A mulher do dia (1942)

A mulher do dia (1942)

Hoje seria aniversário de uma das mulheres mais influentes e pra frentex que já tivemos em Hollywood. Em um sistema dominado por homens, em que as mulheres tinham bem menos poder do que atualmente, ela atreveu-se a quebrar regras. Não foram as calças compridas que tornaram Katharine Hepburn mundialmente famosa; e sim sua personalidade, que muitas vezes atravessava os papeis que fez no cinema.

A mulher do dia é um desses incontáveis trabalhos de uma atriz que foi indicada 12 vezes ao Oscar. Sua personagem, Tess Harding, é uma mulher completamente fora dos padrões esperados em 1942. Apesar da lição de moral sexista dada no final do filme (segura o spoiler!), Kate aproveita para dar aquela sapateada básica na cara do cinema. Aqui ela é uma mulher influente, independente, tudo que gostaríamos de ver mais em filmes antigos. Além disso, A mulher do dia foi o primeiro filme da parceria Katharine-Spencer Tracy dentro e fora das telas.

Não era algo que nossa aniversariante do dia não aceitava fácil. E muito menos pouca porcaria. Kate levou para casa um sim bem grande de Louis B.Mayer, presidente da MGM isso sim. Sim, ela teria o diretor que quisesse, um salário de $100.000 e o co-protagonista que bem entendesse. Não é a toa que Kate era uma das poucas atrizes que Bette Davis invejava.

Para dirigir A mulher do dia, Kate escalou George Stevens que já havia dirigido a atriz em Alice Adams em 1935. Eles inclusive estavam envolvidos no começo das filmagens de A mulher do dia, mas como a vida é essa caixinha de surpresas o romance estava com os dias contados.

Reza a lenda que quando Spencer e Kate foram apresentados por Joseph Mankiewicz, o produtor do filme, ela teria dito: “Tenho a impressão de que sou um pouco alta para você, Sr. Tracy”. E a resposta maliciosa dele foi: “Não se preocupe, Srta. Hepburn, irei ajustá-la ao meu tamanho”.

O resto é história e Camila já nos contou em seu maravilhoso post, Kate & Spence: um sentimento ímpar.

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A mulher do dia foi baseado na vida da colunista Dorothy Thompson e foi escrito especialmente para Hepburn por Garson Kanin. Tess Harding (Kate) é uma colunista muito famosa, que tem tanta influência que alguns a consideram a 2ª Primeira Dama depois da Sra. Roosevelt. Um dia, Sam Craig (Spencer Tracy) ouve Tess comentar no rádio que o basebol, esporte do qual ele é comentador, deveria ser suspenso até o final da 2ª Guerra Mundial. Ele fica furioso, escreve um texto pra lá de indignado na sua coluna, Tess responde no mesmo tom e assim eles ficam sabendo que o outro existe.

A cena em que eles se encontram pessoalmente pela primeira vez já toca fogo no cabaré e nos dá a tônica da química Spence-Kate que só estava começando naquela época. Sam abre a porta e vê as pernas longas de Tess esticadas. A expressão de Spencer Tracy, meus amigos, diz muito mais que 40 páginas de diálogo. E o que dizer sobre Kate e suas pernas deslumbrantes? Apenas o meu silêncio! É incrível a química entre as personagens, você risca o fósforo e espera as labaredas virem.

Porém há problemas. Ah, os bons e velhos problemas. Eles começam por causa do caráter de Tess. Ela é independente, não tem tempo para nada, é egoísta, refinada, fala mais de quatro línguas (Kate falando russo e alemão é música para nossos ouvidos) e é poderosa. Sua coluna exerce uma grande influência na imprensa. É essa a mulher que tínhamos em 1942? Não, senhor! Vocês imaginem as mulheres assistindo a este filme e tendo ideias. Ideias de que poderiam ser exatamente como Tess Harding. Sentindo-se representadas por essa personagem e não pelas mocinhas de bom coração.

Para mim a cena mais surpreendente de todas é certamente a do discurso feminista. Nessa vida severina cinéfila, eu poderia dizer que jamais escutei a palavra feminismo em filmes da Era de Ouro. Nunca. No entanto, Tess Harding está discursando para mulheres e falando sobre igualdade de salários! Onde estão meus sais?  Lá pelas tantas a temida palavra,feminismo, é pronunciada. Katharine Hepburn, eu te amo! O discurso carrega muitos problemas, só há a presença de mulheres brancas e ricas (ou seja, esse feminismo serve para quem?), mas é 1942! E só por isso acho que a cena merece o dévido mérito. Não vejo outra atriz mais adequada para falar sobre feminismo do que Kate. Ela realmente viveu aquelas palavras.

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Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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