Testa de ferro por acaso (1976)

Testa de ferro por acaso (1976)

A América, terra das oportunidades, com sua imponente Estátua da Liberdade, foi palco de um dos maiores episódios anti-democráticos nos anos 50: o Macarthismo. Conhecido também como “Caça às bruxas”, essa foi uma época em que ser comunista ou apenas simpatizante significava desgraça pessoal.

Em defesa dessa falsa “liberdade de expressão”, afinal o comunismo ameaçava os valores americanos, pessoas foram despedidas de seus empregos, perseguidas e até levadas ao suicídio.

A caça às bruxas é um reflexo da Guerra Fria, mas muito mais do que isso; reflete a deturpação da expressão liberdade de expressão. Liberdade de expressão para quem? Certamente não para aqueles que eram comunistas. Quanta ironia a dita “terra das oportunidades” caçar e exterminar a vida dessas pessoas simplesmente por suas crenças políticas.

Esse é o tema do filme Testa de ferro por acaso, um dos relatos mais verdadeiros do que o governo americano fizera com as vidas de pessoas que trabalhavam em Hollywood ou na televisão. Também quem pudera: o filme fora escrito e dirigido por pessoas que foram caçadas naquela época. Deu para sentir o grau de realness?

O começo de Testa de ferro por acaso é completamente irônico. Martin Ritt, o diretor, vai intercalando imagens do american way of life e seus símbolos, como Marilyn Monroe, com mísseis, soldados que voltam da guerra, bombas e a Guerra Fria. Tudo isso embalado pela voz de Frank Sinatra.

Alfred Miller (Michael Murphy) é um roteirista que está na lista negra e precisa desesperadamente escrever para sobreviver. A lista negra foi criada pelo Comitê de Atividades Não-Americanas e arrolava atores, diretores e roteiristas ligados ao Partido Comunista. Estar nessa lista significava que você não poderia mais trabalhar, já que as emissoras de televisão, rádio e Hollywood tinham um medo danado de ir contra o governo americano. É aí que entra a personagem Howard Prince (Woody Allen): ele será o testa de ferro dessa história. Alfred pede a ele que use sua identidade para que ele continue escrevendo. Ou seja: os roteiros são escritos por Miller, mas levam o nome de Prince. Simples, não?
Alfred Miller e Howard Prince.

Howard, um simples caixa de lanchonete, aceita. Aliás, ele é o oposto do amigo, que é culto e bem informado. Para Howard tudo não passa de uma grande zueira, ganhar um dinheirinho por fora, já que estava endividado. Porém a grande ironia da história é que os supostos roteiros de Prince começam a fazer sucesso com a emissora de televisão. Eles querem mais. E mais. Assim, Howard torna-se testa de ferro não só de Alfred, mas dos amigos de seus amigos.

A escolha de Woody Allen para o papel de Howard Prince, ao meu ver, não parece um fruto do acaso. Com sua figura caricata, ele simboliza uma quebra da seriedade do filme. Ele não sabe o que está fazendo, as consequências que ser testa de ferro podem lhe trazer. E isso rende momentos pra lá de engraçados, como quando ele sai com Florence Barrett (Andrea Marcovicci), funcionária da emissora para qual escreve os roteiros. Ela está claramente mais apaixonada pelas ideias do escritor do que pela pessoa. Às vezes temos a sensação de estar num filme dirigido por Woody Allen.

Hecky Brown (Zero Mostel) é o protagonista da série de televisão para qual Howard escreve. Lá pelas tantas ele é chamado pelo Serviço Liberdade de Informação que o acusa de ser comunista. Ele teria participado de uma marcha em prol do comunismo, além de envolver-se com uma garota comunista. Aqui temos um reflexo do que a caça às bruxas fez com a vida das pessoas. Hecky tem a vida arruinada pelo simples fato de ter ido à marcha, embora ele alegue ter feito isso para conquistar a moça. A emissora de televisão o despede, seus amigos começam a ignorá-lo. Brown vê-se sem chão de repente.

Hecky Brown e Howard Prince.

A delação é um sujeito bastante delicado e tratado de uma maneira muito verdadeira no filme. Acredito que os artistas não delatassem os colegas por prazer, simplesmente porque queriam salvar sua pele. Hecky aceita cooperar com o Serviço Liberdade de Informação e espionar Howard Prince com a promessa de que voltaria a trabalhar. O diretor Elia Kazan foi um famoso delator, acabando com a carreira de colegas. John Garfield foi um dos delatados por ele, dizem que o ator não aguentou a pressão e isso teria motivado o infarte que o matou em 1952. Depois de toda a confusão com as delações, Kazan dirigiu Sindicato de Ladrões, uma tentativa de justificar seus atos delatórios.

A lista negra de Hollywood contava com 43 pessoas, 11 foram chamadas para depor e 10 recusaram-se a responder se eram comunistas ou não. Ficaram conhecidos como “Os dez de Hollywood”. Eles evocaram a Primeira Ementa americana, que dá direito à liberdade de expressão, mas acabaram indiciados por desacato ao Congresso.

Dois movimentos surgiram como reação aos “Dez de Hollywood”:
  • Comittee for the First Amendment: comitê fundado por Lauren Bacall, Humphrey Bogart, dentre outras personalidades que defendiam a primeira ementa. Um documento com 204 assinaturas foi feito em prol dos “Dez de Hollywood”.
  • Walt Disney fundou o MPA (Motion Picture Alliance for the Preservation of American Ideals), uma aliança para preservar os valores americanos. Contava com membros célebres como Robert Taylor (que delatou coleguinhas), Barbara Stanwyck, King Vidor, Ginger Rogers etc etc

A regra era basicamente que se você respirasse ou espirasse perto de comunistas era um deles.

Testa de ferro por acaso deve ter lavado a alma do diretor Martin Ritt e do roteirista Walter Bernstein, ambos colocados na lista negra nos anos 50. Inclusive há muitas cenas baseadas em coisas que o próprio Walter viu e viveu na época do macarthismo. Uma delas é quando Hecky vai a um evento, depois de ter sido indiciado como comunista, e acaba recebendo um cachê de 250 dólares quando o prometido era 500. A personagem submete-se a essa humilhação, pois depois de terem carimbado “comunista” em seu rosto, ninguém mais queria contratá-lo.

O filme é uma ótima oportunidade de entendermos melhor um período que abalou a vida de diversas pessoas. Além disso, nos faz refletir sobre o que é liberdade de expressão. Em nome dela, temos discursos de ódio contra minorias, tentativas de silenciar o que realmente acontece no nosso país e no mundo. A era do macarthismo pode até ter acabado, mas os resquícios dela estão mais presentes do que nunca.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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