Contagem regressiva para o Oscar: o ano de 1955

Contagem regressiva para o Oscar: o ano de 1955
Ali estávamos, só nós dois. Foi terrível. O momento mais solitário da minha vida.
Se tem um ponto sensível na vida de quem gosta de cinema, relacionado ao Oscar, é a premiação da Academia de 1955. Até hoje muita gente se incomoda e defende com unhas e dentes o Oscar de Judy Garland. Não sei bem ao certo se sou uma dessas. E ainda me incomodo um pouco ao dizer isso, por causa de gente xiita, mas afirmo que tem coisa MUITO pior em relação ao Oscar (Gwyneth Paltrow, alguém?).

Mas, vamos por partes. Nem só de Grace Kelly surrupiando o Oscar da Judy vive a 27ª edição da premiação mais polêmica – e às vezes flopada – de todos os tempos. Teve todas aquelas coisas que sempre tem: gente bonita, falsidade, lindos vestidos, chapéus estranhos, gente com cara de bunda, e filme que merecia ganhar, ganhando.

Sindicato de Ladrões: o rolo compressor da noite
 
Eva Marie Saint com seu Oscar de melhor
atriz coadjuvante por Sindicato de ladrões.
 
Falam tanto da história Judy-Grace no Oscar, que acabam esquecendo do grande injustiçado da história: Janela indiscreta, de Alfred Hitchcock. Não me entra na cabeça o motivo de Sete noivas para sete irmãos e A fonte dos desejos (dois filmes que amo) entrarem na disputa, e o filme do Hitch ter ficado fora. Porém, felizmente, nenhum desses outros dois filmes ganharam – como eu disse, gosto de ambos, mas acredito que nenhum deles tenha aquele potencial de ganhador do Oscar.

O grande vencedor mesmo da noite foi Sindicato de Ladrõesque fala sobre a máfia do sindicato de portuários, e um homem (Marlon Brando) que, inicialmente é um aliado dentro desse esquema, mas que aos poucos vai tomando consciência do que o cerca. Foram 12 indicações e um total de 8 vitórias para o drama dirigido por Elia Kazan, que, aliás ganhou como melhor diretor – apenas lacrador – mesmo que o polêmico diretor tivesse o ódio de muitos em Hollywood pelas denúncias e delações que fez na era do Macartismo. O filme levou ainda dois dos prêmios principais: melhor ator, para Marlon Brando, que foi estranhamente humilde e doce em seu discurso de agradecimento (mais tarde o ator mostraria todo seu desprezo pela premiação, ao ganhar sua segunda estatueta); e também, a película ganhou na categoria Melhor Filme. Sindicato de Ladrões tornou-se um clássico inegável do cinema americano. Não é que de vez em quando a Academia acerta de jeito?

Grace Kelly: a odiada.
 
 Nem a então futura Princesa de Mônaco acreditou quando William Holden, seu colega de filme e pegação, subiu ao palco para anunciar o prêmio de melhor atriz, e, sorrindo abertamente, disse: “Grace Kelly, por Amar é sofrer!”. Nem Judy Garland. A mídia e o público, e toda a reação que houve com sua atuação em Nasce uma estrela, fez com que Judy acreditasse que aquele Oscar ERA dela. Ela não estava presente, pois tinha acabado de dar à luz ao seu terceiro filho, e as câmeras estavam à sua volta no hospital, prontos para capturar a sua reação à vitória.

Mas não foi dessa vez. Grace, tímida, subiu ao palco e agradeceu com pouquíssimas palavras: “A emoção desse momento me impede de dizer o que realmente sinto. Só posso agradecer de coração a todos que tornaram isso possível para mim”. Mais tarde a atriz confessaria que o momento em que ficaram só ela e a estatueta no quarto de hotel após a festa foi o momento mais solitário de toda a sua vida.

Judy ficou inconsolável e furiosa. Para ela, Grace só ganhou por fazer uma personagem não glamourosa; é quase como se tivessem tentando enfeiá-la no filme em que interpreta a sofrida esposa de um alcóolatra (Bing Crosby) – não conseguiram, é claro. Judy olhava para a televisão do hospital e resmungava sobre Grace “taking off her fucking makeup and grabbing MY Oscar!”. O público estava do seu lado. Até hoje a vitória de Grace é dos temas mais controversos quando se fala de Oscar. Mas penso que ninguém chega a considerar a atuação da atriz em The country girl. O fato de que Grace fez muitos filmes de sucessos naquele ano pode ter pesado na decisão da Academia também.

O meu brilho você quer / Meu Oscar você quer / Mas
você não leva jeito / Pra ter sucesso, amor, tem que fazer direito
Resumindo: o choro é livre. Amo a Judy, mas, infelizmente, ela não ganhou, e não adianta ficar odiando a Grace por isso. Não foi ela que escolheu. Não muito depois de sua vitória, Grace deixaria Hollywood para se tornar a Princesa Grace de Mônaco – o melhor papel de toda a sua carreira.
Curiosidades
 
Bob Hope fazendo a linha “Tio que bebe no
baile e assedia as garotinhas na cara de pau”.
  • – Bob Hope, o arroz de festa mor, foi mais uma vez o apresentador da cerimônia.
  • – A vitória de Marlon Brando foi considerada uma surpresa, já que o favorito era Bing Crosby por Amar é Sofrer (really, bitch?).
  • – Com 8 vitórias, Sindicato de Ladrões se igualou ao maior vencedor do ano passado, A Um Passo da Eternidade, e a E O Vento Levou. Até aquele momento, os dois longas eram os recordistas absolutos da premiação.
  • – Para compensar o fato de que a lenda do cinema Greta Garbo nunca tinha recebido um Oscar de Melhor Atriz (valeu, Academia, sua vadia!), ela foi honrada nessa edição com um Oscar Honorário.
  • – A canção Three coins in the fountain, de A fonte dos desejos, ganhou como Melhor Canção Original, ao passo que o filme Sete noivas para sete irmãos ganhou por Melhor Trilha Sonora em Musical.
  • – Dorothy Dandridge tornou-se a primeira Afro-americana a ser nomeada para o Oscar de Melhor Atriz em um papel principal, por sua atuação no filme Carmen Jones.
P.S.: Que chapéu era aquele que a Bette Davis tava usando hein?
 
Não está sendo fácil.

Escrito por Camila

Formada em Letras e na Academia Douglas Sirk de sofrência e pregadora na Igreja Universal do Reino de Woody Allen. Uma professora de inglês apaixonada por musicais. Faz parte da Comissão de Avaliação, Seleção e Fiscalização, na área de Cinema e Vídeo, do Financiarte de Caxias do Sul.

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