A besta humana (1938)

A besta humana (1938)

Não existe arte sem transformação.

Jean Renoir

 

A besta humana, filme de Jean Renoir, é um dos poucos títulos em francês que figura na programação do Summer of Darkness, um especial do canal TCM neste mês e em julho dedicado aos filmes noir. Aquilo me intrigou. Até o momento havia assistido apenas A regra do jogo e A grande ilusão, dois filmaços de Renoir, e nenhum deles tinha algo a ver com noir. Então por que A besta humana teria? Durante todo filme procurei por pistas que me levassem a uma teoria, e não é que realmente tem a ver?

O primeiro ponto em comum com os filmes noir, que viriam nos anos da Segunda Guerra e nos do pós-guerra, diz respeito à questão do destino. Em A besta humana temos pessoas comuns que caem numa armadilha fatal do destino. Não há escapatória. As personagens estão presas por uma corrente, que se arrebentar terminará com todos: o assassinato de Grandmorin (Jacques Berlioz), testemunhado por Jacques (Jean Gabin). No entanto, antes da personagem encontrar-se com os assassinos, o casal Roubaud (Fernand Ledoux) e Sévérine (Simone Simon), nós já temos uma tônica de que certamente essa história não terminará bem. Isso porque nos créditos de abertura temos uma citação do livro homônimo de Émile Zola, de onde Renoir se inspirou para realizar o filme, dizendo que a personagem vai pagar pelos “pecados” de seus antepassados. Aqui a questão do destino se faz ainda mais clara, está no sangue de Jacques, ele simplesmente não pode fugir. Ele tem ataques de fúria, um desejo incontrolável de matar, e lá no fundo você sabe que isso não vai prestar

Um de meus diálogos favoritos de filme noir acontece no filme Pacto de Sangue quando Keyes (Edward J.Robinson) diz que os assassinos embarcaram numa viagem só de ida e a parada final é o cemitério:

They’re stuck with each other and they got to ride all the way to the end of the line and it’s a one-way trip and the last stop is the cemetery.

Essa frase poderia resumir o casal Roubaud e Sévérine. O marido, em um acesso de ciúmes, assassina o amante da esposa que não faz nada para impedir. Na realidade, ela sabe o tempo inteiro o que acontecerá, mas está de mãos atadas e parece se conformar com seu destino. Após o assassinato os dois têm um diálogo que se parece bastante com a frase dita por Keyes. Eles estão presos um ao outro para sempre, um laço muito forte os une, no caso o assassinato. É incrível como elementos pessimistas dos filmes noir estão presente em um filme que se faz muito mais otimista do que o livro de Émile Zola. Isso porque Renoir, por causa do contexto de 1938 e da iminência de uma segunda guerra mundial, não quis deixar o filme pessimista demais. Ainda sim temos o fatalismo e o pessimismo caminhando junto ao otimismo característico de Jean Renoir.

É claro que o realismo poético, algo que Renoir simplesmente amava, está bastante presente em A besta humana. Você tem o cotidiano do sistema ferroviário francês e daquelas pessoas que trabalham ali. Elas são simples, engraçadas e gente como a gente. É como se você pudesse encontrá-las a qualquer momento na rua de tão reais que parecem. Elas são tão humanas que até as personagens mais asquerosas nos despertam alguma sensibilidade. Roubaud, o assassino, é um exemplo deles. Acompanhamos seu desgaste mental durante todo filme e chegamos até mesmo a sentir pena dele.

A besta humana é um clássico do realismo poético, mas como os filmes são essa caixinha de surpresas podemos até mesmo estabelecer comparações com algo que nem havia surgido ainda: os filmes noir. Um filme tão rico que nos possibilita inúmeras análises, além de conhecermos um pouco da França dos anos 30. Imperdível para quem adora uma boa dose de drama, uma direção cuidadosa e atuações magníficas.

Curiosidades:

  • Algumas fontes afirmam que Renoir tinha medo de reler A besta humana, pois achava que a obra influenciaria em seu filme; outras dizem que ele leu apenas um pouco antes das gravações;
  • Essa é a terceira parceria entre Jean Gabin e Renoir;
  • Émile Zola, autor do livro que inspirou o filme, era amigo do pai de Renoir;

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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