O clube das desquitadas (1996)

O clube das desquitadas (1996)

Anteontem, dia oito de março, foi o dia internacional da mulher. Muito mais do que receber flores, parabéns ou chocolates esse é um dia (e todos os outros 364 do ano também) para refletirmos à respeito de como Hollywood retrata as mulheres. Por que não vemos diretoras, roteiristas sendo indicadas ao Oscar? Por que mais atrizes negras não vencem o Oscar? Por que Patricia Arquette tem de discursar a favor de salários e direitos iguais (e seu discurso foi bem problemático, mas não vamos entrar nesse mérito por aqui) em 2015? Porque, amigx, a verdade é que ainda há um caminho muito comprido a ser percorrido pelas mulheres.

Queria ter escolhido um filme que emponderasse as mulheres, mas lá pelas tantas pensei que valeria mais a pena levantar problemas para que possamos pensar em como o cinema nos retrata. O clube das desquitadas é um de meus filmes favoritos e, como feminista, é duro ver alguns clichês repetidos à exaustão como mostrar que as mulheres são inimigas umas das outras e que a felicidade plena se baseia na escolha de alguém para passar o resto da vida com você.

 
O clube das desquitadas é baseado no livro homônimo de Olivia Goldsmith e tive a oportunidade de lê-lo no final do ano passado. A sensação que tive é que o melhor do livro, as questões mais interessantes, foram cortadas em detrimento do tom de comédia. Por exemplo, a personagem de Diane Keaton, Annie, tem uma filha portadora de Síndrome de Down no livro. No filme, a filha foi transformada em uma mulher lésbica. A intenção é fazer-nos rir, mas onde está a problemática? Fugiu. Por vezes sinto que esse filme trata, de maneira engraçada, de problemas sérios que são engolidos pelas risadas. Você não consegue parar para pensar porque está se matando de rir com as piadas de Bette Midler.
O filme conta a história de três mulheres, Annie (Diane Keaton), Elise (Goldie Hawn) e Brenda (Bette Midler) que, após o suicídio de uma amiga da época de faculdade, decidem vingar-se de seus maridos depois de terem sido trocadas por mulheres mais jovens.
 
O suicídio de Cynthia e a virtude de uma felicidade compartilhada
Cynthia (Stockard Channing) suicida-se porque não aguentou a decepção de ver seu marido casando-se com outra mulher mais jovem. De uma forma bem tímida, temos colocada uma questão que persegue as protagonistas de filme desde o começo do cinema: a felicidade compartilhada. Você só será plenamente feliz se encontrar a metade da laranja, dois amantes, dois irmãos. Cynthia achava que não poderia ser feliz sozinha, que a vida havia acabado e por isso a única solução encontrada fora a morte. É tão engraçado, filmes ditos “modernos” pregam essa que é uma das lorotas mais ridículas que gostam de contar às mulheres. Se pensarmos nos filmes dos anos 60 de Doris Day, a mulher moderna, independente, é assombrada pela ideia de não ter ninguém para dividir as angústias. Há uma falsa libertação da mulher, não somos livres para escolher não termos alguém. O suicídio de Cynthia mostra a pressão da sociedade sobre nós. Temos de ser mães, trabalhar, ganhar dinheiro e ainda ter alguém. Se você destoar da norma, já vai ser vista com outros olhos. A juventude é valorizada mais do que tudo, não é a toa que nossas três personagens principais encaram as esposas dos ex-maridos como inimigas. Na realidade, elas estão fantasiadas de inimigos. Mas o inimigo é o patriarcado, o sistema que mantém essas regras em vigor.
 
Brenda, a gordofobia e o problema em “ser engraçada”
A personagem Brenda (Bette Midler) é uma das coisas mais interessantes do filme. Ela sofre gordofobia o tempo inteiro, mas não hesita em soltar frases para a nova esposa do seu ex, Shelly (Sarah Jessica Parker), do tipo: “Meu Deus, a bulimia certamente tem adiantado para alguma coisa”. As opressões são diferentes, é claro, pois quem é magro tem o privilégio de sê-lo. Socialmente ser gordo não é aceitável. Eu não tenho vivência em relação à gordofobia, por isso não poderia dizer o que essas pessoas sentem na pele. É muito duro ver Brenda ofender Shelly por seu privilégio magro, mas acredito que seja como a frase de Malcoln X: “Não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor”. Outro problema que podemos notar em relação ao personagem Brenda é o fato de ela ser engraçada. As tiradas dela são sensacionais, mas aí esbarramos naquela frase tenebrosa de que a pessoa é engraçada, mas não é bonita. Brenda é engraçada para preencher a lacuna “não é bonita”. Isso é problemático à medida que nos torna escravas da beleza. Você não tem a obrigação de ser bonita! A beleza é uma construção social, criada para que sejamos como troféus, conquistas. O cara que diz aos amigos que pegou uma mina linda, esse cara nós respeitamos. Nós devemos existir para nós mesmas e não para outrxs. Brenda passa a metade do filme sofrendo, tentando emagrecer, para sair do padrão “engraçadinha”.
Annie e o que a sociedade espera de nós como mulheres
Há uma parte de O segundo sexo em que Simone de Beauvoir chamada “Destino”. Ela discorre sobre aquilo que está destinado às mulheres. Um casamento, filhos, cuidar do lar. Annie (Diane Keaton) é a personagem que seguiu o seu “destino” como manda o figurino: casou-se, teve uma filha e sempre foi a esposa exemplar. A personagem tem traços muito inseguros, problemas de auto-estima que são reforçados por sua mãe controladora. Quando confrontada pela própria filha sobre o fato de estar ek um relacionamento abusivo com o ex-marido, ela diz: ele é o seu pai! Mas trata você como um capacho! – a filha responde. Annie parece adorar esse homem a todo custo e se contentar com as migalhas que ele lhe dá. Às vezes é difícil percebemos que estamos num relacionamento abusivo – o que dirá sair dele –  e é o que acontece com ela. Vejo nas três personagens principais traços das mulheres que conheço, mas Annie é um caso que me toca muito mais o coração porque enxergo a vontade tremenda que temos (às vezes indiretamente) de nos encaixarmos em certos padrões e de nos culparmos por não satisfazer o que a sociedade nos pede. Uma cena me toca bastante que é quando a personagem está na psicóloga e não consegue sentir raiva. Penso em como somos ensinadas a aceitarmos tudo pacificamente, sentir raiva é feio, é coisa de mulher barraqueira. E mulheres são como ladies afinal. Bobagem! Ao longo do filme, Annie vai mudando a maneira de ver o mundo.
 
Elise e as aparências
Elise (Goldie Hawn), financeiramente falando, é a mais privilegiada das três. Ela é atriz e o filme mostra bastante como a questão da aparência perfeita nos atravessa. No começo de O clube das desquitadas, ela está no consultório do seu médico, implorando por outro botox. Ele reluta, mas acaba fazendo. Elise sai do consultário com os lábios inchados. Você tem que parecer eternamente jovem e essa é a busca da personagem o filme inteiro. A questão da cirurgia plástica é delicada, sou partidária de que cada um faz o que quer com seu corpo, mas até que ponto mudar nossa aparência é uma decisão motivada por nós mesmos e não pela sociedade? Refaço a pergunta: até que ponto a sociedade não nos influencia? E se você é uma mulher negra é ainda pior, pois são os padrões da mulher branca que querem enfiar goela abaixo.
 
The first wives X esposas mais jovens
O filme demoniza as garotas mais jovens por quem as primeiras esposas foram trocadas. Elas são fúteis, não tem nada na cabeça e são apenas um corpo bonito. Poxa vida, mas elas também não sofrem opressão? Claro que sim! No fim das contas, esposas atuais e ex-esposas acabam se unindo em prol de algo maior, mas até a metade do filme é uma demonização sem fim. Somos ensinadas que se o fulano me traiu, a culpa é da mulher com quem ele se envolveu. Puxa, mas e o cara? Ninguém o forçou a trair, a mulher em questão não colocou uma faca sem pescoço e o ameaçou de morte caso ele não quisesse algo com ela. Está na hora de desconstruirmos esse ódio, que só é benéfico ao patriarcado.

O clube das desquitadas é um filme que tenta pregar um feminismo branco, sem intersecção, sem considerar as vivências de outras mulheres. Os problemas são resumidos a elas serem trocadas por mulheres mais jovens, à questão da aparência e à velhice. Ninguém pensou nas mulheres negras e latinas que sofrem essas opressões de forma diferente. Essa é uma tendência dos filmes em geral, o que acaba tornando superficial uma questão tão forte quanto o feminismo. Que neste oito de março o nosso feminismo seja menos branco e mais interseccional. Que possamos olhar além do nosso umbigo, dos nossos problemas. Vamos rever nossos privilégios como mulheres brancas, aliás, o cinema está aí para mostrar isso. Quantas mulheres negras ou latinas venceram o Oscar? Quantas dirigem, atuam ou escrevem? Somos irmãs, mas as opressões que nos atravessam são diferentes, sim. Nunca podemos nos esquecer disso.

Por um cinema que não faça da mulher branca o único canal.

Escrito por Jessica Bandeira

Estudante de história, tradutora e noveleira.

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