a perpetuar a identidade visual de filmes do gênero. O êxito não se deve somente aos acessórios, o policial interpretado por ele tem uma espécie de tique nervoso, balançando a ponta dos dedos, enquanto estuda a cena de um crime. É tão evidente que Dana estava a vontade, em sua melhor forma, nos cativando na pele do investigador que se deixa envolver pelo mistério de uma garota fascinante, que conhece apenas através de um retrato. “Laura” foi um grande impulso em sua carreira e apesar dele já ter 35 anos na época, seus maiores sucessos no cinema ainda estavam pela frente.

Darryl F. Zanuck não estava feliz com a primeira edição de Preminger para “Laura” e insistiu que ele tivesse um final diferente, no qual toda a história tivesse sido somente um sonho de Lydecker. Felizmente, numa sessão privada da versão de Zanuck, o colunista Walter Winchell se aproximou e disse que não tinha entendido. Foi então que os produtores voltaram atrás e permitiram que Otto Preminger colocasse o fim original que desejava para o filme.

Vincent Price confessou diversas vezes seu imenso orgulho da produção e que “Laura” é um de seus filmes prediletos. Nós também não cansamos de assistir o cinema noir em sua grande forma.

Lauracastreunion

Cast reunion: Dana Andrews, Gene Tierney e Vincent Price juntos em 1983.

Escrito por Guilherme

Still tryin' to find my place in the sun.

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