A costela de Adão (1949)

A costela de Adão (1949)

Nunca escondi aqui no blog que Katharine Hepburn é a minha atriz favorita, e que o casal que ela formou com Spencer Tracy dentro e fora das telas me deixa em modo sofrência. Já dediquei um post antes para falar da história dos dois, e do quanto admiro/invejo a capacidade de Kate ter amado esse cara de maneira tão incondicional e não-egoísta (logo ela, que era uma pessoa tão “eu, eu, eu”).

Bom, essa linda química não ficava só nos bastidores: eles fizeram nove filmes juntos, e se tornaram o casal-modelo das comédias românticas da maneira que as conhecemos hoje – o par que se detesta e se alfineta o tempo todo, mas que no fim das contas, acaba junto; a velha comédia da guerra dos sexos. Esse foi um tema que permeou alguns de seus filmes. O exemplo mais claro disso – e também meu favorito da dupla – é A costela de Adão, de 1949.

Katharine Hepburn sempre foi uma mulher fora do comum, a frente do seu tempo. Em uma sociedade machista e patriarcal, ela sempre fez o que quis sem perguntar a opinião de alguém. Foi a mulher fabulosa que sua família a criou para ser. Mas o que isso tem a ver com o filme? Pois é. Acontece que Amanda, a personagem da atriz em Adam’s Rib, é mais uma daquelas que deixa transparecer nas telas muito do que ela pensava e era. Não tinha pra ninguém. Muito menos para o pobre personagem de Spencer, Adam.

66 anos se passaram, Kate, e não mudou muita coisa não.

Adam e Amanda Bonner formam um casal de felizes advogados. Tudo no casamento dos dois é perfeito; eles são grandes companheiros, que se admiram mutuamente, se amam, e sempre apoiam um ao outro, apesar de ambos terem personalidades e opiniões fortes. Eles até tem apelidos carinhosos dentro de casa: Pinky (ele) e Pinkie (ela). Até que Adam assume o caso de um homem (Tom Ewell) que sofreu uma tentativa de assassinato por parte da esposa (Judy Holliday), quando esta o flagrou durante uma traição. Tudo normal, até que uma indignada Amanda resolve assumir a defesa da esposa traída, que está sendo acusada de tentativa de homicídio. A indignação e revolta de Amanda também é a nossa: se um homem tivesse sido traído (ainda mais naquela época!) pela mulher e tentasse atirar na mesma, seria facilmente absolvido e apoiado pela sociedade. E isso é o que a advogada quer fazer com que os outros enxerguem, sobretudo o seu teimoso marido.

É claro que eles não conseguem restringir o caso à vida profissional. A história tem grande repercussão na imprensa, e acaba por interferir na vida do casal. Adam não se conforma por a mulher ter entrado na história; afinal, querendo ou não, a esposa tentou matar o imbecil do marido. Mas Amanda insiste em basear sua defesa na desigualdade dos sexos – homem trai = gostosão. Mulher trai = vagabunda. E assim por diante.

Amanda aos poucos consegue a simpatia do público, enquanto Adam vira uma espécie de piada nacional. E em casa a guerra continua entre eles. A propaganda do filme não época já questionava Who wears the pants in your family? – tipo, como é que você deixa sua mulher te mandar, cara? Provocação pura, típica da época – o homem precisa ser o líder, o chefe, mas, pelo menos por aqui, ele leva um baile. Afinal, é Kate Hepburn, não?

O filme consegue, apesar de tudo, fazer uma comédia divertida, inteligente e charmosa com o tema, ao questionar o papel que a sociedade impõe a mulher. Para saber o resultado, você precisa correr para assistir!

 

O final é hilário,  assim como toda a sequência no tribunal. Sob a batuta do BFF de Kate, George Cukor, temos o casal no seu auge cômico aqui. Aliás, Katharine Hepburn não trabalhou muito nessa década. Desde que conheceu o ator e eles começaram um relacionamento em 1942, ela decidiu se dedicar ao relacionamento, e só procurava por scripts em que eles pudessem trabalhar (e estar) juntos, já que, pelo fato de o ator ser casado, eles precisavam ser discretos, e ter uma desculpa pra estarem juntos oficialmente. Quando o roteiro de Adam’s Rib (escrito especialmente para eles, pelo casal Ruth Gordon e Garson Kanin, amigos dos dois) caiu em suas mãos, Kate não pensou duas vezes e aceitou. A impressão que dá é que eles se divertiram imensamente fazendo esse filme. Eles adoravam estar juntos.

A costela de Adão é o melhor filme da dupla, e uma das melhores comédias dos anos 1940. Mais tarde, as tramas e intrigas de Kate e Spence seriam repetidos à exaustão nas comédias românticas contemporâneas – umas com sucesso, outras nem tanto. Aliás, a novela Guerra dos sexos. de 1983, foi inspirada nesse filme.
Sente o drama absolutamente real de Adam Bonner.
(Um sonho: alguma distribuidora lançar por aqui um box com os filmes desses lindos. FICA A DICA).
Impossível não amar esse casal e a magia que eles faziam nas telas. Puro amor, e talento, e chuva de Oscar pra todo lado.

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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