A briga entre Carl Laemmne e Irving Thalberg

A briga entre Carl Laemmne e Irving Thalberg

Uma parte da história de Hollywood aconteceu atrás das câmeras, mais precisamente nos escritórios dos grandes magnatas dos estúdios. Louis B.Mayer, David Selznick e tantos outros visionários por vezes não parecem boas pessoas aos nossos olhos devido à maneira como exploravam suas estrelas e como tratavam-nas como pura mercadoria. Atraindo nossa empatia ou não, nós não podemos negar que essas pessoas foram muito importantes para a consolidação do cinema, quer dizer, de um modelo específico de se fazer e pensar cinema que morreria nos anos 50 com a chegada da televisão.

Hoje os protagonistas deste capítulo ainda pouco conhecido pela maioria são Carl Laemmle e Irving Thalberg (muito antes de se casar com Norma Shearer e dar origem a todas as tretas por papéis bons na MGM). Com participação especial de Erich Von Stroheim.

Iremos contar a história do impasse entre Irving e Carl, ou seja, de duas visões de fazer cinema bem distintas. Carl, presidente da Universal Pictures, acreditava que o estúdio deveria continuar fazendo pequenos filmes e noticiários enquanto Irving desesperadamente tentava lutar contra o gasto excessivo de dinheiro e mostrar ao seu patrão que os filmes de tipo A eram o futuro do cinema.

Ao passo que os futuros magnatas do cinema iam com a farinha, Thomas Edison já tinha voltado com o bolo. O inventor do cinematógrafo, uma das primeiras câmeras de que se tem conhecimento,  patenteou sua invenção. Agora quem quisesse filmar e produzir filmes teria de pagar a ele pelo empréstimo dos equipamentos . Carl Laemmle, dono da Universal Pictures, revoltou-se contra o trust e decidiu tomar uma atitude ousada: migrar para um lugar longínquo chamado Califórnia. Lá, segundo a lenda urbana, havia terras de sobra para o estabelecimento dos estúdios e o melhor: os impostos eram baixos. Carl pegou suas trouxinhas e foi correndo averiguar.

Thomas Edison.

Depois do nascimento da Universal Pictures, um certo Irving Thalberg, recém saído da universidade, foi trabalhar no estúdio. Sua agilidade e esperteza para os negócios logo o elevaram ao posto de secretário de Laemmle. Conta-se que ele era encarregado de anotar as impressões do presidente durante a exibição de copiões de filmes na sala de projeção, no entanto Thalberg muitas vezes escrevia sua própria opinião sobre eles.

Thalberg e Laemmle tornaram-se bons amigos, o primeiro inclusive até saiu com a filha do chefe. Porém, não tardaria muito para que o impasse entre eles começasse. Naquela época, os magnatas do cinema estavam começando a não só chefiarem o estúdio como também ser donos dos teatros onde seus filmes seriam exibidos. Essa era uma forma de controlar mais uma fatia do mercado e de lucrar mais é claro. Irving queria que a Universal Pictures embarcasse na onda também, mas não havia jeito de convencer Carl. Outro ponto de divergência entre eles dizia respeito aos filmes A, ou seja, às grandes produções do estúdio. O presidente da Universal não queria fazer filmes desse tipo, pois ela já tinha outras preocupações, como fazer noticiários e filmes menores. Laemmle estava mais interessado no público, na questão do marketing, e enxergava o estúdio de forma fragmentada. Já Thalberg via o negócio como um todo, nada poderia ser dissociado.

Irving Thalberg.

Uma das figurinhas carimbadas da Universal era o diretor/ator Erich Von Stroheim, famoso pelos personagens alemães pra lá de estereotipados. Ele tinha, em geral, todo controle sobre o filme: atuava e dirigia. Rios de dinheiro eram postos na sua mão e ele adorava torrá-lo. Nesse momento o controle do orçamento de um filme era algo inexistente em Hollywood. Irving Thalberg chegou para colocar ordem nessa bagunça. Agora as produções passavam por seu crivo, todos os centavos eram milimetricamente calculados. Ele respeitava o trabalho dos diretores contanto que não ultrapassassem o orçamento. John Ford e Tod Browning, dois grandes diretores da Universal, adaptaram-se a esse modelo; Erich Von Stroheim não. E o pior: Erich contava com o apoio do presidente do estúdio. Carl era fascinado por Von Stroheim, logo os pedidos de economia por parte de Thalberg foram sumariamente ignorados. No fim das contas Erich irritou-se com aquele sistema muquirana e saiu da Universal.

Erich Von Stroheim.

O clímax dessa história se deu pouco tempo antes do lançamento de O corcunda de Notre-Dame, filme protagonizado pelo grande Lon Chaney. Ao olhar os copiões Thalberg achou que algumas cenas precisavam ser refeitas. Carl, como sempre, não estava muito de acordo. As cenas acabaram sendo refeitas e esse filme foi o grande sucesso da Universal Pictures em 1923. Talvez tenha sido naquele instante que Irving percebeu que seu chefe jamais daria o valor que ele merecia. Laemmle recusara torná-lo sócio do estúdio e a mesquinharia em relação aos filmes A continuava. Ele deve ter pensado: em que parte desse contrato está escrito que sou obrigado? Assim, Thalberg abandonou a barca e foi contratado por Louis B.Mayer, que naquela época ainda não havia fundado o estúdio MGM ao lado de Marcos Loew.

E aí, meus amigos, outro capítulo da história começaria: o que Carl ficaria com seu pequeno estúdio enquanto Thalberg levava a futura MGM aos céus.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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